quarta-feira, 3 de junho de 2020

Pentecostes: romper o torpor que paralisa


No vasto campo do sagrado, e em particular nas páginas bíblicas, o Espírito de Deus manifesta-se normalmente através do silêncio, do sopro ou da brisa suave e da luz. Por que então Lucas (At 2,1-4), no Livro dos Atos dos Apóstolos, ao descrever o Pentecostes – a vinda do Espírito Santo – fala de “grande barulho” (e não silêncio), “forte ventania” (e não sopro ou brisa suave) e “línguas de fogo” (e não luz)?
A verdade é que, em outros escritos neotestamentários, lê-se que os discípulos “estavam com as portas fechadas por medo das autoridades dos judeus” (Jo 20, 19). Nada neutraliza de forma tão eficaz, nada paralisa tanto como o medo! De resto, é também o medo que obriga outros dois discípulos a fugir de Jerusalém para Emaús (Lc 24, 13-35). Esclarecedor, neste episódio, é o eloquente contraste entre a ida e a volta. Na ida, ambos seguem cabisbaixos, tristes, olhos no chão, fugitivos pela impotência diante dos fatos trágicos que tinham presenciado junto à capital. O projeto do Reino dos Céus, anunciado pelo Messias, havia fracassado de forma definitiva. O próprio Jesus de Nazaré fora condenado à morte, supliciado numa cruz, o pior dos fins para os malfeitores e desordeiros. Se o Mestre terminara dessa forma, o que não poderia ocorrer com seus seguidores? Melhor escapar para Emaús.
O trajeto do retorno é o mesmo, mas bem diversos são os sentimentos e emoções experimentam os dois discípulos. A experiência toma uma direção completamente oposta. “Não ardia o nosso coração enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras” – comentam entre si (v. 32)! Os passos lentos e pesados são substituídos pela pressa em contar o que viram. A tristeza cede lugar à alegria e um novo ardor toma conta de ambos. O medo foi superado e varrido pelo entusiasmo. Os pés e a alma como que ganham asas para percorrer o percurso inverso de Emaús a Jerusalém. Tomando emprestado a linguagem do Documento de Aparecida, é fácil concluir que o encontro na casa e à mesa com o Ressuscitado converte “dois discípulos medrosos em dois missionários ardorosos”.
A esta altura, convém voltar às expressões de Lucas para designar a forma do Espírito Santo: “grande barulho, forte ventania, línguas de fogo”. Uma vez mais, por quê? Porque tornava-se necessário sacudir e combater o medo, o isolamento e o torpor daquele pequeno grupo de discípulos. A crise inesperada da cruz pesava improvisamente sobre todos e sobre cada um. Tinham sido avisados, é bem verdade, mas não haviam compreendido. Neutralizados pelo temor das autoridades, fecharam-se sobre si mesmos. Encontravam-se de joelhos, vencidos, frágeis, paralisados. Como sacudi-los e acordá-los dessa letargia, levantando-lhes a cabeça e fazendo-os retomar a vida diária? Melhor ainda, como fazê-los vencer a apatia efêmera, no sentido de que fazia-se necessário dar continuidade à obra do Mestre? O barulho, o vento e o fogo adquirem aqui uma simbologia forte e marcante, que convida a abrir as portas, chama às ruas e envia ao caminho da prática evangelizadora.
O grande desafio está em converter aquele pequeno núcleo de discípulos no embrião da Igreja incipiente. Não custa repetir que os símbolos do barulho, do vento e do fogo caracterizam uma maneira de despertar o potencial oculto daquele grupo de amigos íntimos, os quais haviam sido escolhidos pelo próprio Jesus. Despertar e pô-los em marcha, retomando os caminhos e os horizontes que o Mestre havia descortinado. Movê-los era mover a energia oculta da Igreja nascente. Transfigurar a graça de Deus em força viva e ativa na construção do Reino. Também aqui, a tarefa do Espírito é convertê-los de “discípulos medrosos em missionários ardorosos”, apóstolos das primeiras comunidades cristãs. E estas, então, começam a se multiplicar. A partir do Oriente Médio, expandem-se para a Ásia, a África e a Europa. Nesse processo de expansão, acompanha-as a última frase do Evangelho de Mateus: “Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Palavras de conforto em tempos de pandemia!
Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do SPM – Rio de janeiro, 2 de junho de 2020

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