quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A violência pesada do tráfico ilegal de madeira na Amazônia

Caminhão toreiro clandestino apreendido na delegacia de Seringueiras, Rondônia . Foto cpt ro
Atualizado às 14 h.
Diversos meios de comunicação do Brasil e do mundo inteiro tem divulgado relatório da Interpol relatando a primeira operação internacional da entidade contra o tráfico ilegal de madeira. A operação foi conduzida em 12 países, entre eles o Brasil, e prendeu quase 200 pessoas e US$ 8 milhões em madeira. "Em Brasil muitos defensores do meio ambiente morreram por esta causa", destacam diversas matérias divulgadas em nosso país.
Segundo um relatório do PNUMA, o comércio de madeira extraída ilegalmente na Amazônia, na África Central e no sudeste Asiático movimenta de US$ 30 bilhões a US$ 100 bilhões por ano e é responsável por até 90% do desmatamento de florestas tropicais no mundo. O alerta foi feito a finais de setembro de 2012 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e pela Interpol, durante a divulgação do relatório Carbono Verde: Comércio Negro.
Segundo testemunhas ouvidas pela CPT RO na mesma época, a devastação é contínua: "Estão acabando com as florestas ali no Sul de Lábrea" O local tem acesso por Vista Alegre de Abunã distrito de Porto Velho RO, já nas proximidades do Acre. "Não dá para contar a enorme quantidade de castanheiras queimadas, é um ,,holocausto ambiental,, ali onde há fartura delas. O que fazer além de denunciar, denunciar e ficar com uma raiva desgraçada?" (continua)
A extração clandestina de madeira hoje é considerada a causa direta da morte da liderança do MCC (Movimente dos Camponeses de Corumbiara) Adelino Ramos, líder do PAF Curuqueté, que morreu em Vista Alegre do Abuná em 27 de maio de 2011. O suposto assassino posteriormente foi solto e também assassinado a inícios de 2012, em queima de arquivo. E o processo da morte foi arquivado mesmo.

O sucessor do Dinho no PAF (escondemos o seu nome para maior cuidado) e todas as famílias do assentamento florestal também foram ameaçados a início de 2012. O novo líder do local teve que acabar fugindo do mesmo, após sérias ameaças e três intentos de assassinato, atribuídos ao madereiro e pistoleiro Luiz Vicente Machado, irmão do suposto assassino de Adelino Ramos. Ele foi acusado de estar extraindo ilegalmente madeira do PAF Curuqueté (que agora o governo quer converter em Flona, floresta nacional) e do Parque Nacional de Mapinguari (nas proximidades, conhecido pelos madeireiros de Vista Alegre do Abuná como "a fazenda da Dilma").

Dinhana Nink, foi assassinada o dia 31/3/12 
por denunciar madereiros. Foto Racismo Ambiental 
Somente em 2012 em Rondônia morreram por causa do tráfico de madeira duas pessoas na Ponta de Abuná: A primeira foi Dinhana Nink, assassinada na frente do seu filho de cinco anos , em 31 de março, em Nova Califórnia (Porto Velho). O motivo for ter saído em defesa de Nilcilene, uma liderança amiga dela, ameaçada e perseguida no PA Gedeão (município de Lábrea, sul do estado de Amazonas). Nilcilene, ameaçada de morte, teve que sair do local em maio de 2012, após ficar sem proteção da escorta da secretaria de direitos humanos.

Diante dos fatos da região, Amnistia Internacional lançou uma campanha sobre sobre as violações aos direitos humanos na região do Sul de Amazonas em abril do ano passado.

Apesar disso em 26/8/12 o indígena kaxarari João Oliveira da Silva Kaxarari foi assassinado na mesma região, por problemas relacionados com invasão de madeireiros na área indígena dele.

Na região central de Rondônia, outros indígenas suruí também sofreram ameaças de madeireiros, após um conflito interno e confrontos na comunidade indígena suruí sobre um projeto de REED e a retirada clandestina de madeira dentro da área. 


Já no vizinho estado do Acre, nossos companheiros da CPT AC estão sofrendo diversas ameaças e perseguições por ter denunciado a destruição ambiental provocada por diversos planos de manejo de extração de madeira. O local da CPT foi arrombado sete vezes em menos de um ano.

Outro local conhecido do Sul do Amazonas pela atuação clandestina dos madereiros é Santo Antônio do Matupi. No local existem mais de 30 serrarias, muitas delas migradas de Nova Mamoré e de outros municípios de Rondônia (em Vista Alegre do Abuná muitas das serrarias antes estavam em São Francisco do Guaporé). Como em Vista Alegre do Abuná, no popular "km 180, da Transmazônica" um esquema de olheiros anuncia desde a balsa que cruza os veículos no Rio Madeira, da chegada das fiscalizações do Ibama. Uma rede de radioamadores comunica as incidências e avisa de visitas indesejadas ou suspeitas. No local os madereiros dizeram serem "obrigados" pelos indígenas tenharim a comprar madeira de dentro da reserva indígena. As operações de fiscalização podem ser de alto risco para os servidores públicos e até terminam em churrasco. Os problemas de ameaças e mortes por causa da madeira são comuns em boa parte da Transamazônica.
Em Buritis, protestos contra as fiscalizações de madeira. 

Em Buritis, em Rondônia em setembro de 2012, os madeireiros realizaram protesto paralizando o centro da cidade, após acusar servidores do Ibama de queimar dois tratores. Já em junho de 2011 os mesmos fecharam a cidade, após apreensão de 15 caminhões chéios de toras de madeira. Foi necessário cem agentes da Força Nacional realizar operação para resgatar os mesmos.

Como na maioria das sete mortes por motivos agrários e ambientais em Rondônia, os homicídios de Dinhana Nink e de João Oliveira da Silva Kaxarari continuam na impunidade, tanto dos autores dos fatos, como dos mandantes. Luiz Vicente Machado e outros madereiros e pistoleiros sem escrúpulos, como o conhecido "Pit Bull", (originário de Nova Mamoré e chefe dum bando em Nova Califórnia), continuam soltos.

A extração clandestina da madeira provoca o avanço indiscriminado da desforestação e é a ponta de lança do avanço da fronteira agrícola dentro da Amazônia. Extração clandestina da madeira, desmatamento e violência andam juntas, fazendo destes locais verdadeiros "morros cariocas" dominados pelo tráfico da madeira, onde não existe estado de direito nem presença efetiva do governo. A notícia da ação da Interpol alenta a esperança de que estes crimes e as extrações clandestinas de madeira da floresta amazônica comecem a ser impedidos.

Um comentário:

  1. O ser humano são demonios vivos
    Os que tira tira e tira, e não penssa no dia de amanhã!
    Isso deixa muitas pessoas tristes
    A pergunta é: Quem poderá nos defender?
    Que lei vai ser aplicada para não acabarem com as nossas matas?

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