sexta-feira, 29 de maio de 2020

Hoje, 14 hs - horario de Rondonia tem Live


Comissão Pastoral da Terra / RO, realiza hoje, 29 de Maio, as 14hs  horario local, a Live de Lançamento da publicação dos Conflitos no Campo 2019.

Contará com a participação da Liliana -   CPT/R,  do Afonso, professor da Unir, do Rubem da CPT Nacional e  da Vera Lucia, do Conselho Indigenista Missionário- Regional Rondônia.

Acompanhe e participe. 

https://www.facebook.com/Comiss%C3%A3o-Pastoral-da-Terra-Rond%C3%B4nia-291800550861564/?ti=as


“Ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres”


A frase de João Paulo II remonta ao início dos anos de 1980, quando o então pontífice fez uma visita à Cidade do México. Mas traduz também um entrave histórico para o “desenvolvimento integral”, denunciado por uma série de escritos da Doutrina Social da Igreja, com destaque para os documentos finais das Assembleias do episcopado da América Latina e Caribe. O tema das assimetrias socioeconômicas, entre continentes, regiões, países e no interior mesmo de cada país, aparece transversalmente em todo o ensino social da Igreja. Encontra-se presente, de forma particular, nas análises do fenômeno migratório. Este último funciona como uma espécie de pêndulo que, em vão, tentaria equilibrar os pratos da balança.
Pesquisas vêm mostrando que o cenário provocado pela pandemia do Covid-19 tem agravado ainda mais os desequilíbrios sociais entre povos e nações. De acordo com um Relatório do Fórum Econômico Mundial, publicado no último dia 26 de maio, “em pleno vigor do flagelo que atinge toda a humanidade, durante os meses de abril e maio, os superbilionários viram sua fortuna crescer em 19%, o que equivale a um aumento de 400 bilhões de dólares”. O relatório cita, entre outros, os expoentes da tecnologia da informática, tais como Amazon, Microsoft, Youtube, Facebook. Convém não esquecer que no Brasil, um dos países mais desiguais do planeta, 1% dos mais ricos retêm maior renda que a metade da população.
Desgraçadamente, o aumento exponencial da renda e da riqueza dos maiores conglomerados transnacionais, mesmo em tempos de crise (ou devido justamente à crise), não representa novidade alguma. O economista francês Thomas Piketty, o autor do best-seller O apital do século XXI, analisa nessa obra a crescente desigualdade social que se verifica nas últimas décadas do século XX e início do atual. Recentemente, o mesmo economista lança o livro Capital e ideologia. Em entrevista sobre “a superação do hipercapitalismo”, publicada pelo site da rede Globo, no dia 12 de setembro de 2019, comentando a nova obra, afirma literalmente o autor francês: “Se nos negarmos a falar sobre a superação do capitalismo por uma economia mais justa e descentralizada, corremos o risco de continuar fortalecendo as narrativas do avanço identitário, do avanço xenófobo. Estas são histórias niilistas extremamente perigosas para nossas sociedades que se alimentam da recusa em discutir soluções justas, internacionalistas, soluções igualitárias de reorganização do sistema econômico”!
A sua fala deixa claro que a teoria niilista do negacionismo e a “narrativa do avanço xenófobo”, que costumam caminhar de mãos dadas, se agravam no solo ambíguo da pandemia. Com efeito, a crise é palco privilegiado para oportunismos imprevistos. As raras e poucas migalhas que deixam de chegar às mãos e à mesa dos pobres, escorregam sub-repticiamente (ou à plena luz do dia) para as contas bancárias dos super ricos. E esse desequilíbrio constante da balança é fator local, regional e global de grandes deslocamentos humanos. Os “fugitivos” da violência, da pobreza ou dos desastres climáticos correm desesperados atrás das migalhas perdidas. Por sua vez, o aumento das migrações provoca fortes reações preconceituosas, discriminatórias e xenófobas, tanto por parte de grupos racistas e neofacistas fechados, quanto por parte das políticas de extrema direita que avançam pelo planeta.
Resulta evidente que um sistema político e econômico de produção-mercado-consumo, levado à quinta potência, cujo motor é o lucro a qualquer preço e que se nutre através da acumulação do capital, não pode continuar funcionando indefinidamente. A exploração exacerbada dos recursos naturais e da força de trabalho humano tropeça com limites insuperáveis. A mãe-terra, “nossa casa comum” não suporta o ritmo endiabrado da acumulação capitalista. Daí a necessidade de mudanças estruturais nesse sistema que Piketty chama de “hipercapitalismo”. Ele se revela cada vez mais insustentável, tanto do ponto de vista socioeconômico e político-cultural, quanto do ponto de vista ecológico. Além disso, continua levando imensas populações órfãs e errantes à estrada, ao êxodo, ao exílio e à diáspora.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 27 de maio de 2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020

*#ConflitosNoCampoBrasil2019*


 A Comissão Pastoral da Terra/Regional Rondônia (CPT RO) realiza lançamento virtual, nesta sexta-feira, 29, às 14 horas (hora local, 15 horas em Brasília) da publicação Conflitos no Campo Brasil 2019.



*O lançamento será realizado ao vivo na página da CPT no Facebook e no canal da CPT no Youtube*. 

Participam do lançamento, Liliana Won Ancken, coordenadora da CPT RO; professor Afonso das Chagas, da Universidade Federal de Rondônia (Unir); Vera Lúcia Gabriel, Coordenadora do Conselho Indigenista Missionário de Rondônia (Cimi RO). A live será mediada por Ruben Siqueira, da coordenação nacional da CPT.

📍 *Saiba mais:* https://bit.ly/2ZLL2V1

PARTICIPE DA LIVE CONFLITOS NO CAMPO



A Comissão Pastoral da Terra - Regional Rondônia,  convida para acompanhar e participar 

da   Live de Lançamento 

do Caderno de Conflitos no Campo, referente 2019. 

No dia 29 de Maio - sexta - feira
 as 14 hs -   horario de Rondonia. 


   

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Governo da família, pela família e para a família

Essa é a fórmula democrática do “novo governo” que se instalou no Planalto desde janeiro de 2019. Novo governo que, após quase um ano e meio, acaba por abdicar de seus princípios pétreos, aparentemente tão rígidos e absolutos, para entrar no jogo da “velha política”. Tão velha que, no vórtice do furacão de uma pandemia avassaladora, volta-se para o centrão do Congresso Nacional, e com ele não hesita em abrir o processo tradicional do “toma-lá-dá-cá” ou “balcão de negócios”, tão característicos da prática política brasileira. 
Fica provado que nos embates do dia-a-dia, sobretudo quando abalados pelas tormentas e turbulências de um mandato político, desmascara-se a aureola de um messianismo hipócrita e oportunista. Termina por ajustar-se aos interesses que estão em jogo, por mais nefastos e mesquinhos, obscuros e obtusos que eles sejam. Primeiro, veio a saída tumultuada de dois ministros bem avaliados popularmente – Mandetta, da saúde, e Moro, da justiça e segurança nacional. Não permanece no “meu governo” quem ousa crescer mais do que o capitão, mesmo que seja em prol do país. Seguiu-se a virada abrupta, tanto no discurso quanto na relação com os outros poderes, no sentido de pavimentar a todo custo a via da governabilidade.
A bandeira contra a corrupção, contra a esquerda comunista e contra o pensamento livre, crítico e científico, desfraldada com tanto entusiasmo a partir da campanha eleitoral, agora pode ser enrolada e engavetada. Mais importante neste momento é blindar o clã familiar, para defender-se de CPIs, inquéritos e investigações em curso, seja por parte do legislativo e do judiciário, quanto por parte da Polícia Federal. É preciso neutralizar o assédio da imprensa que, 24 horas por dia e 7 dias por semana, mete por todo lado e a todo momento o nariz e a voz, juntamente com microfones, câmaras e holofotes. Se necessário, acelera-se o ritmo da usina de fake news, sob controle do “gabinete do ódio” e com ampla difusão pelas redes sociais.
Quanto à famigerada “gripezinha”, o novo Ministro da Saúde, avesso a tantas entrevistas e coletivas de imprensa, acabou relegando o “problema” a um segundo plano. Até mesmo o emprego e a retomada da economia, antes defendidos com unhas e dentes e em prejuízo da saúde pública, passam também a uma esfera secundária. Em vez disso, ganha relevância e prioridade absolutas a proteção incondicional da família. Urge barrar com toda força as vozes e os ventos que sopram com redobrada fúria, atentando contra o telhado de vidro do chefe. Daí a busca de pessoas de inteira confiança para os postos nevrálgicos dos processos judiciais, tão tortuosos e labirínticos – gente com quem “eu possa interagir”. A nave chamada Brasil navega sobre mares agitadas, seja do ponto de vista sanitário, quanto do ponto de vista socioeconômico. O novo coronavírus ceifa vida atrás de vida, devastando lares, cidades e países inteiros. Um surdo clamor se ergue aos céus, mas nuvens pesadas e sombrias escondem o sol. Apesar de tudo isso, é melhor não incomodar o capitão. Ele se encontra ocupadíssimo com a defesa dos filhos que, infelizmente, empurram com a barriga as dívidas com a justiça.
Emerge naturalmente o conceito de “patrimonialismo”, herdado da Península Ibérica, mas que encontrou terreno fértil nas terras de Santa Cruz. Os clássicos da sociologia e historiografia brasileira – Caio Prado Junior, Roberto da Mata, Celso Furtado, Raymundo Faoro, Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros – se encarregaram de explicar seu significado: apropriação indevida da res publica (coisa pública) em vista de interesses privados, familiares, partidários ou corporativos. Trata-se de administrar a nação como se fosse a própria casa ou fazenda, misturando patrimônio público e privado. Os órgãos e servidores públicos passam a obedecer servilmente ao governante de plantão, como se fossem seus auxiliares domésticos. Tal prática se torna tão comum e corriqueira que acaba sendo naturalizada não somente pelos “donos do poder”, mas também pela própria população. Tudo a ver com o que está acontecendo sob nossos olhos, não raro míopes e cegos diante dos mandos e desmandos do governo.
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de Janeiro, 28 de abril de 2020

"Celebremos juntos a Semana Laudato si’".


Esta semana, faz parte de uma campanha global por ocasião do 5º aniversário da Encíclica sobre o Cuidado da Casa comum.
*O tema da semana é:*  _“Tudo está Conectado”._

_"Nós somos os guardiões da criação."_
Que tipo de mundo queremos deixar para aqueles que vêm depois de nós, para as crianças que estão crescendo?” A partir dessa pergunta, o Papa renova seu “apelo urgente a fim de responder à crise ecológica, ao grito da terra e ao grito dos pobres que não podem mais esperar.
Cuidemos da criação, presente do nosso bom Deus criador. Celebremos juntos a Semana Laudato si’".

_Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra” (Francisco de Assis)._

https://formacao.cancaonova.com/atualidade/meio-ambiente/voce-sabe-o-que-e-ecologia-integral/


PAPA FRANCISCO
Você sabe o que é ecologia integral?

“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe Terra” (Francisco de Assis). Nas últimas décadas, o aprofundamento do que se entende por ecologia vem se tornando um objetivo primordial para a humanidade. Hoje, não se aceita mais a ideia de que o desenvolvimento econômico e social acontece independentemente de uma preocupação com a manutenção do meio ambiente integrado com o ser humano. Em nossos dias, torna-se cada vez mais urgente a busca por um desenvolvimento sustentável, com o equilíbrio entre a atividade econômica, o bem-estar social, condições de vida digna e a preservação da natureza. O ser humano pertence a um todo maior, que é complexo, articulado e interdependente.
Ecologia integral: entenda o conceito que o Papa usa
Na Encíclica Laudato sì (LS), o Papa Francisco usa o termo “ecologia” não no significado genérico, romântico e superficial, ele foge do conceito comum que trata do “verde”, “meio ambiente” e desenvolve o termo “ecologia integral”, dando um sentido mais amplo, dinâmico e profundo de entendimento. O Papa supera a fragmentação das ciências e assume o novo paradigma contemporâneo segundo o qual tudo forma um grande todo com todas as realidades interconectadas, influenciando-se umas às outras. Nesse sentido, o processo de construção do oikos (do grego, casa, morada, ambiente comum) tem como sua força motriz a relação, que permite que “tudo esteja interligado”, ou seja, “tudo está em relação”, “tudo é coligado”, “tudo está conectado”.

Foto Ilustrativa: PeopleImages by Getty Images
A partir do paradigma da ecologia integral, entende-se as dinâmicas sociais e institucionais em todos os níveis como afirma o Papa: “Se tudo está em relação, também o estado de saúde das instituições de uma sociedade comporta consequências para o ambiente e para a qualidade da vida humana […] Em tal sentido, a ecologia social é necessariamente institucional e atinge progressivamente diversas dimensões que vão do grupo social primário, a família, até a vida internacional, passando pela comunidade local e a Nação” (LS, 142).

O paradigma da “ecologia integral” é capaz de manter unidos fenômenos e problemas ambientais (aquecimento global, poluição, exaustão dos recursos, desflorestamento etc.) com questões que, normalmente, não são associadas à agenda ecológica em sentido estrito, como a pobreza, a qualidade de vida nos espaços urbanos ou a problemática dos transportes públicos.
O Papa mostra que a ecologia integral toca profundamente as nossas vidas, a nossa civilização, os nossos modos de agir, nossos pensamentos, e está diretamente envolvida com a globalidade, totalidade e qualidade da vida. Envolve também questões como o aborto, defende a vida desde a concepção, refugiados e mais recentes à identidade sexual.
O Pontífice reconhece que a humanidade, hoje, enfrenta uma crise existencial em múltiplas faces, ou seja, a extrema pobreza, o aumento da competição por recursos naturais, um ambiente natural ameaçado e severamente degradado, nações falidas ou à beira de um colapso e um clima próximo de sair do controle.
Papa Francisco manifesta sua preocupação com “o que está acontecendo com a nossa casa” (LS, 17-61) e afirma que “basta olhar a realidade com sinceridade, para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum” (LS, 61). Ele apresenta dados consistentes referentes às mudanças climáticas (LS, 20-22), à questão da água (LS, 27-31), à erosão da biodiversidade (LS, 32-42), à deterioração da qualidade da vida humana e à degradação da vida social (LS, 43-47), denuncia a alta taxa de desigualdade planetária, que afeta todos os âmbitos da vida (LS, 48-52), sendo os pobres as principais vítimas (LS, 48).
Condena a proposta de internacionalização da Amazônia que “somente serviria para os interesses econômicos das multinacionais” (LS, 38). Faz uma denúncia profética: “é gravíssima desigualdade querer obter benefícios significativos, fazendo pagar o resto da humanidade, presente e futura, os altíssimos custos da degradação ambiental” (LS, 36). Ainda: “Nunca maltratamos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos” (LS, 53). Lamenta os interesses dos poderes que “pensam que tudo pode continuar como está” como desculpa para “manter seus vícios autodestrutivos” (LS, 59) com “um compromisso que parece suicida” (LS, 55).
Na encíclica, o Papa Francisco concorda com um grande número de cientistas sobre as mudanças climáticas e proclama a necessidade de uma aliança entre sociedade, ciências e religiões para o cuidado da criação.
Ética ecológica e responsabilidade do homem
O homem tem seu lugar de destaque neste universo ecológico em meio à multidão de organismos vivos. Ele não só vive, mas “con-vive” numa relação de dependência do meio ambiente. A própria teologia sustenta que o ser humano não vive na situação de independência absoluta. O antropocentrismo-narcisista é indefensável, não podemos mais defender que só a dignidade e os interesses humanos fundamentam a nossa obrigação de proteger o meio ambiente. Todas as criaturas apresentam uma dignidade própria, uma ética em si mesma. O ser humano não domina a natureza, mas tem de buscar caminhar para uma convivência pacífica, entre ela e sua produção, sob pena de extermínio da espécie humana.
“Um antropocentrismo desordenado gera um estilo de vida desordenado” (LS, 122). O Papa considera o valor intrínseco de cada ser: “Cada criatura possui a sua bondade e perfeição próprias. (…) As diferentes criaturas, queridas pelo seu próprio ser, refletem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus. É por isso que o homem deve respeitar a bondade própria de cada criatura, para evitar o uso desordenado das coisas” (LS, 69).
É a superação de um conceito reducionista para uma visão global da vida. O próprio desenvolvimento científico, o bem-estar social, a troca de conhecimento, a nova visão do conceito de vida apresentado pelo pensamento filosófico e mesmo teológico, trouxeram muitas contribuições para o entendimento de ecologia como interações existentes entre os diversos organismos vivos, mostrando que o ambiente é um “sistema de relações”, “sistema integrado”. Todos os organismos estão carregados de potencialidades que buscam a sua realização. Como organismos interligados por uma teia de relações, fora desta teia não existe vida.
Na ecologia integral, tudo está em relação, “por exemplo: a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida” (LS, 16); por isso, o Papa reconhece que “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental” (LS, 139).
No entanto, “todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe Terra” (LS, 92).
Na Encíclica, citando o Patriarca Ecumênico da Igreja ortodoxa, Bartolomeu, “reconhece que os pecados contra a criação são pecados contra Deus” (LS, 7). Por isso, a urgência de uma conversão ecológica coletiva que refaça a beleza da harmonia perdida. O desafio urgente, então, consiste em “proteger a nossa casa comum” (LS, 13); para isso necessitamos, citando o Papa João Paulo II, de “uma conversão ecológica global” (LS, 5); “uma cultura do cuidado que impregne toda a sociedade” (LS, 231).
Ao citar sua principal fonte de inspiração, São Francisco de Assis, o Papa afirma que “é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados” (LS, 10)





Jose Aparecido de Oliveira, presente na luta dos pobres e trabalhadores.


Em nossa caminhada por um mundo mais justo, humano e fraterno atravessamos tempos difíceis e duras lutas, mas também vivenciamos acontecimentos muito bons. Esse nosso caminhar é feito por muitos e muitas e essa é a beleza de nossa história. Zé Aparecido foi um desses que a vida e a luta nos ofertou.


Falar de Zé é falar de cultura, de caminho, de solidariedade e de *compromisso com a causa do povo.*

A Via Campesina se solidariza com a família, amigos e todos companheiros e companheiras de luta, ele segue em cada pessoa que luta para garantir vida digna ao povo brasileiro, em suas músicas e nas boas memórias das lutas e Romarias, sua morte se torna mais suportável quando se cumpre bem o papel da vida.


*Zé Aparecido Presente! Presente! Presente!*


_E agora vejam: cadê o povo? O verde e as aguas virão de novo? Por uma terra sem males, lutaremos sem cessar/ Sem ódio, sem poluentes, nova a terra, nova gente, novo céu e novo mar. (Música Esperança dos povos)_

Via Campesina Rondônia
Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA
Movimento dos Atingidos pro Barragens – MAB
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
Comissao Pastoral da Terra – CPT

terça-feira, 19 de maio de 2020

‘Semana Laudato si’


Comissão de Ecologia Integral da CNBB promove a ‘Semana Laudato si’


Entre os dias 16 e 25 de maio, a Comissão Episcopal Pastoral Especial para Ecologia Integral e Mineração (CEEM) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove a ‘Semana Laudato Si’, 5 anos: Ecologia Integral e Mineração’.

Vatican News

Neste mês de maio a Encíclica “Laudato Sí”, sobre o cuidado com a Casa Comum, do Papa Francisco, completa cinco anos. No Brasil e no mundo, diversas iniciativas estão sendo preparadas para o momento de celebração do documento que convida a refletir sobre o futuro do planeta.
Entre os dias 16 e 25 de maio, a Comissão Episcopal Pastoral Especial para Ecologia Integral e Mineração (CEEM) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove a ‘Semana Laudato Si’, 5 anos: Ecologia Integral e Mineração’. Será possível acompanhar as ações pela página da CNBB no Facebook e YouTube/cnbbnacional.

Durante esses dias, a comissão vai realizar debates temáticos diários sobre a encíclica com representantes da comissão, professores e pesquisadores, membros do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da Comissão Pastoral da Pesca (CPP).
O bispo de Caxias (MA) e presidente da Comissão pela Ecologia Integral e Mineração (CEEM), dom Sebastião Lima Duarte, e os bispos membros da comissão abrem a ‘Semana Laudato Si’ com a oração das comunidades, dia 16 de maio, às 18h.

No dia 24 de maio, às 8h, o arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da CNBB, dom Walmor Oliveira de Azevedo, preside a celebração da Eucaristia na Basílica Nossa Senhora da Piedade pelos cinco anos da ‘Laudato Si’. Já o encerramento, dia 25, será direto de Brumadinho (MG), onde o bispo auxiliar de BH e membro da comissão, dom Vicente Ferreira, vai presidir a Santa Missa, às 18h.
Nestes mesmos dias, os cristãos no mundo inteiro também vão celebrar a data atendendo ao convite feito pelo Santo Padre em março. Na ocasião, Francisco deixou uma pergunta que motiva a celebração: “Que tipo de mundo queremos deixar para aqueles que nos sucedem, para as crianças que estão crescendo?”.

O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Papa Francisco – Carta encíclica Laudato Si’ (2015), 13

Cabe ressaltar que o Brasil é formado por seis biomas de características distintas:  Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, cada um desses abriga diferentes tipos de vegetação e de fauna. No documento do papa, o bioma que ganhou atenção especial foi a Amazônia, que é o maior do Brasil e abriga mais de 2.500 espécies de árvores e 30 mil de plantas.

De acordo com o ministério, a bacia amazônica é a maior bacia hidrográfica do mundo: cobre cerca de 6 milhões de km2 e tem 1.100 afluentes. Seu principal rio, o Amazonas, corta a região para desaguar no Oceano Atlântico, lançando ao mar cerca de 175 milhões de litros d’água a cada segundo.

Leia abaixo a programação completa da Semana Laudato Si’, 5 anos: Ecologia Integral e Mineração
16 de maio – 18h
Abertura da Semana LS: oração das comunidades
Dom Sebastião Duarte – Presidente da Comissão pela Ecologia Integral e Mineração (CEEM)
Dom Cleonir Dal Bosco – Bispo de Bagé-RS
Dom Vital Corbellini – Bispo de Marabá-PA
Dom Edson Damian – Bispo de São Gabriel da Cachoeira-AM
21 de maio – 18h
A ciência e a pesquisa dialogam com a LS
Dom Vicente Ferreira – Secretário da CEEM
Pastora Romi Bencke (Secretaria Geral do Conselho de Igrejas Cristãs – CONIC)
Ima Célia Vieira (Ecologa e pesquisadora do Museo Goeldi)
Luiz Marques, professor livre-docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas IFCH da UNICAMP.
22 de Mario – 18h
A defesa da casa comum
Dom André de Witte – Bispo emérito de Ruy Barbosa
Marina Oliveira (Arquidiocese de Belo Horizonte)
Gilberto Vieira (Conselho Indigenista Missionário – CIMI)
Geane (Comissão Pastoral da Terra – CPT)
Francisco Nonato (Comissão Pastoral da Pesca – CPP)
23 de maio – 18h
Cantando e celebrando a LS
Roberto Malvezzi (Gogo) – Assessor da CEEM
Padre Joaquim
Zé Vicente – poeta, lavrador, compositor, cantor
24 de maio – 8h
Celebração da Eucaristia na Serra da Piedade – 5 anos de Laudato Si’
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
25 de maio – 18h
25 é todo dia – Missa em Brumadinho
Dom Vicente Ferreira (CEEM)
Fonte: CNBB

'Mutirão pela vida: por terra, teto e trabalho' é tema de semana que ganha perfil nas redes sociais



CNBB impulsiona 6ª Semana Social Brasileira

A Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lançou na segunda-feira , 04 de maio, os perfis da 6ª Semana Social Brasileira (SSB) no Instagram e Twitter e reativa os perfis do Facebook e YouTube.

Nesta 6ª edição, a Semana Social Brasileira apresenta a proposta de mobilizações com o tema central: Mutirão pela vida: por terra, teto e trabalho. Uma inspiração a partir dos três “T”, que foram gestados no 1º Encontro Mundial dos Movimentos Populares com o papa Francisco, em outubro de 2014, em Roma.  No discurso Francisco convocou: “Digamos juntos, de coração: nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá”.
·         Reze conosco em Meu dia com Deus
A secretária-executiva da 6ª Semana Social Brasileira, Alessandra Miranda, explica as motivações para o início das mobilizações nas redes sociais: “O lançamento e os diálogos que serão possibilitados por meio das redes sociais é muito importante para mobilizar o que estamos chamando de Mutirão pela Vida, tendo em vista que esse período de pandemia de Covid-19 nos convoca ao distanciamento social, mas também nos convida a perceber como essa realidade pode gerar muitas formas de solidariedade. Então, lançar e atualizar as redes sociais da 6ª SSB é uma maneira de fortalecer o que já está sendo feito no campo da solidariedade. É também a possibilidade de alcançar cada pessoa e convidá-la para esse processo. Assim cada um, cada uma, já pode entrar nesse mutirão e se perceber na vivência da 6ª SSB, especialmente nesse cenário de pandemia”.
A 6ª SSB assume o compromisso com novos valores e novas formas de convivência entre os seres humanos e com todos os seres da Terra. O contexto para motivar a sua realização tem aspectos da realidade social, econômica e política do Brasil, que desafiam a sociedade brasileira a dialogar, aprender, avaliar, questionar, sugerir soluções, participar dos processos que definem o futuro do país e, sobretudo, fortalecer as formas de organização popular na luta por direitos essenciais negligenciados.  “A questão da moradia, do teto, está na reflexão central da Semana Social Brasileira porque, em primeiro lugar, é um problema fundamental na sociedade brasileira. Não seremos autenticamente democráticos se não tivermos esse direito garantido a todos e todas”, afirma o bispo da diocese de Jales e membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotranformadora,  dom José Reginaldo Adrietta.
O tema central traz ainda como destaques as reflexões sobre o acesso à terra e ao trabalho digno. “Trazer novamente o tema da terra para a Semana Social Brasileira (SSB), a produção de alimentos saudáveis, a conservação do meio ambiente, traduz a ideia que a gente tem para a construção dessa nação brasileira”, destaca Ana Moraes, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  “Quando nós afirmamos que um aspecto estruturante do tema central é o trabalho, estamos propondo a reflexão a respeito das condições de vida das trabalhadoras e trabalhadores no Brasil”, completa a economista, educadora popular, integrante da Coordenação América Latina e Caribe da Rede Jubileu Sul, Sandra Quintela.
A 6ª SSB é uma iniciativa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora, com o envolvimento ativo das pastorais sociais da Igreja Católica, dos movimentos populares do campo e da cidade, de organizações da sociedade civil, igrejas cristãs, povos indígenas e comunidades tradicionais. “Em sintonia com o papa Francisco que nos convida a ir até as periferias existenciais e geográficas, que nos convoca para sermos uma Igreja em saída, a CNBB também convoca todas as pessoas para a 6ª Semana Social Brasileira (6ª SSB), o grande mutirão pela vida”, afirma o bispo da diocese de Pesqueira (PE) e membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Sociotransformadora,  dom José Luiz Ferreira.
O Mutirão é o caminho metodológico da 6ª SSB, portanto, uma forma de convocar todos os cidadãos e cidadãs do Brasil ao engajamento concreto pela superação das desigualdades sociais existentes no país. Para alcançar esse objetivo a iniciativa terá como eixos transversais: a economia, a democracia e a soberania.  A 6ª SSB traz também a inspiração do discurso do papa Francisco no 2º Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 2015, na Bolívia, quando afirmou: “A solução para os grandes problemas do mundo virá dos pequenos, dos excluídos, pois estes se movem com outra lógica de vida”.
Para acompanhar e contribuir com as mobilizações da 6ª SSB acesse, siga e compartilhe os perfis: @ssbrasileira (Facebook), @ssbrasileira (Instagram), @ssbrasileira (Twitter) e SSBrasileira (YouTube). Em junho o site ssb.org.br também estará disponível.
Histórico da Semana Social Brasileira (SSB)
A SSB é uma iniciativa que se realiza no Brasil desde 1991 inspirada na experiência da Igreja Católica na Europa, mais precisamente na França. Em todos os países onde acontece, a SSB integra a ação evangelizadora da Igreja. A França já celebrou o primeiro centenário da realização de Semanas Sociais. A Itália realizou a 48ª Semana Social em outubro de 2017 e prepara sua 49ª prevista para fevereiro de 2021.
As Semanas Sociais articulam as forças populares e intelectuais para debater questões sociopolíticas relevantes a cada país e traça perspectivas para o presente e futuro, baseadas na Doutrina Social da Igreja.
No Brasil, a década de 1990 marcou a realização das Semanas Sociais Brasileiras (SSB), fruto de um rico processo de mobilização popular das décadas de 1970 e 1980. Nesse período nasceram e se fortaleceram as pastorais sociais que, junto com outros numerosos movimentos populares e organizações sociais iniciaram o debate e a mobilização para construir o Projeto Popular para o Brasil.
A 6ª Semana Social Brasileira vai promover a mobilização a partir do tema central Mutirão pela vida: por terra, teto e trabalho, no período de três anos (2020 e 2022). Um dos momentos centrais será o Seminário Nacional para formação de articuladores e articuladoras, ainda sem data prevista por causa da pandemia de Covid-19, outros momentos fundamentais serão os Mutirões Regionais ao longo desse período de três anos.


Receba notícias do DomTotal em seu WhatsApp. Entre agora:


 texto publicado em 06/05/2020 no site da CNBB    domtotal.com

Forçados, como Jesus Cristo, a fugir.




MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

PARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO
27 de setembro de 2020

Forçados, como Jesus Cristo, a fugir.
Acolher, proteger, promover e integrar os deslocados internos






No discurso que dirigi, nos primeiros dias deste ano, aos membros do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, mencionei entre os desafios do mundo contemporâneo o drama dos deslocados dentro da própria nação: «Os conflitos e as emergências humanitárias, agravadas pelas convulsões climáticas, aumentam o número dos deslocados e repercutem-se sobre as pessoas que já vivem em grave estado de pobreza. Muitos dos países atingidos por estas situações carecem de estruturas adequadas que permitam atender às necessidades daqueles que foram deslocados» (9/I/2020).

A Secção «Migrantes e Refugiados» do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral publicou as Orientações Pastorais sobre as Pessoas Deslocadas Internamente (5/V/2020), um documento que visa inspirar e animar as ações pastorais da Igreja nesta área em particular.

Por tais razões, decidi dedicar esta Mensagem ao drama dos deslocados dentro da nação, um drama – muitas vezes invisível – que a crise mundial causada pela pandemia do Covid-19 exacerbou.De facto, esta crise, devido à sua veemência, gravidade e extensão geográfica, redimensionou tantas outras emergências humanitárias que afligem milhões de pessoas, relegando para um plano secundário, nas Agendas políticas nacionais, iniciativas e ajudas internacionais, essenciais e urgentes para salvar vidas. Mas, «este não é tempo para o esquecimento. A crise que estamos a enfrentar não nos faça esquecer muitas outras emergências que acarretam sofrimentos a tantas pessoas» (Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/IV/2020).

À luz dos acontecimentos dramáticos que têm marcado o ano de 2020 quero, nesta Mensagem dedicada às pessoas deslocadas internamente, englobar todos aqueles que atravessaram e ainda vivem experiências de precariedade, abandono, marginalização e rejeição por causa do vírus Covid-19.

E, como ponto de partida, gostaria de tomar o mesmo ícone que inspirou o Papa Pio XII ao redigir a constituição apostólica Exsul Familia (1/VIII/1952): na sua fuga para o Egito, o menino Jesus experimenta, juntamente com seus pais, a dramática condição de deslocado e refugiado «marcada por medo, incerteza e dificuldades (cf. Mt 2, 13-15.19-23). Infelizmente, nos nossos dias, há milhões de famílias que se podem reconhecer nesta triste realidade. Quase todos os dias, a televisão e os jornais dão notícias de refugiados que fogem da fome, da guerra e doutros perigos graves, em busca de segurança e duma vida digna para si e para as suas famílias» (Francisco, Angelus, 29/XII/2013). Em cada um deles, está presente Jesus, forçado – como no tempo de Herodes – a fugir para Se salvar. 

Nos seus rostos, somos chamados a reconhecer o rosto de Cristo faminto, sedento, nu, doente, forasteiro e encarcerado que nos interpela (cf. Mt 25, 31-46). Se O reconhecermos, seremos nós a agradecer-Lhe por O termos podido encontrar, amar e servir.
As pessoas deslocadas proporcionam-nos esta oportunidade de encontrar o Senhor, «mesmo que os nossos olhos sintam dificuldade em O reconhecer: com as vestes rasgadas, com os pés sujos, com o rosto desfigurado, o corpo chagado, incapaz de falar a nossa língua» (Francisco, Homilia, 15/II/2019). É um desafio pastoral ao qual somos chamados a responder com os quatro verbos que indiquei na Mensagem para este mesmo Dia de 2018: acolher, proteger, promover e integrar. A eles, gostaria agora de acrescentar seis pares de verbos que traduzem ações muito concretas, interligadas numa relação de causa-efeito.

É preciso conhecer para compreender. O conhecimento é um passo necessário para a compreensão do outro. Assim no-lo ensina o próprio Jesus no episódio dos discípulos de Emaús:«Enquanto [estes] conversavam e discutiam, aproximou-Se deles o próprio Jesus e pôs-Se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de O reconhecer» (Lc 24, 15-16). Frequentemente, quando falamos de migrantes e deslocados, limitamo-nos à questão do seu número. Mas não se trata de números; trata-se de pessoas! Se as encontrarmos, chegaremos a conhecê-las. E conhecendo as suas histórias, conseguiremos compreender. Poderemos compreender, por exemplo, que a precariedade, que estamos dolorosamente a experimentar por causa da pandemia, é um elemento constante na vida dos deslocados.

É necessário aproximar-se para servir. Parece óbvio, mas muitas vezes não o é. «Um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele [do homem espancado e deixado meio-morto] e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele» (Lc 10, 33-34). Os receios e os preconceitos – tantos preconceitos – mantêm-nos afastados dos outros e, muitas vezes, impedem de «nos aproximarmos» deles para os servir com amor. Abeirar-se do próximo frequentemente significa estar dispostos a correr riscos, como muitos médicos e enfermeiros nos ensinaram nos últimos meses. Aproximar-se para servir vai além do puro sentido do dever; o maior exemplo disto, deixou-no-lo Jesus, quando lavou os pés dos seus discípulos: tirou o manto, ajoelhou-Se e pôs mãos ao humilde serviço (cf. Jo 13, 1-15).

Para reconciliar-se é preciso escutar. No-lo ensina o próprio Deus que quis escutar o gemido da humanidade com ouvidos humanos, enviando o seu Filho ao mundo: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, (…) para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 16.17). O amor, que reconcilia e salva, começa pela escuta. No mundo de hoje, multiplicam-se as mensagens, mas vai-se perdendo a atitude de escutar. É somente através da escuta humilde e atenta que podemos chegar verdadeiramente a reconciliar-nos. Durante semanas neste ano de 2020, reinou o silêncio nas nossas ruas; um silêncio dramático e inquietante, mas que nos deu ocasião para ouvir o clamor dos mais vulneráveis, dos deslocados e do nosso planeta gravemente enfermo. E, escutando, temos a oportunidade de nos reconciliar com o próximo, com tantas pessoas descartadas, connosco e com Deus, que nunca Se cansa de nos oferecer a sua misericórdia.

Para crescer é necessário partilhar. A primeira comunidade cristã teve, na partilha, um dos seus elementos basilares: «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum» (At 4, 32). Deus não queria que os recursos do nosso planeta beneficiassem apenas alguns. Não, o Senhor não queria isso! Devemos aprender a partilhar para crescermos juntos, sem deixar ninguém de fora. A pandemia veio-nos recordar que estamos todos no mesmo barco. O facto de nos depararmos com preocupações e temores comuns demonstrou-nos mais uma vez que ninguém se salva sozinho. Para crescer verdadeiramente, devemos crescer juntos, partilhando o que temos, como aquele rapazito que ofereceu a Jesus cinco pães de cevada e dois peixes (cf. Jo 6, 1-15); e foram suficientes para cinco mil pessoas…

É preciso coenvolver para promover. Efetivamente, assim procedeu Jesus com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 1-30). O Senhor aproxima-Se, escuta-a, fala-lhe ao coração, para então a guiar até à verdade e torná-la anunciadora da boa nova: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?» (4, 29). Por vezes, o ímpeto de servir os outros impede-nos de ver a sua riqueza íntima. Se queremos verdadeiramente promover as pessoas a quem oferecemos ajuda, devemos coenvolvê-las e torná-las protagonistas da sua promoção. A pandemia recordou-nos como é essencial a corresponsabilidade, pois só foi possível enfrentar a crise com a contribuição de todos, mesmo de categorias frequentemente subestimadas. Devemos «encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade» (Francisco, Meditação na Praça de São Pedro, 27/III/2020).

É necessário colaborar para construir. Isto mesmo recomenda o apóstolo Paulo à comunidade de Corinto:«Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento» (1 Cor 1, 10). A construção do Reino de Deus é um compromisso comum a todos os cristãos e, para isso, é necessário que aprendamos a colaborar, sem nos deixarmos tentar por invejas, discórdias e divisões. No contexto atual, não posso deixar de reiterar que «este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas» (Francisco, Mensagem Urbi et Orbi, 12/IV/2020). Para salvaguardar a Casa Comum e torná-la cada vez mais parecida com o plano original de Deus, devemos empenhar-nos em garantir a cooperação internacional, a solidariedade global e o compromisso local, sem deixar ninguém de fora.

Quero concluir com uma oração inspirada no exemplo de São José, particularmente quando foi forçado a fugir para o Egito a fim de salvar o Menino:

«Pai, confiastes a São José o que tínheis de mais precioso: o Menino Jesus e sua mãe, para os proteger de perigos e ameaças dos malvados.
Concedei-nos, também a nós, a graça de experimentar a sua proteção e ajuda. Tendo ele provado o sofrimento de quem foge por causa do ódio dos poderosos, fazei que possa confortar e proteger todos os irmãos e irmãs que, forçados por guerras, pobreza e carências, deixam a sua casa e a sua terra a fim de se lançarem ao caminho como refugiados rumo a lugares mais seguros.
Ajudai-os, pela sua intercessão, a terem força para prosseguir, conforto na tristeza, coragem na provação.
Dai a quem os recebe um pouco da ternura deste pai justo e sábio, que amou Jesus como um verdadeiro filho e amparou Maria ao longo do caminho.
Ele, que ganhou o pão com o trabalho das suas mãos, possa prover àqueles a quem a vida tudo levou, dando-lhes a dignidade dum trabalho e a serenidade duma casa.
Nós Vo-lo pedimos por Jesus Cristo, vosso Filho, que São José salvou fugindo para o Egito, e por intercessão da Virgem Maria, a quem ele amou como esposo fiel segundo a vossa vontade. Amen».

Roma, em São João de Latrão, na Memória de Nossa Senhora de Fátima, 13 de maio de 2020.

Francisco



© Copyright - Libreria Editrice Vaticana