sexta-feira, 11 de setembro de 2020

CADA GUARDIÃO QUE TOMBA DEIXA PARA NÓS A RESPONSABILIDADE DE SEGUIR COM SUA LUTA.

Rieli Franciscato, defensor dos indígenas, deu a vida pelo povo que defendia, um dos grupos humanos mais vulneráveis do planeta, os indígenas isolados da Amazônia.

Foto: Roberto Ossak

No último dia 09 de setembro de 2020, um grupo de cinco indígenas, conhecidos como indígenas isolados do Rio Cautário, foi avistado no pasto de uma família que reside na Linha 06 km 20 zona rural do município de Seringueiras (RO). O fato provocou um contato, que ocorreu de forma inadequada, afugentando os indígenas. 

No mesmo dia, horas mais tarde, Rieli Franciscato, o responsável pelo trabalho de proteção aos indígenas isolados da região, procurou averiguar o que estava acontecendo. Ao adentrar na reserva indígena na busca por vestígios, recebeu uma flechada em seu peito, foi socorrido pelos policiais que estavam presentes, mas, infelizmente, não resistiu ao ferimento. 

Em muitas expedições realizadas no interior da reserva, Rieli nunca havia sido atacado, respeitando e sendo respeitado a todo tempo pelos moradores da Terra Indígena. Este sertanista empenhado na causa indígena, mesmo diante ao cenário imposto pelo discurso neoliberalista de uma necropolítica imposta pelo atual governo brasileiro, na medida em que povos indígenas e tantos outros são negligenciados, procurava realizar seu trabalho, muitas vezes sozinho, e buscar o apoio de organizações sociais com a intenção de dar visibilidade e fortalecer a resistência dos povos originários.  

Há indícios de quê por necessidade ou por terem sofrido algum ataque, os indígenas isolados tem procurado intercâmbio pacífico e de trocas com os moradores que circulam a Terra Indígena Uru Eu Wau Wau  na região de Seringueiras/RO. 

Acredita-se que os indígenas que apareceram na Linha 13 de Seringueiras (ocorrido em data anterior ao da linha 06), nas proximidades da área Uru Eu Wau Wau, estavam se aventurando a sair de suas florestas por estarem passando dificuldades, uma vez que expedições ao interior da área já comprovaram a falta de caça e pesca em áreas situadas após a Serra da Porta, no interior da Terra Indígena.

Por isso, Rieli junto a demais servidores da Funai, buscavam orientar os moradores da região à não enfrentar os indígenas, e, caso necessário, procurassem entrar em contato com a Funai ou com a polícia em caso de novos contatos.

Ao longo da BR 429, dezenas de sitiantes moram nas proximidades da Reserva Indígena Uru Eu Wau Wau. Neste momento é necessário não se deixar levar pelo pânico. Além de tomar todas precauções cabíveis, para que predomine a cautela e o respeito. Evitando dessa maneira, contatos inadequados, que podem gerar consequências drásticas como no caso da morte deste servidor púbico de tanto prestígio.

 O QUE SÃO OS INDÍGENAS ISOLADOS?

São considerados como “povos isolados” aqueles grupos indígenas com ausência de contato com a sociedade nacional envolvente. Eles se deslocaram para os lugares mais inacessíveis da Amazônia para fugir da violência das frentes de colonização e para manter a sua liberdade, tendo direito à vida e a seus territórios,  cabendo a nós respeitar à opção que fizeram de afastamento.

Estes povos livres das florestas evitam o contato há anos, como medida de proteção contra os ataques de invasores e contra o contagio de doenças novas, das quais não tem imunidade nem remédios, epidemias que desde a época da colonização têm sido a principal causa de mortes, dizimando os indígenas do continente americano.

A recente Lei 14.021/20, especificamente para os povos indígenas isolados ou de contato recente com a cultura brasileira, determina que somente em caso de risco iminente e em caráter excepcional será permitido qualquer tipo de aproximação para fins de prevenção e combate à pandemia de COVID19.

Dessa maneira, aconselha-se  a manterem-se distantes, evitando tanto confrontos como o grave perigo de contágio, não apenas do Coronavírus, mas de doenças que para eles podem ser fatais, como simples gripes e outras doenças infecciosas.

Neste momento de dor, queremos nos solidarizar com a família e amigos de Rieli, com todos os indigenistas que se mantém fiéis no seu compromisso de proteção aos povos indígenas em um momento em que observamos o avanço e a precarização das  condições de trabalho que reflete o desmonte Funai. Almejamos que a dedicação desse servidor público inspire gerações no cuidados com os povos originários.

Da mesma forma nos solidarizamos com os povos isolados ou livres, ainda que eles não saibam definir inimigos e protetores, como Rieli, seremos defensores do direito desses povos de viver de forma livre, sem contato, ou que esse contato aconteça de modo tranquilo e com o devido acompanhamento para evitar que o genocídio desses povos persista, seja pela ausência de consciência dos não indígenas, que por vezes mataram, envenenaram, escravizaram esses povos, seja pelas mãos de jagunços e grileiros que cobiçam seus territórios, seja por um contato mal conduzido que leva a contaminação por doenças.

Diante do exposto elencamos que diversas organizações sociais, como o Conselho Indigenista Missionário - Cimi, a Arquidiocese de Porto Velho, Centro de Trabalho Indigenista,  Universidade Federal de Rondônia e Fundação Nacional do Índio vem se manifestando com a intenção de prestar homenagens ao trabalho e vida de Rieli Franciscato. Além disso, afirmando a imprescindibilidade do respeito aos povos livres que escolheram o não contato como forma de sobrevivência e resistência ao modelo colonizador, que na maioria das vezes, não respeita a cultura e o direito sobre seus territórios.

Nos unimos aos pedidos de prudência a população regional, para que diante de um novo contato evite atos que possam assustar os indígenas, chamem as autoridades. São nossos irmãos indígenas, lembremos da passagem Bíblica onde Deus indaga Caim sobre Abel: Onde está o teu irmão? E nós o que responderemos? Esperamos que como sociedade possamos ir na contramão das ações desse governo e dizer: vivem livres em seus territórios demarcados, com seus direitos respeitados!

Entre as inúmeras manifestações de solidariedade e homenagens, compartilhamos juntamente a mensagem do Bispo Dom Benedito Araújo, da Diocese de Guajará-Mirim:



     Fonte: CPT-RO

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