EXONERAÇÃO INACEITÁVEL: RETROCESSO NAS POLÍTICAS AGRÁRIAS DE RONDÔNIA
À Excelentíssima Senhora
FERNANDA
MACHIAVELI
Ministra de
Estado do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar – MDA
ASSUNTO: Manifestação de
profunda preocupação e insatisfação diante da exoneração do Superintendente do
MDA em Rondônia e exigência de diálogo urgente
Excelentíssima Senhora Ministra,
As entidades, organizações, movimentos sociais,
pastorais, sindicatos, coletivos e representações do campo popular do Estado de
Rondônia, ao final subscritas, vêm, por meio desta carta, manifestar profunda preocupação e insatisfação
diante da exoneração do Sr. Gervano Vicent do cargo de Superintendente Federal
do Desenvolvimento Agrário de Rondônia, efetivada pela Portaria de Pessoal MDA nº 981, de 10
de junho de 2026, publicada no Diário Oficial da União. Tal medida
foi adotada sem qualquer
consulta prévia às organizações sociais que historicamente
acompanham e sustentam as políticas agrárias e da agricultura familiar no
Estado, contrariando o compromisso com o diálogo que esta pasta tem professado
como princípio de gestão.
Cumpre registrar que o Sr. Gervano Vicent foi indicação construída coletivamente
pelos movimentos sociais do campo em Rondônia — o que conferiu à sua
gestão à frente da Superintendência uma legitimidade política e social
raramente alcançada em cargos dessa natureza. Sua atuação, desde a recriação do
MDA e da Superintendência Federal do Desenvolvimento Agrário em Rondônia – SFDA,
contribuiu para reinstalar a presença institucional do Ministério no Estado em
contexto de grave escassez estrutural, abrir canais permanentes de interlocução
com as organizações populares e sustentar agendas cruciais para a população do
campo, dos povos indígenas, das comunidades quilombolas e dos trabalhadores
rurais. Essa trajetória não
pode ser desconsiderada em uma decisão unilateral.
A exoneração, comunicada de forma abrupta, sem diálogo
prévio e sem escuta das entidades que subscreveram a carta de apoio à sua
permanência ainda em março de 2026, aprofunda nossa preocupação com a
continuidade de processos em curso que são absolutamente inadiáveis para
Rondônia:
PROCESSOS EM RISCO COM A DECISÃO
UNILATERAL:
1. A busca ativa de
soluções para os inúmeros conflitos agrários existentes no Estado, muitos deles
com risco iminente de violência e violação de direitos, que exigem mediação
institucional contínua e conhecimento acumulado dos atores e territórios
envolvidos;
2. A implementação das
políticas públicas da agricultura familiar, incluindo o acesso ao crédito
rural, à assistência técnica, ao PNAE, ao PAA, ao PNCF, ao PRONAF e às
políticas de regularização fundiária, cujo andamento depende diretamente da
capilaridade e do engajamento da Superintendência junto às comunidades;
3. A regularização
fundiária de assentamentos, territórios indígenas e comunidades quilombolas,
que envolve processos de longa duração e requer continuidade administrativa
para não se perder o acúmulo técnico e institucional já conquistado;
4. O diálogo
estruturado com os povos e comunidades tradicionais, cujas pautas específicas
demandam interlocutores com sensibilidade política construída ao longo do tempo
junto a esses sujeitos;
5. Programas
estruturantes como o CAF, os mutirões de documentação, a distribuição de cestas
de alimentos para famílias acampadas, ribeirinhas, indígenas, quilombolas e
outros públicos em situação de insegurança alimentar e nutricional; o fomento e
participação em feiras e eventos de valorização da agricultura familiar.
Não ignoramos que nomeações e exonerações são
prerrogativas do Poder Executivo. Contudo, entendemos que o exercício dessas
prerrogativas, quando afeta diretamente a capacidade operacional do Estado em
territórios marcados por vulnerabilidade e conflito, não pode prescindir de transparência e participação
social. A substituição de gestores comprometidos com a pauta agrária
por critérios alheios ao interesse público tende a enfraquecer o projeto
democrático-popular que orienta este governo e a desacreditar aqueles que
apostaram nele como agentes de transformação.
DIANTE
DO EXPOSTO, AS ORGANIZAÇÕES SUBSCRITORAS REQUEREM:
I. A abertura
imediata de diálogo entre o MDA e as organizações sociais de Rondônia acerca do
processo de revisão da decisão de substituição na Superintendência, com
garantia de participação efetiva das entidades do campo popular na definição do
perfil e do nome a assumir o cargo, caso eventualmente não seja reconsiderada a
atual decisão;
II. Que o nome a ser
indicado para a Superintendência tenha familiaridade e comprometimento com a
pauta da agricultura familiar, da reforma agrária, da regularização fundiária e
do diálogo com os movimentos sociais e povos e comunidades tradicionais de
Rondônia, em consonância com os princípios que orientam a missão do MDA;
III. Que se adotem
medidas urgentes para garantir a continuidade de todos os processos em curso na
Superintendência, em especial aqueles relacionados à mediação de conflitos
agrários e à implementação de políticas públicas para a agricultura familiar,
evitando qualquer interrupção que comprometa direitos já em construção;
IV. Que o MDA
reafirme, por meio de atos concretos, seu compromisso com o diálogo social como
método de governança agrária, reconhecendo nas organizações populares parceiras
legítimas e insubstituíveis na construção e implementação das políticas do
campo.
Reafirmamos nosso compromisso com o fortalecimento do
MDA, com a defesa das políticas públicas para a agricultura familiar e com a
construção de soluções baseadas no diálogo, na legitimidade social e no
interesse público. Esperamos, de Vossas Excelências, a disposição para o encontro urgente que a gravidade do
momento exige.
Porto
Velho – RO, 11 de junho de 2026.
ENTIDADES SUBSCRITORAS
COMISSÃO PASTORAL DA TERRA RONDÔNIA – CPT RO
PROJETO ANÁLISE DE CADEIAS DOMINIAIS TED/MDA/UFG/Nº
971264
GEPE-FRONT – GRUPO DE ESTUDOS, PESQUISA E EXTENSÃO
SOBRE ESTADO E TERRITÓRIO NA FRONTEIRA AMAZÔNICA
OBSERVATÓRIO DE CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS E DIREITOS
HUMANOS
REDE POPULAR DE DIREITOS HUMANOS DE RONDÔNIA
COLETIVO POPULAR DIREITO À CIDADE
FÓRUM ESTADUAL DE DIREITOS HUMANOS DE RONDÔNIA
(FORO-DH)
MOVIMENTO DE TRABALHADORAS E TRABALHADORES POR DIREITOS
– MTD/RO
INSTITUTO TERRITÓRIOS E JUSTIÇA – INTERJUS
FEDERAÇÃO DOS TRABALHADORES E TRABALHADORAS NA
AGRICULTURA DE RONDÔNIA – FETAGRO
UNIÃO DAS COOPERATIVAS DA AGRICULTURA FAMILIAR E
ECONOMIA SOLIDÁRIA DE RONDÔNIA – UNICAFES/RO
ASQFORTE – ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA DO FORTE
COEQ-RO – COORDENAÇÃO ESTADUAL DAS COMUNIDADES NEGRAS
RURAIS DE RONDÔNIA
ASQ SANTA FÉ – ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA DE SANTA FÉ
AQPNEG – ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA DE PEDRAS NEGRAS
ARQOS – ASSOCIAÇÃO DE REMANESCENTES QUILOMBOLAS DE
PIMENTEIRAS DO OESTE – COMUNIDADE QUILOMBOLA SANTA CRUZ
MPA – MOVIMENTO DOS PEQUENOS AGRICULTORES
AQSAGUA – ASSOCIAÇÃO QUILOMBOLA DE SANTO ANTÔNIO DO
GUAPORÉ
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA - MST/RO
MOVIMENTO DE MULHERES CAMPONESAS - MMC
MOVIMENTO DAS ATINGIDAS E ATINGIDOS POR BARRGENS - MAB/RO
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