sexta-feira, 31 de maio de 2019

UMA LINDA HISTÓRIA DE VIDA

CELEBRAR AS CONQUISTAS
                                        

José Silva Dias é camponês, casado com Maria Aparecida Meneglli Dias, pai de quatro filhos, avô e agente da Comissão Pastoral da Terra Rondônia.
No ano de 1973 deixou Ecoporanga ES e veio com os pais para Rondônia, em busca de terra. Chegaram em Cacoal, e conseguiram adquirir um lote onde a família se estabeleceu e cresceu. A mãe de José Silva e outros 12 filhos, Maria Alves Dias, ficou viúva em 1977, ficou sozinha por um período, mas permanece no mesmo lote até hoje.

Ainda com os pais e mesmo depois de casado, desenvolveu a agricultura convencional, inclusive com cultivo de café, mas já tendo em mente a necessidade de preservação da natureza. Aprendizado retirado com a falta de preservação e da perca dos bens naturais (como a madeira, a caça...) no lote
da família.

Em 1984, ainda com 17 anos, adquiriu um lote no processo de colonização na região de São Miguel. Em 1989, já casado, com dois filhos, estabeleceu residência e iniciou o cultivo de café.

Por volta de 1984, através da Associação Rural Sãomiguelense Para Ajuda Mutua – ARSAPAM,  recebeu assistência técnica, num processo de cooperação com os Espanhóis ligados aos padres Claretinos. Eles faziam uma vivência de dois anos com as famílias, apresentando alguns cultivos e técnicas agroecológicas, com isso, introduziu algumas espécies florestais no cultivo de café. Nos idos de 1998 esse mesmo grupo fez um curso sobre manejo de agrotóxicos, na perspectiva de oferecer instruções sobre a forma de uso.
“Quando eu vi que precisava de máscara, a luva, bota, chapéus e roupas, sabia que fazia mal. Eu optei por parar de usar de vez”. Foi uma experiência que gerou susto, a intuição apontava que se precisa de tudo isso de proteção, o perigo é real.

Em 1998 passou a trabalhar com consórcios de cultivos e também a buscar experiências com as quais pudesse aprender.
“Na agroecologia ninguém tem receita pronta, e é onde muitas vezes acertamos, e também erramos”.
Sempre militou na associação e também no Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais. Em 2006 também passou a contribuir com os trabalhos da CPT, em especial na área da agroecologia, coordenando o projeto Natureza Viva (2006-2012).

“Esse foi o período que havia recurso, mas até hoje, eu ainda passo nessas famílias fazendo visitas [...] A gente foi formado para isso, na época tinha Dom Antônio Possamai, o Padre Ezequiel Ramin (1985-1985), a gente era incentivado para isso. Hoje cadê a formação de jovens?”

Mas nem sempre foi fácil, em 2008 a família passou a enfrentar as crises (a economia baseada no café e no leite). Em relação ao leite, as cigarrinhas da pastagem geraram prejuízos, e as lavouras de café envelheceram. Nesse período buscou-se a diversificação da produção com a inclusão do cultivo de frutíferas, já sob influencia do projeto Natureza Viva. Com a agroecologia, as áreas antes desmatadas foram sendo transformadas em consórcios, formando sistemas agroflorestais.

Em 2012 foi a chegada do Café Clonal em Rondônia, o que viabilizou o acesso a mudas. Novamente, ele saiu em busca de experiências para o cultivo desse café. Nenhuma dessas experiências eram agroecológicas.
“Visitei a maioria das produções que se destacavam e também viveiros”.



Em 2013 iniciou o cultivo do café clonal na propriedade, dentro do sistema
agroecológico. A resistência ao uso dos agrotóxicos, adubos químicos e
irrigação permitiu experimentar o uso de compostagem em áreas que depois
chegaram a produzir até 30 sacas por hectare, onde antes produziam 15
sacas. Com o aumento da área plantada, e a pouca disponibilidade de
materiais para a produção do adubo orgânico, introduziu a adubação química,
ainda distante dos níveis utilizados na produção convencional.

Hoje a família mantém uma produção média de 60 sacas de café por hectare.
Desde 2008 participam de concursos estaduais da qualidade do café, através
da COOCARAM. Em 2017 participou do concurso realizado pelo governo
estadual, e em 2018 ficou em quarto lugar na classificação do melhor café de
Rondônia. No concurso nacional, mantem-se entre os 30 melhores.

A partir da sua experiência nos diz, que “as vezes quem alcança os melhores
resultados são os mais pequenos e humildes [...] os humildes serão elevados
[...] Aprendi com meu pai, no pouco tempo que estive com ele, e observava as
pessoas ganhar dinheiro com café, depois que casei, meu sogro foi um
incentivador do cultivo do café”.

Com dificuldades para a certificação, pois a vizinhança trabalha com o cultivo
convencional e uso de agrotóxicos, faz as barreiras e quebra-vento para evitar
a contaminação.

“A mensagem que eu deixo é que o sistema agroecológico é viável, durável,
sustentável e dá retorno financeiro. Não adianta dizer que isso aí pode dar
certo, mas só em um hectare. Hoje estou chegando a 4,5 ha plantados e a
propriedade recebe estagiários da EFA Vale do Guaporé e Chico Mendes de
Novo Horizonte”.

A conquista de José Silva, representa para a CPT RO, uma conquista coletiva
da agroecologia e de todos os agricultores e agricultoras familiares e
camponeses que persistem e resistem, mostrando a cada dia, com sua
produção, a viabilidade e a necessidade de desenvolver uma agricultura social
e ecologicamente correta, dando eco ao que nos propõe a caminhada de
cristãos, trabalhadores/trabalhadoras e militantes sociais, e aos apelos que nos
faz o Papa Francisco através da “Laudato Si”.

Celebrar as conquistas, é fortalecer a caminhada e apontar caminhos.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Carta da articulação da juventude da CPT

Carta da articulação da juventude da CPT
Goiânia, 17 de maio de 2019
Nós, representantes da juventude dos Regionais Amapá, Araguaia-Tocantins, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Nordeste II (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), Piauí, São Paulo e da Secretaria Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), estivemos reunidos na cidade de Goiânia (GO) entre os dias 16 e 17 de maio de 2019. O objetivo foi de consolidar a articulação iniciada no último Congresso Nacional da CPT, ocorrido no ano de 2015, em Porto Velho (RO), além de refletir sobre as diversas realidades e desafios das juventudes da CPT.
Nesses dois dias, partilhamos nossas experiências concretas de trabalho das e com as juventudes nos diversos Regionais que estiveram presentes. Muitas são as experiências, as metodologias e os resultados alcançados nos últimos anos, dentre elas aqui destacamos: intercâmbios de jovens, encontros, acampamentos das juventudes, oficinas de comunicação, festivais, mostras de cinema, e etc. Essas experiências nos mostram um maior engajamento das juventudes camponesas nas lutas e maior participação nos espaços de decisão das comunidades. Dentro da CPT, identificamos vários avanços desde o Congresso de Rondônia, como a presença de jovens nos conselhos, assembleias e coordenações regionais e nacionais, assim como a maior inserção das CPT’s nas discussões das e sobre as juventudes.
Protagonismo talvez seja a palavra que melhor defina o teor dos debates e das decisões tomadas neste encontro. No entanto, para tornar esse protagonismo por inteiro, enriquecer as reflexões e a troca de experiências, sentimos falta de representantes dos demais Regionais. Sabemos das muitas dificuldades enfrentadas pelas equipes da CPT em todo o país, entretanto, entendemos que fortalecendo essa articulação da juventude, fortaleceremos também a continuidade necessária e contemporânea da CPT nesses Regionais.
Vários são os nossos desafios, sobretudo na atual conjuntura de retrocessos e fortes ataques aos direitos trabalhistas e às políticas públicas de educação, meio ambiente, saúde, reforma agrária, e etc., que atingem diretamente os povos do campo. As juventudes, neste cenário, está sendo ainda mais impactada, pois lhes são retirados os meios que favorecem a permanência na terra e no território, seu presente e seu futuro.
Felizes pela oportunidade deste encontro e cientes dos enormes desafios que temos pela frente, contamos com o apoio e o incentivo de todos e todas da pastoral. Contem com nosso engajamento e disposição de luta a serviço dos povos do campo, das águas e das florestas, nos caminhos da CPT.

Ousamos, todos e todas, escutar o apelo do Papa Francisco:
Por favor, não deixem para outros o ser protagonistas da mudança! Vocês são aqueles e aquelas que têm o futuro!
25.07.2013 – Jornada Mundial da Juventude

XVI ASSEMBLEIA CPT/RO

CARTA DA XVI ASSEMBLEIA DA COMISSÃO PASTORAL DA TERRA DE RONDÔNIA.


Nos 40 anos da criação da Comissão Pastoral da Terra em Rondônia, nossa XVI Assembleia Regional se reuniu em Cacoal, no centro dedicado a memória do Padre Ezequiel Ramin. Com o tema “A construção do Bem Viver em tempos adversos” e o lema “Reavivar a esperança na força da fé dos povos da Amazônia”, nos encontramos as equipes de agentes da pastoral da terra; agricultoras e agricultores das diversas regiões do estado; representantes das organizações do campo; povos indígenas; comunidades quilombolas; extrativistas e ribeirinhos. Apoiados por aliados da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), do Conselho Missionário Indigenista (CIMI); do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA); do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB); Movimento dos Sem-terra (MST); da Igreja Luterana (IECLB) do COMIN; da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB); e da Federação dos Trabalhadores/as da Agricultura de Rondônia (FETAGRO) e do Instituto Padre Ezequiel (IPER) de Ji Parana.
Começamos por ouvir o testemunho de agricultoras e agricultores nos seus processos de luta e resistência: de agroecologia, de luta pela terra e povos tradicionais

- O “GRUPO DO BEM VIVER - FAMÍLIAS AGROGEOLÓGICAS”, de Cacoal, nos mostrou que o Bem Viver não é apenas uma ideia, mas a experiência vivida de famílias que trabalham seguindo um processo agroecológico. Eles ofereceram um saboroso e abundante café da manhã, com fartura de alimentos cultivados e elaborados por eles mesmos. A sua experiência é uma resposta concreta ao desafio dos migrantes na Amazônia para se adaptar ao bioma. A agroecologia está descobrindo que não pode apenas adaptar cultivos de fora aqui, mas aprender muito dos povos originários e de sua convivência com as florestas e com os rios. No bioma que tem a maior produção de alimentos saudáveis do mundo, como a castanha, açaí, cacau nativo, tucumã, cupuaçu, pupunha e tantos outros...

- A luta pela terra do ASSENTAMENTO ÁGUAS CLARAS, onde um grupo de trabalhadoras e trabalhadores de Vilhena ocupou uma área pública. Enfrentou despejos, ameaças e agressões, porém com resistência e perseverança conseguiu a retomada judicial da área e a criação de um assentamento de reforma agrária, cultivando com sucesso uma área do cerrado. Onde seguem firmes, apesar de muitas pendências na efetivação do assentamento, de dificuldades como a escolarização das crianças e problemas de saúde, por estar rodeados de plantações de soja, com uso intensivo de agrotóxicos.
- E o testemunho da resistência da COMUNIDADE QUILOMBOLA DE SANTA FÉ, no município de Costa Marques, que nos anos de 1980 sofreu expulsão e destruição de casas. Porém, com apoio da Igreja e depois da CPT RO, conseguiram recuperar parte do seu território e serem reconhecidos como comunidade quilombola, conseguindo o título coletivo da terra a finais de 2018. Sua vitória alenta outras comunidades que enfrentam há anos dificuldades para conseguir titular os seus territórios tradicionais.

Faz quarenta anos, a CPT RO nasceu num contexto de colonização, de contrarreforma agrária, com muita gente injustiçada, excluída dos projetos implantados. Após décadas de grande protagonismo dos movimentos sociais, hoje continuamos em pleno combate pela disputa da terra pública e pela regularização fundiária. Segundo o Caderno de Conflitos da CPT, no ano de 2018 foi registrado 66 ocorrências de conflitos por terra em Rondônia, com 4.967 famílias atingidas. De acordo com os dados é o estado que mais tem promovido repressão aos povos do campo, das 197 pessoas presas por conflitos agrários no Brasil, 150 eram de Rondônia, ou seja, 76% das pessoas presas em todo o país.

Mudou o padrão de violência, agora institucionalizado pela ação do Estado e pela repressão generalizada. No senado há um projeto que busca retomar artigos vetados que aumentam a criminalização na luta pela terra. No atual momento, nenhum estado da Amazônia tem definido suas superintendências do INCRA, aguardando novo decreto presidencial sobre regularização fundiária, que deverá significar novo direcionamento das áreas públicas e de assentamento para o mercado de terras, agronegócio e pecuária.

Reservas ambientais e extrativistas, e especialmente áreas indígenas já demarcadas há anos, estão sendo sistematicamente invadidas por madeireiros, grileiros e projetos minerários, devastando as florestas e saqueando impunemente os recursos naturais, ameaçando os direitos e sobrevivência dos povos originários e tradicionais de nosso estado.

Este tempo reclama de todos nós uma resistência mais fortalecida no plano local, não isolada, mas articuladas em plano maior, recuperando nossa  articulação e unificação de nossas lutas comuns, como a agroecologia, a luta por direitos, pela água, e contra os agrotóxicos, etc

            Somos parte da Amazônia e a Amazônia é parte de nós. Não somos apenas produtores, mas agricultoras e agricultores, cultivadores da terra, em interação com o cerrado e com o bioma amazônico. Em sintonia com o Papa Francisco, a Laudato Si e o Sínodo da Amazônia, nos colocamos na construção da ecologia integral e do Bem Viver.

No Bem Viver não tem a riqueza acumulada, nem a pobreza extrema, nem a exclusão que caracteriza o sistema capitalista. Retomando o trabalho em rede, na memória da aliança dos povos da floresta, da aliança de todos os camponeses e camponesas, num projeto de convivência com a Amazônia. O único caminho é somar forças, respeitar a diversidade, fortalecer as nossas identidades, para um projeto de sociedade e de resistência. Um projeto que brota do campo, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais, quilombolas, posseiros e de pequenos agricultores. Um projeto baseado no cuidado de nós mesmos, de nossa saúde, do cuidado com as águas e com a Terra, nossa Casa Comum.

Cacoal, dias 17, 18 e 19 de Maio de 2019.