domingo, 10 de agosto de 2014

Missão dos pais e família!

Como cultivar a esperança? Esperamos mudar de vida, transformar condições de existência que julgamos desumanas. Buscamos a libertação para viver uma vida mais digna e humana. Na bíblia encontramos uma história de libertação e de um poder eficaz para ser livres. Esse poder é Cristo Ressuscitado.

Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 432 - Edição de Domingo – 10/08/2014

Missão dos pais e família!

Dia dos Pais e abertura da Semana Nacional da Família: nossa saudação a todos os pais, cujas vidas estão alicerçadas no encontro permanente com Cristo, cujas famílias são o santuário da vida de nossas comunidades eclesiais, santuário que acolhe, vive, celebra e anuncia a Palavra de Deus. Hoje, oramos: “dai-nos, ó Pai, um coração de filhos”.

Estimados pais, vocês nos revelam o amor de Deus por nós. Na família vocês vivem a grandeza de sua missão. Sim, “a paternidade é uma altíssima vocação”. E essa vocação tem como pauta a responsabilidade (CNBB/doc 79,73).

A missão de pai é realizadora e abençoada por Deus. Educar é uma graça que o Senhor lhes dá e esta deve ser acolhida com gratidão.

Na Semana da Família somos convocados a transformar nossas famílias marcadas pelo medo, solidão ou desencanto em lares de fé, morada do amor e da esperança.

A família, “primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade” e “obra predileta de Deus em seu projeto de amor”, é vocacionada para o amor e à comunhão. Ela não é criação humana, nem do Estado, nem da Igreja. É constitutivamente ligada à natureza do homem e da mulher, para o bem e a felicidade pessoal, da sociedade e da Igreja (FC 36; CNBB/doc 79,45).

Na liturgia deste domingo, diante de desafios e ventos contrários, percebemos que não estamos sozinhos na caminhada. Cristo pede que não tenhamos medo e façamos uma experiência de fé: Coragem! Sou eu. Não tenham medo! (Mt 14,22-33).

Sem uma fé firme, com raízes profundas, não tem como vivermos bem a nossa vocação, pois a vocação é o exercício da fé. Deus vem sempre ao nosso encontro, em nosso auxilio. A iniciativa vem de cima, reflete Pe. Libânio. Tudo começa com o primeiro toque de Deus. J. Alfaro, nas pegadas de Santo Tomás, usa a bela expressão que a fé se inicia no coração humano por meio da “atração da Verdade primeira”.

A fé é entrega radical a Deus. O cristão reconhece em Jesus o Filho, o enviado, o mensageiro escatológico de Deus. E por isso crê nele. Para tal, encontra mil sinais de credibilidade e razoabilidade por meio do testemunho dos discípulos e da Tradição de dois mil anos de fé cristã.

A atual agenda do mundo é de medo e guerras, violência, terrorismo e poder, tragédias naturais e provocadas, e aí nos perguntamos o que ainda pode nos acontecer?

Quando não existe fé, as pessoas se agarram a qualquer coisa fora de Deus, para se sentirem seguras. A fé, certeza do amor de Deus é mais forte que qualquer medo que alguém ou alguma coisa nos possa incutir. O amor de Deus por toda humanidade já existe antes da “fundação do mundo”, independentemente dele. Existe desde a eternidade: é o amor entre o Pai e o Filho, no qual fomos assumidos. O amor por nós já existe, mas nós não sabíamos, isto é, não tínhamos fé. Como não sabíamos, estávamos dominados pelo temor e medo pela nossa vida. O temor só pode ser superado pela certeza da fé, que nos foi dada pelo batismo. As pessoas sem fé são amadas como todas as outras. Elas, de fato, vivem uma ilusão. Acham que não são amadas e, contudo são amadas. A ilusão, a falta de fé as faz sofrer, pelo temor por sua vida. A falta de fé é a causa de todas as confusões, incertezas, angústias, desordens e desigualdade social no mundo.

Nesta semana, pela comunhão do Espírito Santo, que vence a solidão, somos convocados a renovar a comunidade familiar, a transformá-la em casa de comunhão, fonte de solidariedade, morada da esperança, caminho de santidade.

A solidão é uma das experiências humanas mais universais: é a experiência da fraqueza original. Hoje, ela é uma das fontes mais universais de sofrimento. Psiquiatras e psicólogos explicam que ela é a causa de muitos suicídios, do alcoolismo, do uso de drogas, depressão e de muitos sintomas psicossomáticos, como dores de cabeça, estomago, coluna e outros. Por que muitas reuniões e festas nos deixam vazios e tristes? Apesar de uma cultura que fala muito em família, companheirismo, comunidade como ideais pelos quais lutar, muitos jovens, adultos, idosos estão hoje cada vez mais expostos à doença contagiosa da solidão. As raízes da solidão são profundas e dificilmente são atingidas pela propaganda otimista e o companheirismo social. Alimenta-se da suspeita de que não há ninguém que se importe, que dê amor sem condições, que não existe lugar onde possamos ser vulneráveis sem ser usados. Muitos tentam abafar sua dor física, mental abafar sua dor física, mental ou emocional procurando ocupar-se bastante, olhar TV, ler, ouvir musica, para anestesiar-se e não sofrer.

Em nosso interior, o coração é um lar no qual Deus veio para estar conosco. Devemos saber vigiar e orar, não ter medo de olhar para dentro de nosso interior. Mais importante do que qualquer ação particular ou de qualquer palavra de aconselhamento é a simples presença de alguém que se interessa por nós. Quando alguém nos diz no meio de uma crise... “Eu não sei o que dizer ou o que fazer, mas quero que compreendas que estou ao teu lado, que não te deixarei sozinho”, então temos um amigo com quem podemos contar, um amigo em quem encontramos conforto. O que realmente importa é que em momentos de dor e sofrimento alguém esteja ao nosso lado. É na presença despretensiosa e “inútil”, um ao lado do outro que sentimos mais conforto. Estar com alguém é compartilhar a vulnerabilidade com esse alguém é entrar com ele ou com ela na experiência da franqueza.

Deus, entrando em nossa humanidade pela encarnação, comprometeu-se a viver em solidariedade conosco, a compartilhar conosco as alegrias e as dores, a nos defender e a sofrer conosco tudo. O Emanuel é o Deus da intimidade, nosso refugio, fortaleza, sabedoria, nosso pastor. Jesus realizou curas, porém o mais importante era o que ele demonstrava: a compaixão. Deus é Pai e esta é uma forma de revelar o abismo de ternura imensa, inexaurível e insondável de Deus. Ele se comove com nossa fragilidade e participa de nossas lutas humanas.

Como cultivar a esperança? Esperamos mudar de vida, transformar condições de existência que julgamos desumanas. Buscamos a libertação para viver uma vida mais digna e humana. Na bíblia encontramos uma história de libertação e de um poder eficaz para ser livres. Esse poder é Cristo Ressuscitado. Esperar é voltar-se para o futuro, não se resignar às insuficiências do agora. A esperança é um desespero superado e é sempre coletiva enquanto o isolamento induz ao desespero. Já a alegria precisa ser partilhada, não existe alegria estritamente individual. A esperança, portanto, se liga à solidariedade.

É dessa fonte interior de solidariedade que brota a vida e comunhão familiar. O bem comum da família é um espaço entre os membros que a compõem, uma comunhão vital, um laço. É um elemento além e acima das pessoas livres e responsáveis que a compõem. O bem comum da família diz que ela não é propriedade de ninguém, mas o resultado do esforço e colaboração de todos.

Aprendemos neste domingo que no projeto de Deus, ninguém é esquecido. Todos, pessoalmente, somos chamados à santidade. O amor conjugal sadio e nobre precisa crescer no mesmo ritmo que o amor de Deus. A comunhão familiar requer de todos e de cada um, pronta e generosa disponibilidade à compreensão, à tolerância, ao perdão, à reconciliação. Na família, pais e filhos aprendam a cobrir com o manto da misericórdia as fragilidades de uns e de outros: perdoar sempre e começar de novo. Na prática de seus relacionamentos, pais e esposos alcançam maior êxito na educação de seus filhos e na convivência, quando aprendem a se perdoar e a se reconciliar mutuamente (CNBB/Reg.S4/Congr.ECC).

Queridos pais e mães, este é um tempo de graça para a família cristã; tempo em que as relações se renovam e se transformam: da casa do medo à morada da fé, da solidão à casa da comunhão e esperança; da esperança à solidariedade.

Da solidariedade à construção de uma sociedade fraterna e justa.

À Sagrada Família de Nazaré, pedimos: Fazei com que nossas famílias sejam lugares de comunhão e cenáculos de oração, autênticas escolas do Evangelho e pequenas Igrejas domésticas. Que nas famílias nunca haja violência, fechamento ou divisão, que os que foram feridos ou escandalizados sejam consolados e curados (Oração pelo Sínodo da Família 5-9/10/2014).

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