quarta-feira, 16 de agosto de 2017

COMUNIDADES REALIZAM VIGÍLIA POR JUSTIÇA E PAZ NO CAMPO

                             


                       Tribunal do  Júri   é suspenso em Ariquemes, Rondônia.


            Uma vigília de oração ecumênica foi realizada na noite do dia 14 de Agosto de 2017 na  Comunidade São Jose, cidade de Ariquemes, no Vale do Jamari, em Rondônia. 

O ato reuniu pessoas de várias comunidades e de diferentes   denominações religiosas  que, numa vigília de oração, clamaram  por justiça e  paz no campo. Foram nominalmente lembradas as 56 pessoas que, em Rondônia, a violência no campo ceifou no período de 2015 a julho de 2017, conforme registro da Comissão Pastoral da Terra - CPT. A maioria das mortes aconteceu na região do Vale do Jamari.

A vigília contou com a participação de agentes de diversas Pastorais, membros de Comunidades Eclesiais de Base - CEBs, professores, advogados, estudantes, agricultores assentados pelo INCRA  no 14 de Agosto, bem como algumas famílias que sofrem ameaça de despejo na Área do Canaã, representantes de movimentos sociais tais como: Movimento dos Atingidos por Barragens - MAB, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - MST, Movimentos dos Pequenos Agricultores – MPA e Liga dos Camponeses Pobres -  LCP. 


                                     
          Figura 1 - Vigília pela justiça e pela paz no campo em Ariquemes 15.8.17 - foto Francisco Kelvim - Mab



                                                 JULGAMENTO ADIADO
              A vigília de oração foi programada e realizada na noite anterior ao dia em que estava agendado o julgamento dos supostos mandantes e executores das mortes ocorridas na fazenda Tucumã no inicio de 2016. Vale lembrar que foram assassinados dois jovens, Alysson Henrique Lopes, de 23 anos, e Ruan Hildebrandt Aguiar, de 18 anos. Correlacionado ao mesmo acontecimento, no dia 31 de janeiro de 2016 houve também a tentativa de assassinato de mais três testemunhas em Cujubim.  

          Quando voltavam do antigo acampamento Terra Nossa, onde tinham ido para recolher alguns de seus pertences depois de terem sido despejados, cinco jovens sofreram uma perseguição implacável, uma verdadeira caçada humana. Três deles conseguiram escapar enquanto Alysson e Ruan não tiveram a mesma sorte. O corpo do primeiro apareceu carbonizado no carro do seu pai. 


                                          
                                               

                                               PERMANECE A IMPUNIDADE

              Apesar da insistência dos pais a fim de que fossem realizadas buscas minuciosas quanto ao paradeiro de Ruan, este nunca foi encontrado.

            Diligências apontaram para o suposto envolvimento de Policiais Militares. Ao que tudo indica, estes realizavam um trabalho de vigilância privada da Fazenda Tucumã.  Mais tarde foram apreendidas armas pesadas e realizadas diversas prisões.

              Após isso, uma força tarefa da polícia civil investigou o caso e o Ministério Público apresentou acusações contra o pecuarista de Ji Paraná Sérgio Sussuma Suganuma. A acusação que versa sobre ele é de ter gerenciado a contratação da equipe de pistolagem de Rivaldo de Souza e Moisés Ferreira de Souza, sargento da reserva da PM. 

        Também foram acusados Jonas Augusto dos Santos Silva, cabo da PM e Paulo Iwakami, contador de Ji Paraná e proprietário da Fazenda Tucumá. O MP também acusou Altacício Domingues dos Santos, soldado da PM de Cujubim; Marcos José Terêncio, também soldado da PM; Donizete Silva do Nascimento, soldado da PM; Paulo Diego de Castro Francisco, soldado da PM de Cujubim,. Contudo, apenas os cinco primeiros foram pronunciados para o tribunal do júri que os deve julgar por emboscada, perseguição, promessa de pagamento para o cometimento dos crimes, ocultação de um cadáver e carbonização de outro, por dois homicídios consumados (Alysson e Ruan) e três tentativas de homicídio contra Renato de Souza Benevides, Raimundo Nonato dos Santos e Alessandro Esteves de Oliveira. 



                                            


                  Além do mais, não demorou muito para que fosse desencadeada também uma caçada de testemunhas. Um dos sobreviventes, Raimundo Nonato dos Santos, sofreu um atentado o dia 14/04/2016. Um colaborador da fazenda, o mototaxista Zé Bigode, foi assassinado em Cujubim, por suposta queima de arquivo. Dois jornalistas da cidade que cobriam os fatos sofreram atentados e tiveram que fugir. Em 2017 foram assassinadas duas lideranças do Acampamento Terra Nossa: Roberto Santos Araújo (02/02/17) e Ademir de Souza Pereira (07/07/2017). Outra testemunha, Elivelton Castelo do Nascimento, o Tom, foi morto em Ariquemes (15/02/2017). Outro dos sobreviventes, o Baixinho, Renato Souza Benevides, foi assassinado em Machadinho o dia 04/03/17. 



                                    
                            Figura 3 Raimundo dos Santos recuperando do atentado. CPT RO

            No dia 15 de agosto, o juiz responsável suspendeu o julgamento em decorrência da ausência, por motivo de saúde, de um dos advogados da defesa e desistência, de última hora, de outro advogado. O júri foi remarcado para o mês de outubro. 

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Brasil é líder em mortes por conflitos fundiários,


 destaca relatório da Global Witness



Em 2016, o País registrou 49 assassinatos de defensores do direito à terra. Documento traz recomendações para enfrentamento ao problema
Embora os conflitos agrários sejam um fenômeno global, 60% das mortes no campo em 2016 ocorreram na América Latina. O Brasil lidera o ranking de assassinatos (49), seguido por Colômbia (37), Filipinas (28), Índia (16), Honduras (14), Nicarágua (11), República Democrática do Congo (10), Bangladesh (7), Guatemala (6) e Irã (3).
Os dados são do relatório “Defender la Tierra – Asesinados globales de defensores/as de la tierra y el medio ambiente en 2016”, produzido pela Global Witnesss, organização internacional que avalia vínculos entre conflitos e a exploração de recursos naturais, pobreza e direitos humanos.
Desde que instituição passou a publicar seus dados, este foi o ano com maior registro de mortes, evidenciando uma tendência de expansão preocupante. “Enquanto o relatório de 2015 apontou casos semelhantes em 16 países, em 2016 o número saltou para 24 nações”, destaca a Global Witnesss.
Segundo o documento, esta onda de violência é impulsionada por uma intensa luta pela terra e recursos naturais, com destaque na atuação de grandes empresas – sendo a mineração o setor mais mencionado. “À medida em que mais projetos de extração foram impostos às comunidades, muitas das pessoas que se atreveram a levantar a voz e a defender seus direitos foram brutalmente silenciadas”, aponta o documento.
Brasil – De acordo com o estudo, o Brasil tem sido sistematicamente o país mais funesto para defensoras e defensores do meio ambiente e da terra. “Apesar do chocante e crescente número de assassinatos, o governo brasileiro tem, na verdade, diminuído a proteção a defensores ambientais", denuncia a Global Witness ao criticar o desmantelamento do Ministério dos Direitos Humanos e o Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos, que conta com "poucos recursos e é ineficaz”, destaca o texto.
Recomendações – O relatório traz uma série de recomendações a governos e atores do sistema de justiça para o desenvolvimento de ações voltadas à prevenção e enfrentamento ao problema. Entre elas, a necessidade de que os poderes públicos adotem medidas para reconhecer o importante papel dos defensores do direito à terra, proporcionando condições para sua atuação e proteção. O documento também pede que os responsáveis por ações de violência sejam responsabilizados e que o direito à terra seja respeitado e protegido, especialmente áreas indígenas e de comunidades tradicionais.
Acesse aqui a íntegra do relatório Defender la Tierra.
Atuação da PFDC – A necessidade de ações voltadas ao combate à violência no campo e à proteção do direito à terra tem mobilizado esforços da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal.
Uma das primeiras medidas adotadas pela nova gestão da PFDC assumida em 2016 foi a instalação do Fórum por Direitos e Contra a Violência no Campo. Inspirado em experiência da década de 1990, o colegiado ressurgiu como agente articulador dos diversos segmentos afetados pelo encolhimento dos espaços de diálogo e pela desarticulação de estruturas voltadas à questão do campo no Brasil.
O diálogo estabelecido com os movimentos e organizações que atuam na área, subsidiou a atuação da PFDC para cobrar de órgãos governamentais ações para impedir o desmonte de políticas públicas destinadas à reforma agrária, à delimitação das terras dos remanescentes das comunidades quilombolas e à promoção do desenvolvimento sustentável dos agricultores rurais familiares.
A Procuradoria também defendeu a inconstitucionalidade do Acórdão Nº 755/2016do Tribunal de Contas da União (TCU), que suspendeu a política de reforma agrária no Brasil, e tem sido agente articulador pelo fim de conflitos fundiários em regiões como AnapuRedenção e Curianópolis, no estado do Pará, tendo sediado em maio deste ano o Ato Denúncia Por Direitos e Contra a Violência no Campo – encontro que reuniu mais de 200 trabalhadores rurais, indígenas, quilombolas, defensores de direitos humanos, parlamentares e ativistas por justiça e paz no campo e que resultou numa carta pública de compromissos.
A PFDC também apontou a inconstitucionalidade da Medida Provisória 759, editada pelo Governo Federal e que modificou diretrizes legais sobre a regularização de terras urbanas e rurais no País. Em conjunto com seu Grupo de Trabalho sobre Reforma Agrária, a Procuradoria dos Direitos do Cidadão estuda a adoção de medidas contra a Lei 13.465/2017, resultante da MP 759, além de estratégias relacionadas a processos de reintegração de posse e de uma força-tarefa voltada à prevenção de conflitos fundiários e ao combate à impunidade nos estados do Pará e de Rondônia, entre outras ações.

Procuradoria Federal dos Direitos
do Cidadão (PFDC/MPF)
SAF Sul Quadra 4 Conjunto C
Brasília/DF - Cep 70050-900
Tel: 61 3105 6009
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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Carta Pública do Seminário: Justiça Sócio Ambiental na Amazônia, a Construção do Bem Viver, no Campo e na Cidade




 Política e Economia à Serviço da Vida

 “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana...” Laudato Si,189.

À luz destas palavras do Papa Francisco, nós, os representantes das 3 dioceses do estado de Rondônia: Arquidiocese de Porto Velho, Diocese de Guajará-Mirim, Diocese de Ji-Paraná, Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), Organizações da Sociedade Civil e Movimentos Sociais, reunidos no Centro Diocesano de Formação, durante os dias 28 a 30 de julho de 2017, refletimos o tema: Justiça Sócio Ambiental na Amazônia: a Construção do Bem Viver, no Campo e na Cidade. “A criação geme e sofre dores de parto.” (Rm 8,22)

Ouvindo os clamores dos povos da floresta, do campo, das águas e da cidade, constatamos a progressiva, autoritária e violenta perda dos direitos conquistados através de muitas lutas ao longo da nossa história, onde o poder econômico se tornou o parâmetro de todos os poderes constituídos, uma espécie de “deus mercadológico” que transforma tudo em mercadoria e destrói tudo aquilo que não comungue com seus interesses capitalistas excludentes, sejam a terra, as águas, as florestas, os povos e seus saberes ancestrais.

As conseqüências destas ações se explicitam na:
- violência e assassinato de indígenas, posseiros (as), sem-terra, trabalhadores (as) rurais quilombolas, extrativistas e defensores (as) dos direitos humanos;
- mudanças repentinas das leis que regulam e garantem os direitos dos mais fracos à terra e sua posse, trabalho, educação, saúde, previdência e proteção social, meio ambiente, impostas de cima para baixo, orquestrada com o poder midiático,  sem que haja a menor participação do verdadeiro ator político, o povo soberano;
- desmatamento, poluição, exploração dos recursos naturais, uso abusivo de agrotóxicos, esgotamento do solo, destruição de nascentes;
- a subjugação do poder político ao econômico criminalizando e fragilizando a organização e participação popular democrática.
 Provocados e provocadas pelas palavras do Papa Francisco que nos convida a uma radical conversão ecológica e social em defesa da Mãe Terra, Nossa Casa Comum, dádiva de Deus, somos convocados (as) a agir.  “O tempo para encontrar soluções globais está acabando. Só podemos encontrar soluções adequadas se agirmos juntos e de comum acordo. Portanto existe um claro, definitivo e improrrogável imperativo ético de agir”. (Papa Francisco)

Renovados (as) e motivados (as) pelos exemplos de experiências coletivas de Bem Viver que vem dos e com os (as) pequenos (as) e pobres, voltamos para nossas comunidades e territórios com esperança e na certeza de que, somente através da união, solidariedade, organização construiremos novas relações geradoras de Vida Plena.
  Ji-Paraná/RO, 30 de Julho de 2017

Instituto Pe Ezequiel Ramin-IPER
Diocese de Ji-Paraná
Diocese de Guajará-Mirim
Arquidiocese de Porto Velho
Missionários Combonianos
Serviço Pastoral dos Migrantes- SPM
Centro de Estudos Bíblicos- CEBI
Comissão Pastoral da Terra- CPT/RO
Conselho Indigenista Missionária - CIMI
Pastoral da Saúde
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST
Movimento dos Atingidos por Barragem – MAB
Coletivo Luzinei Barreto
Movimento dos povos indígenas de Rondônia
Grupo de agroecologia Bem Viver
Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Bispos da área social da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, em mensagem, falam do desmonte da legislação trabalhista e social


Os bispos que compõem a Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora e os referenciais das Pastorais Sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicaram uma mensagem ao final do encontro realizado em Brasília, nos dias 31 de julho e 1º de agosto. Na ocasião, os prelados procuraram “luzes para a atuação da Igreja no Brasil frente aos novos desafios da nossa realidade”.
“Clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social”, lê-se no texto. Para os bispos, o governo, em lugar de fortalecer o papel do Estado para atender as necessidades e os direitos dos mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, “falsamente justificada”.
“Interpelados pelo Espírito do Senhor”, dizem no texto, os mebros da comissão e referenciais das Pastorais convidaram comunidades eclesiais, organismos do Povo de Deus e pessoas de boa vontade “a implementar ações que transformem em esperança as apatias e frustrações da sociedade brasileira”.
O encontro aconteceu na sede das Pontifícias Obras Missionárias (POM) e teve assessoria do padre José Oscar Beozzo. As reflexões foram inspiradas no Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança). A partir da II Conferência do Episcopado Latino-americano e caribenho, realizada em Medelín, há 49 anos, foi feito um resgate da aplicação do texto conciliar no continente, “reavivando e atualizando suas intuições e compromissos fundamentais no contexto da atual transformação social”.
Leia a mensagem dos bispos na íntegra:

MENSAGEM DOS BISPOS DAS PASTORAIS SOCIAIS
“Eu vi… e ouvi o clamor do meu povo” (Ex 3,7)

Nós, Bispos da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora e Referenciais das Pastorais Sociais, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunidos em Brasília, na sede das Pontifícias Obras Missionárias, nos dias 31 de julho e 1º de agosto de 2017, procuramos luzes para a atuação da Igreja no Brasil frente aos novos desafios da nossa realidade, hoje.

Contando com a magnífica assessoria do Pe. José Oscar Beozzo, inspiramo-nos no Concílio Vaticano II, particularmente na Constituição Pastoral Gaudium et Spes (Alegria e Esperança), resgatando sua aplicação na América Latina e no Caribe, a partir da 2a. Conferência Episcopal deste Continente, em Medellín, cujo aniversário de 50 anos celebraremos em 2018, reavivando e atualizando suas intuições e compromissos fundamentais no contexto da atual transformação social.

Reconhecendo que não há realidade alguma, verdadeiramente humana, que não encontre eco no coração de Cristo (cf. Gaudium et Spes, nº 1), entendemos que a Igreja tem por missão pastoral atuar frente à globalidade da realidade, particularmente as situações que geram sofrimentos humanos, com a mesma compaixão de Jesus Cristo.

“Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja estar atenta a todo momento aos sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático” (Gaudium et Spes, nº 4).

Clamam aos céus, hoje, as muitas situações angustiantes do Brasil, entre as quais o desemprego colossal, o rompimento da ordem democrática e o desmonte da legislação trabalhista e social. O governo, em lugar de fortalecer o papel do Estado para atender as necessidades e os direitos dos mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital, sobretudo financeiro especulativo, penalizando os mais pobres, por exemplo com a reforma da previdência, falsamente justificada.

Não seremos um país diferente sem superarmos a ingenuidade, a passividade e a indiferença. Urge-nos, portanto, como Igreja, realizar nossa missão pastoral em profunda comunhão, com coragem profética, promovendo e fortalecendo ações comuns com todos os setores democráticos deste país, em favor de novos rumos para a sociedade brasileira, fundados na dignidade humana de todos os cidadãos e cidadãs e no bem comum.

Interpelados pelo Espírito do Senhor, convidamos nossas comunidades eclesiais, os organismos do Povo de Deus e todas as pessoas de boa vontade a implementar ações que transformem em esperança as apatias e frustrações da sociedade brasileira, afinal, como diz o Papa Franscisco, o coração de Deus é e continuará incandescente por amor a seu povo (cf. Audiência Geral, 26 de abril de 2017). Assim, também, estejam, hoje e sempre, os nossos corações!

Que Nossa Senhora Aparecida, a quem expressamos nosso louvor especial neste Ano Mariano, nos inspire a revelar o rosto misericordioso de Deus, defensor da justiça em favor dos empobrecidos, sendo sinais e instrumentos da ação libertadora e humanizadora de Cristo, frente às novas formas de escravidão dos tempos atuais.
Brasília, 1º de agosto de 2017.



Dom Guilherme Antonio Werlang, Msf
Bispo de Ipameri/GO
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora

O silêncio das ruas


      
 O silêncio das ruas revela que não há mais esperança nas instituições brasileiras





Dom Luiz Demétrio Valentini, bispo-emérito de Jales (SP), esteve em Brasília-DF, dias 31 de julho e 1º de agosto, para o encontro dos bispos da área social e os que integram a Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).  Natural de São Valentim (RS), o religioso, que presidiu a Cáritas Brasileira por dois mandatos, concedeu entrevista ao Portal da CNBB sobre a crise brasileira. Para ele, o silêncio das ruas não é uma concordância tácita com o que está acontecendo, como alguns querem fazer acreditar. Pelo contrário, “é um sintoma preocupante de que não temos mais esperanças e sinais concretos para recuperar o rumo da caminhada histórica do Brasil”.

De acordo com o bispo-emérito, o poder Judiciário e o Congresso Nacional estão instrumentalizados para salvar os seus próprios privilégios. “Não se pode permitir que ministros do Supremo Tribunal Federal façam do seu cargo uma opção política partidária a ser defendida publicamente. Isto diminui a legitimidade, a confiança e é perigoso para uma nação”, disse. Dom Demétrio disse que os grandes interesses convergiram e o presidente que temos agora serve de instrumento da execução destes interesses escusos que não são publicados.

Segundo o bispo, “o trecho do cântico de Jeremias (Cântico Jr 14,17-21): “Até o profeta e o sacerdote perambulam pela terra sem saber o que se passa”, é uma descrição simbólica do que estamos vivendo no país. O religioso afirma que torna-se necessário ajudar o povo brasileiro a reencontrar sua identidade e destino históricos, sua feição cultural, sua tradição e fazer convergir todas estas realidades para que a cidadania brasileira reencontre os rumos do país. Leia abaixo a íntegra da entrevista que ele concedeu ao Portal da CNBB.


Portal CNBB – Como avalia a crise política brasileira?

Dom Demétrio – Certamente, estamos vivendo um momento difícil, todos reconhecem, no qual há uma perca da identidade do povo brasileiro. Se torna necessário ajudar o povo brasileiro a reencontrar sua identidade e destino históricos, sua feição cultural, sua tradição e fazer convergir todas estas realidades para recuperarmos um projeto de Nação. Estamos esquecendo nosso projeto de nação. Estamos sentindo novamente a necessidade de fazer, por exemplo, uma nova semana social brasileira para que a Igreja possa cumprir esta tarefa importante que tem de identificar e saber o que está acontecendo. Como diz o cântico de Jeremias: “Até o sacerdote e o profeta perambulam pela rua sem saber o que acontece”. É um pouco a descrição simbólica da realidade que estamos vivendo agora. A ausência de posicionamento revela de um lado um descrédito muito grande. Uma distância sempre crescente entre as estruturas sociais políticas e a vida do povo brasileiro. De tal modo que há um descrédito generalizado. Não é uma concordância tácita não, como alguns pretendem instrumentalizar este silêncio das ruas. É um sintoma preocupante de que não temos mais esperanças, sinais concretos de referências práticas para recuperar o rumo da nossa caminhada histórica do Brasil. Estamos vivendo um momento difícil que se caracteriza, sobretudo, pelo descrédito das instituições e por sua incapacidade em recuperar e superar a pecha sempre crescente da sua falta de legitimidade perante o povo brasileiro. Estamos vivendo um momento muito difícil no Brasil e precisamos nos rearticular, enquanto Pastorais Sociais da CNBB como um todo, e retomar nossa missão profética de questionar os equívocos que estão acontecendo, os erros praticados e projetar para frente um novo projeto de Brasil que queremos.





Portal CNBB – Como avalia os passos do Michel Temer depois do impeachment da presidenta Dilma Rousseff?

Dom Demétrio – Se há dificuldades de convergências em torno de um projeto de país por outro se criou uma convergência que assusta. Interesses que estão se consolidando e convergindo para que se instrumentalizem o Congresso Nacional e o poder judiciário para salvar os próprios privilégios. Há uma espécie de trama que está sendo orquestrada para que isto se torne invisível e leve o Congresso a retrocessos políticos como, por exemplo, o que estamos assistindo com a nova lei trabalhista aprovada e a nova a lei da previdência social que estão propondo. Existe um interesse do liberalismo econômico que está voltando com força, como se a solução do Brasil fosse voltarmos aos tempos da revolução industrial em que se confrontavam os pequenos contra os poderosos, sempre com desvantagem evidente para os pequenos. Agora estamos assistindo esta realidade em que os grandes interesses convergiram e o presidente que temos serve de instrumento da execução destes interesses escusos que não são publicados, mas que aos poucos precisamos identificar para nos posicionar diante da crise política que estamos vivendo.



Portal CNBB – Como avalia o papel que o judiciário está desempenhando neste contexto de crise?

Dom Demétrio – Infelizmente ele também padece de credibilidade. Poucos têm segurança em pensar no Supremo Tribunal Federal e em outras instâncias da Justiça Brasileira. Existe uma insegurança e uma mescla de ações e atitudes que são claramente partidárias. Por exemplo, não se pode permitir que ministros do Supremo Tribunal Federal façam do seu cargo uma opção política partidária a ser defendida publicamente. Isto diminui a legitimidade, a confiança e é perigoso para uma nação. Quando se perde a confiança no judiciário estamos no limite da credibilidade fundamental que é preciso que exista, minimamente, para se levar em frente um projeto de país. Então o próprio Judiciário precisaria se questionar e deixar de ter posicionamento partidário e voltar a cumprir sua missão de ser a instância capaz de discernir e fazer as ponderações necessárias e avaliar bem para tomar decisões com legitimidade. A falta de credibilidade do judiciário é mais um sintoma da crise que estamos vivendo.



Portal CNBB – Neste contexto de crise das instituições e da própria democracia no Brasil, qual deve ser o papel da Igreja?

Dom Demétrio – Precisamos retomar a intuição de uma Constituinte para de novo repropor um projeto de país. Neste sentido, a Igreja se sente próxima ao povo, e deve se tornar mais próxima ainda, para poder recolher e ajudar a articular. Falta articulação no país agora, falta uma mediação e não existem instâncias que têm credibilidade para fazer esta mediação. Penso que a Igreja pode propor e se apresentar, não como aquela que tem a solução, mas com quem estimula a cidadania brasileira a reencontrar os rumos do país. Penso que a Igreja não pode fechar os olhos e não se omitir, precisa enfrentar o desafio de compreender a realidade e perceber quais são os interesses que estão em jogo e não se deixar instrumentalizar. Existe um desafio bem concreto para a Igreja de voltar a assumir a causa do país para que a cidadania possa retomar a sua vigência, sua ação concreta e sua articulação em benefício de toda a nação brasileira.




“A ausência de posicionamento revela de um lado um descrédito muito grande. Uma distância sempre crescente entre as estruturas sociais políticas e a vida do povo brasileiro”.