quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

NOTA PÚBLICA: O campo em Rondônia, um barril de pólvora



A Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Rondônia vem manifestar sua grande preocupação diante do aumento da violência em conflitos por terra no estado. Os sem terra, ao buscarem o sagrado direito a terra, sofrem despejos, agressões, ameaças, roubos, culminando com o assassinato.
No ano de 2015, Rondônia despontou no cenário nacional como o estado com o maior número de mortes em conflitos no campo no país. Foram 21 trabalhadores assassinados, muitos com características de execução. É o número mais elevado de assassinatos de camponeses e sem terra já registrado no estado desde 1985, quando a CPT começou a divulgar os registros destes fatos.
O mais grave, porém, é que essa onda de violência continua. Só nos primeiros dias deste ano, outras quatro pessoas foram assassinadas.
      - A militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Nilce de Souza Magalhães, conhecida como Nicinha, foi assassinada com três tiros, num acampamento de pescadores atingidos pela Hidrelétrica de Jirau, na localidade chamada de “Velha Mutum Paraná”, no dia 7 de janeiro. Seu corpo, até o momento, não foi encontrado.
      - Enilson Ribeiro dos Santos e Valdiro Chagas de Moura, lideranças do acampamento Paulo Justino, foram assassinados no município de Jaru, no dia 23 de janeiro. Eles foram perseguidos e mortos por um motoqueiro.
      - Em Cujubim, cinco jovens sem terra foram atacados por pistoleiros no final de janeiro. Dias antes, eles e outros acampados haviam sido despejados da Fazenda Tucumã. Após o despejo, os jovens retornaram a área para buscar alguns objetos que haviam ficado no local. Mas eles foram surpreendidos pelos pistoleiros. Três conseguiram fugir. Dois estão desparecidos e um corpo foi encontrado no carro dos jovens, que os acampados acreditam ser de um dos desaparecidos.
A recente violência é a filha adulta do latifúndio, amasiado com a pistolagem patrocinada e a repressão estatal, acobertada pela impunidade dos pretensos proprietários de terras, especuladores imobiliários e grileiros.
Esta violência está espalhada por todas as regiões do estado, mas os maiores conflitos estão nos municípios de Monte Negro, Ariquemes, Cujubim, Buritis, Alto do Paraíso, a maioria no Vale do Jamari (15 mortes em 2015 e 2 em 2016).
A situação agrária de Rondônia pode-se dizer que é um autêntico barril de pólvora prestes a estourar a qualquer momento, já que os fazendeiros estão se organizando em associações de produtores rurais para defenderem seus interesses, muitos com áreas em terras públicas da União. Por outro lado há centenas de famílias acampadas em terras da União, jogadas à beira de estradas, decididas a conquistar um pedaço de terra, incentivadas pelo chicote da pobreza. Esperam por reforma agrária que está engessada há anos.
O mais preocupante é o fato de que toda esta violência está sendo debitada por autoridades policiais e outras autoridades públicas e por veículos da imprensa na conta dos movimentos dos trabalhadores do campo. O comandante geral da polícia militar, Ênedy Dias, que foi ao Vale do Jamari, ontem, dia 9, “para coordenar ações para diminuir a violência”, afirmou à imprensa: “Estamos mandando um recado: não vamos descansar enquanto não prendermos todos esses criminosos, que considero, na verdade, terroristas. Esses ditos sem-terras agem como terroristas. Vamos colocá-los no devido lugar. Por isso, vim aqui até hoje para definir as novas estratégias de combate a esses criminosos”.
O comandante e a imprensa se esquecem, porém, da prisão, no dia 3, de pistoleiros fortemente armados, inclusive com armas de uso restrito das forças armadas que atacaram um carro da polícia que investigava o desaparecimento de jovens sem terra (citados acima), no mesmo Vale do Jamari. Fazia parte do grupo de pistoleiros um sargento da polícia que conseguiu fugir. O comandante também não se refere, como registrou o portal Diário da Amazônia, no dia 6 de fevereiro, que “durante o ano de 2015, em uma operação especial da Polícia Militar na região de Buritis, armamentos pesados, como fuzis AR-15, estavam em poder de homens que, ao serem presos, argumentaram que o material era utilizado para proteção pessoal e de familiares de um fazendeiro da região”.
A Comissão Pastoral da Terra pede socorro. São imprescindíveis providências imediatas que freiem de uma vez o caos que vem se instalando nas áreas rurais de Rondônia, com execuções sumárias de trabalhadores. Exige-se também investigação imparcial dos assassinatos com punição exemplar de seus autores.
Se nenhuma medida séria e eficaz for tomada pelas autoridades competentes, a situação poderá ser calamitosa, beirando a catástrofe social.
Nosso país necessita de Justiça social à altura dos problemas que sua falta acarreta, que garanta a dignidade da pessoa humana e os seus direitos fundamentais, como o direito à terra, à vida e à sua manutenção.
A Reforma Agrária é urgente e necessária para que se rompam as fronteiras da intolerância e se ofereça dignidade para todos.
Porto Velho, 10 de fevereiro de 2016.
A Comissão Pastoral da Terra Rondônia (CPT-RO)

domingo, 17 de janeiro de 2016

2016: violência em Rondônia resulta em mais mortes de militantes sociais




É com pesar que informamos que a militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Rondônia, Nilce de Souza, desaparecida desde o dia 7 de janeiro, foi assassinada com três tiros e seu corpo ainda não foi encontrado.
A polícia civil de Rondônia prendeu ontem (15) um jovem que teria confessado o crime e dito, inicialmente, que enterrara o corpo de Nilce após mata-la. Entretanto, a polícia nada encontrou no local indicado por ele. Após essa versão, ele teria dito que havia jogado o corpo da vítima no rio. Bombeiros ainda buscam pelo corpo de Nicinha no distrito de Nova Mutum-Paraná (RO).

Nicinha era conhecida na região pela luta no MAB em defesa das populações atingidas, denunciando as violações de direitos humanos cometidas pelo consórcio responsável pela Usina de Jirau, Energia Sustentável do Brasil (ESBR). Filha de seringueiros que vieram da cidade de Xapuri, no estado do Acre, para Abunã, em Rondônia, Nilce vivia na região a mais de cinquenta anos, até ser atingida pelo empreendimento. Nos primeiros anos da obra a pesca começou a ser seriamente comprometida, tornando a vida dos pescadores extremamente difícil. No ano de 2014 sua comunidade também foi atingida por uma grande cheia, potencializada pelo reservatório da hidrelétrica que alagou as casas das famílias ribeirinhas, destruindo plantações, materiais de trabalhos, entre outros pertences.

Os diversos danos causados pelas hidrelétricas obrigaram Nicinha a se deslocar para “Velha Mutum”, junto a outros pescadores para tentar continuar a sobreviver do agroextrativismo. O local à beira do rio Madeira e da BR 364, que é o mesmo onde estava a comunidade de Mutum Paraná, que foi completamente removida para o preenchimento do reservatório da hidrelétrica de Jirau, é considerado propriedade privada e os ribeirinhos são tratados como invasores no seu território.
Nilce havia realizado diversas denúncias ao longo desses anos, participando de audiências e manifestações públicas, em que apontou os graves impactos gerados à atividade pesqueira no rio Madeira. As denúncias geraram dois inquéritos civis públicos que estão sendo realizados pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público do Estado de Rondônia sobre a não realização do Programa de Apoio à Atividade Pesqueira e outro de caráter criminal, em função de manipulações de dados em relatórios de monitoramento da atividade pesqueira com o objetivo de não revelar tais impactos.

A CPT de Rondônia se solidariza com os familiares, amigos, companheiros e companheiras de militância de Nicinha, e exige dos órgãos competentes que a sua morte seja apurada e que medidas sejam tomadas para que novas mortes não aconteçam no estado. Dados parciais da Pastoral da Terra, divulgados recentemente, mostram que em 2015, de um total de 49 assassinatos em conflitos no campo, 21 se deram em Rondônia. São necessárias medidas urgentes para frear a violência no campo no estado e mudanças estruturais que garantam os direitos dos povos do campo para produzir e viver de forma digna e segura. 

CPT-RO

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Liderança do MAB em Jirau esta desaparecida


Divulgamos aqui o desaparecimento de Nilce de souza Magalhães, ribeirinha, pescadora que se tornou militante do MAB depois de ser atingida diretamente pela hidrelétrica de Jirau.
Como afirma o MAB no relato abaixo, "Nicinha é conhecida na região pela luta no Movimento dos Atingidos por Barragens em defesa das populações atingidas denunciando as violações de direitos humanos cometidas pelo consorcio responsável pela Usina de Jirau, Energia Sustentável do Brasil (ESBR)".
Conclamamos a todos, especialmente as autoridades que façam as buscas e investigações para desvendar esse estranho sumiço, que leva a crer por todos que Nilcinha foi vítima de uma violência.
  


Relato do MAB
                  Nilce de Souza Magalhães, mais conhecida como ‘Nicinha’, mãe de três filhas, vó de quatro netos, pescadora e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) em Rondônia, desapareceu esse último dia 7 de janeiro, depois de ser vista pela última vez na barraca de lona onde mora com seu companheiro, Nei, em um acampamento com outras famílias de pescadores atingidos pela Hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, na localidade chamada de “Velha Mutum Paraná”, na altura do km 871 da BR 364, sentido Porto Velho-Rio Branco.
Nicinha foi vista a última vez por uma companheira de acampamento, quando estava cozinhando e lavando roupa em seu barraco, por volta do horário de 12 horas do dia 7 de janeiro. Algum tempo depois, a mesma vizinha sentiu um cheiro de queimado e foi até o barraco dela, a comida estava queimando, a máquina batendo e Nilce já não se encontrava no local. Seu companheiro, que estava em Porto Velho voltou quinta-feira pelo período da noite e ao não a encontrar, pensou que Nilce teria ido à comunidade de Abunã, onde morava com sua família. No sábado foi até Abunã verificar se Nilce realmente estava lá, mas ninguém tinha notícias sobre seu paradeiro, assim como seus parentes em Porto Velho.
Até o momento não houveram buscas pela polícia, apenas foi encontrado no chão a correntinha que sempre usava em seu pescoço pela Equipe do Corpo de Bombeiros, próximo a sua barraca no chão e quebrada, o que pode indicar que ela foi levada a força do local.
                Nicinha é conhecida na região pela luta no Movimento dos Atingidos por Barragens em defesa das populações atingidas denunciando as violações de direitos humanos cometidas pelo consorcio responsável pela Usina de Jirau, Energia Sustentável do Brasil (ESBR). Filha de seringueiros que vieram da cidade de Xapuri, no Estado do Acre para o Abunã em Rondônia, onde vivia a mais de cinquenta anos até ser atingida pelo empreendimento. Nos primeiros anos da obra a pesca começou a ser seriamente comprometida, tornando a vida dos pescadores extremamente difícil. No ano de 2014 sua comunidade também foi atingida por uma grande cheia potencializada pelo reservatório da hidrelétrica de que alagou as casas das famílias ribeirinhas, destruindo plantações, materiais de trabalhos, entre outros pertences.
Os diversos danos causados pelas hidrelétricas obrigaram Nicinha a se deslocar para “Velha Mutum”, junto a outros pescadores para tentar continuar a sobreviver do agroextrativismo, onde não contam com acesso à água potável ou energia elétrica. O local à beira do rio Madeira e da BR 364, se trata de onde antes estava a comunidade de Mutum Paraná, que foi completamente removida para o preenchimento do reservatório da hidrelétrica de Jirau é considerado propriedade privada e os ribeirinhos são tratados como invasores no seu território.
Nilce realizou diversas denúncias ao longo desses anos, participando de audiências e manifestações públicas, entre as quais, apontou os graves impactos gerados à atividade pesqueira no rio Madeira, assim como o não cumprimento das condicionantes da licença do empreendimento que obrigam o consórcio a reparar a situação socioeconômica das famílias de pescadores afetados. As denúncias geraram dois inquéritos civis públicos que estão sendo realizados pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público do Estado de Rondônia sobre a não realização do Programa de Apoio à Atividade Pesqueira e outro de caráter criminal, em função de manipulações de dados em relatórios de monitoramento da atividade pesqueira com o objetivo de não revelar tais impactos.
Também denunciou a existência de diversas áreas de floresta alagadas pelo reservatório da barragem, onde diversas espécies de árvores nativas encontram-se mortas, inclusive aquelas essenciais ao extrativismo como as castanheiras, além da presença de madeiras ilegalmente enterradas, que estão contaminando a água e gerando a emissão de gases efeito estufa. Nicinha luta pelo direito das famílias alagadas de Abunã, de tal forma que participou da última reunião com a hidrelétrica de Jirau, em dezembro de 2015 em Brasília, na qual foi encaminhado que uma comissão de órgãos federais, como IBAMA e Ministério Público Federal, realizará no início desse ano uma vistoria nas áreas atingidas pelo reservatório de Jirau, verificando a situação dos atingidos que precisam ser indenizados e reassentados para áreas seguras.
Qualquer informação ligar nos números 69 9923-0179 ou 3213-4982.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho Matéria 502 - Edição de domingo – 13/12/2015





                    Dom Roque Paloschi, ponte de comunhão e esperança!

Nossa saudação e boas vindas ao novo arcebispo da Arquidiocese de Porto Velho, Dom Roque Paloschi, que toma posse canônica neste domingo, às 09h, na Igreja São Cristóvão.
Dom Roque já conhece a hospitalidade de nosso povo, pois participou conosco, em 2009, do 12ºIntereclesial das CEBs.  A Igreja Particular de Porto Velho, escolhida por Deus com amor infinito e chamada a formar na história a família dos filhos de Deus (LG 40), privilegiada com uma extensa rede de comunidades urbanas e rurais, ribeirinhas, migrantes, indígenas e de periferia, é hoje confiada ao seu novo Pastor, que tem como lema “Fiz-me servo”!
Testemunha da esperança e missionário do evangelho, assume com confiança e coragem a sua missão, factus pontifex, constituído verdadeiramente “ponte” ao encontro de cada pessoa (Pastores Gregis, 65-66). Caminhando à frente do seu rebanho como fez Cristo (PG 21), ele é o Pastor do povo e dos pequenos, animador duma espiritualidade de comunhão (PG 22), nota distintiva da missão que sempre abraçou em sua vida de bispo e presbítero.
Na Amazônia, o grito da terra, das águas, da floresta, da cidade e dos povos tradicionais ecoa em seu coração quando acolhe esta nova missão de servir a essa porção do povo de Deus, dando sequência ao ministério episcopal dos bispos que o precederam. Consciente da graça de Deus que jamais lhe faltará e entregue “a Deus e à palavra da sua graça que tem o poder de construir o edifício” (At 20,32), relembramos o que dom Roque disse certa vez: “Na Igreja, o bispo é o primeiro a ser chamado, no sentido hierárquico. Ele deve ser um irmão entre os irmãos na busca da justiça, da paz e da solidariedade”.
     Dom Roque chega entre nós, no início do Ano Jubilar da Misericórdia, para “compartilhar a vida do Povo de Deus, dando a razão da esperança que está em nós” (1Ped 3,15), para que sejamos “testemunhas da misericórdia infinita de Deus, agentes de evangelização, artesãos do perdão, especialistas da reconciliação, peritos da misericórdia” (papa Francisco).
Na abertura da porta Santa de Bangui, Republica Centro-africana, o papa, transformando-a na “capital espiritual da súplica pela misericórdia do Pai”, pediu paz, misericórdia, reconciliação, perdão, amor para o mundo inteiro, de modo particular, para os países que sofrem a guerra.
Na reflexão anterior, falamos da perenidade do Advento e da necessidade de entrar no deserto e caminhar, pois a nossa libertação ainda não está concluída. O 3º domingo do Advento, denominado Domingo Gaudete (Alegrai-vos!), demonstra que Cristo Ressuscitado quer renascer ainda hoje, através de nós, a fim de nos libertar definitivamente.
Não é na tristeza e no medo que devemos andar e sim, na alegria e na esperança, pois, Deus precisa de nós para expressar a sua misericórdia e a sua justiça, cada vez que causamos situações de violência e injustiças na sociedade e na Igreja, todas as vezes que despojamos as pessoas de sua dignidade e quando condenamos à exclusão os pequenos e feridos da vida, impedimos que Deus seja Deus, retardamos a nossa libertação e impedimos que Cristo nasça hoje (Gravel).
A liturgia deste domingo tem como centro a construção de uma nova história. O nascimento do Deus pobre desmascara a sociedade que se regula pela injustiça, corrupção, ganância, abuso de poder.
Se a palavra do Batista a partir do deserto tocou o coração das pessoas, o seu apelo à conversão e ao início de uma vida mais fiel a Deus despertou em muitos uma pergunta concreta: O que devemos fazer? E esta é a pergunta que aparece três vezes no evangelho deste domingo e brota sempre em nós quando escutamos uma chamada radical e não sabemos como concretizar a nossa resposta.
“O que devemos fazer” neste momento grave da vida do país, quando chega até nos “o grito de dor desta nação atribulada, a fim de cessarem as hostilidades e não se permitir qualquer risco de desrespeito à ordem constitucional”? E a resposta, extraída da Nota da CNBB sobre o momento nacional: Nenhuma decisão seja tomada sob o impulso da paixão política ou ideológica. Os direitos democráticos e, sobretudo, a defesa do bem comum do povo brasileiro devem estar acima de interesses particulares de partidos ou de quaisquer outras corporações. É urgente resgatar a ética na política e a paz social, através do combate à corrupção, com rigor e imparcialidade, de acordo com os ditames da lei e as exigências da justiça.
     O Natal que está para chegar marca a presença de Deus em nosso meio, “pequeno resto” que procura manter-se fiel ao Senhor (VP). Conosco Deus quer construir nova história e nova sociedade (Sf 3,14-18a). No evangelho de hoje aprendemos os requisitos básicos para construir a nova história: partilha, justiça, fim aos abusos do poder
Para o jesuíta, pe. Johan Konings, a exigência de mudança deve ser inspirada pela esperança e pela alegria pelo bem que Deus sempre nos proporciona. A conversão dos indivíduos e da sociedade exige deixar de lado toda injustiça, mesmo aquela que faz parte dos costumes de nossa sociedade, como sejam o ágio, a extorsão, os subsídios ilegais etc. Se fosse hoje, João Batista ensinaria certamente a pagar imposto e taxas sociais; tudo isso faz parte da conversão para receber, com Jesus, o Reino de Deus (Lc 3,10-18).
O que devo fazer para viver a alegria da proximidade de Deus, de um jeito mais limpo e tornando o mundo mais limpo com suas estruturas mais de acordo com o evangelho e o Reino?
O mais decisivo e realista é abrir o nosso coração a Deus olhando atentamente as necessidades dos que sofrem. João Batista sabe resumir-lhes a sua resposta com uma fórmula genial pela sua simplicidade e verdade: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça a mesma coisa”. Quando começaremos a abrir os olhos do nosso coração para ter uma consciência mais viva dessa insensibilidade e escravidão que nos mantêm, submetidos a um bem-estar que nos impede ser mais humanos? (Pagola).
Se a dinâmica missionária de João Batista de lutar por justiça como preparação à vinda do Senhor, inspira e anima nossa missão de anunciadores e pre­paradores para a chegada de Jesus, Paulo Apóstolo, ao exortar os filipenses, pede que nos alegremos, pois a alegria faz parte da experiência cristã e deve estar presente neste tempo de espera do Senhor. Alegria que traduzimos em atos de solidariedade e de misericórdia, acolhendo aqueles que nos rodeiam e jamais fechando o nosso coração ao amor e ao perdão (Fl 4,4-7).
Nesta semana, iniciando a tradicional Novena de preparação para o Natal, em família e na Comunidade, queremos reafirmar que a Novena do Natal é uma das grandes riquezas da caminhada pastoral da Arquidiocese. Multipliquemos os grupos e famílias, através do alegre convite de participação.
     Nossa Novena do Natal em Família, no 1º dia, tem como tema o Seguimento de Jesus: “Imediatamente deixaram as redes, foram acolhidos por Jesus e o seguiram”. O 2º dia reflete os sinais do Advento, o cuidado e a presença de Deus que nos acolhe sempre e jamais nos abandona.
No 3º dia, diante do presépio, contemplaremos o testemunho dos seguidores de Jesus, principalmente do missionário São Francisco Xavier e renovaremos o compromisso de pertença à Igreja de Cristo que tem por missão “pregar o Evangelho a todos”. “Todos verão a salvação de Deus” é o tema do 4º dia da Novena, que reflete o mistério da encarnação do Filho de Deus, a partir da missão de João Batista.
O 5º dia fala da Maria: “Alegra-te cheia de graça, o Senhor está contigo”. Já o 6º dia nos leva a celebrar Nossa Senhora de Guadalupe: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o Fruto do teu ventre”! No 7º dia somos convidados a nos alegrar com a proximidade do Senhor em nossas vidas: “Alegrai-vos”! “O Senhor está próximo”!
O 8º dia tem como tema a cultura do encontro e o encontro entre Jesus, Maria, Izabel e João Batista, que podem ser confirmados pela acolhida e pertença a uma comunidade eclesial: “Como posso merecer que a Mãe do meu Senhor me venha visitar”? O 9º e ultimo dia da novena reforça a acolhida e pertença: “Hoje nasceu para vós um Salvador”!
Somos chamados a acolher Jesus que quer nascer em nossa casa, junto às famílias desalojadas, aos migrantes, aos povos indígenas, aos atingidos pelas barragens, às famílias isoladas pela chuva, expulsão, lama e inundação. Vem, Senhor Jesus!

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

CPT/RO UM COMPROMISSO A SERVIÇO DA LUTA

Quem teve a oportunidade de participar do curso de formação e reunião dos conselhos da CPT, realizado na cidade de Cacoal/RO, é sabedor que de lá ninguém saiu da mesma forma como entrou.
Guiado por uma pedagogia educativa de luta, o encontro trouxe a seus participantes a mística da reflexão, retratando assuntos que iam da destruição da mãe terra, passando sobre a responsabilidade humana nas atuais catástrofes, ao posicionamento do Papa Francisco frente ao cenário global. O mundo como Casa Comum dentro da perspectiva de preservação e de morada humana e responsabilidade de todos, foi discutido e problematizado.

 Planos e estratégias de luta foram discutidos, assim como, os graves conflitos agrários em Rondônia, que estão aumentando avassaladoramente. A preocupação da mobilização para o encontro da articulação da Amazônia foram externados por agentes, conselheiros e coordenadores, que se demonstraram preocupados frente aos diversos eminentes despejos e mortes de trabalhadores e trabalhadoras nas dezenas de áreas ocupadas e acampamentos.
 
Cantos, repentes e momentos de místicas no encontro, deram aos presentes a animação e força para dali, saírem mais fortes para a luta. 



Foram avaliados positivamente  por todos, a realização do Congresso da CPT, assim como a Romaria da Terra e outras atividades de grande participação popular, foi percebido entre os vários participantes o destaque e trabalho da CPT/RO, da mesma forma que a participação velada dos seringueiros, ribeirinhos e indígenas na Romaria da Terra que aconteceu na cidade de Machadinho do Oeste em Rondônia.

Notou-se assim, o avanço que teve a politização e capacitação dos militantes de várias regiões, frente ao notável conhecimento passado pelo curso jurídico, bem como as demais oficinas de discussão. O encontro terminou com o propósito de se fortalecer as bases, com a necessidade de aumentar a participação da CPT nas áreas, com um maior reconhecimento e mapeamento dos conflitos e trabalho escravo. Iniciando como proposta de uma retomada da luta em defesa da população seringueiras no Estado.
Texto e poesia: Dário Braga

POESIA CABOCLA
Soldado da borracha o seringueiro recrutado
Na floresta viveu muitos anos enganado
Trabalhando em um sistema de produção
Bastante parecido com a escravidão.

No chão da grande Amazônia
Muito sangue derramado
Sonho, suor e lágrimas.
Da grande luta dos seringueiros
Nasceu Chico Mendes companheiro.

Os anos se passaram,
Os seringais desativaram
No lugar do seringueiro
Foi morar o fazendeiro.

Grande parte da floresta foi arrasada
A arara, o Frifri-ó e o Irapuru
Já não fazem mais zoada.

Foi-se embora quase tudo com a destruição
O soldado da borracha, o seringueiro e até o patrão.

Do verde que ainda resta
Se formou um bolsão
Uns chamam de floresta,
Outros de ilhas de vegetação.

Terras de índios
Ou floresta extrativista
Mora o castanheiro e ainda o seringueiro
Acreditando na Ilusão.


Era uma vez uma floresta!
Dário Braga