terça-feira, 17 de março de 2020

INTERCÂMBIO DAS MULHERES TRADICIONAIS DO VALE DO GUAPORÉ- NOSSOS SABERES COMPARTILHADOS!


No dia 07 de março de 2020, a Comunidade Quilombola de Santa Fé recebeu mulheres de comunidades tradicionais de todo o Vale do Guaporé, trazendo consigo a ancestralidade, materializada nos artesanatos, nos cantos, danças e na partilha das experiências do uso das ervas medicinais.
Participaram do intercâmbio de mulheres, representantes dos quilombos de Jesus (São Miguel do Guaporé), Forte Príncipe da Beira (Costa Marques), Santa Fé (Costa Marques), Indígenas Puruborá (Seringueiras), Cujubim (Seringueiras), com a memória viva de Tereza de Benguela e todas as mulheres negras e indígenas.
As partilhas iniciaram fazendo memória ao 8 de março, dia de luta das mulheres, e com as colocações sobre os desafios da luta das mulheres nos territórios tradicionais. Com a certeza inspiradora de Dona Mafalda, que “Se todas se unirem e derem as mãos, não fica pesado pra ninguém e conseguem conquistar...”
A denúncia do projeto de morte foi elemento do encontro, onde se sugere que para que as mudanças aconteçam, o atual presidente, os deputados que representam a 429 precisariam ser substituídos por pessoas que realmente tem coragem de lutar pelos pequenos. Outras ressaltam que tirariam o avanço da soja e do agronegócio, pois certamente levará para os territórios o aumento de incidência de doenças. Berenice destaca que “tudo que estamos conversando nos faz refletir que há muitas situações que somos nós que temos que mudar, temos que olhar os nossos representantes e nos unir e dizer: não queremos que continue do jeito que está”.
As Comunidades presentes fizeram apresentação dos artesanatos expostos sendo: Bonecas quilombolas, Bio jóias com tucum, escamas do peixe pirarucu, tapetes, brincos de penas, peneiras, cestos, pinturas em telas, crochê, artesanatos com fibra de bananeira, desenhos pirografados e outros. Onde as mulheres foram resgatando o histórico de cada arte que foram apresentadas – visando colocar no artesanato um pouco da essência, fortalecimento e resgate cultural. Hosana Puruborá – resgata um pouco do artesanato na vida da sua comunidade, onde até o ano 2001 a sua identidade era escondida, e inspirada em sua mãe in memória a senhora Emilia Puruborá, teve a iniciativa de assumir a identidade. E quando assumiram a identidade, logo a mãe veio adoecer e a mesma com a oportunidade de cuidar mãe aprendeu com esta a confecção dos artesanatos tradicionais de seu povo.
 As joias feita da escama de peixe foi iniciada com finalidade de aproveitar aquilo que estava sendo desperdiçado. As bonecas são 
fruto do aproveitamento das garrafas, tapetes são feitos a partir de reaproveitamento de roupas usadas, e assim as mulheres vão construindo sua autonomia.



 
























































Na troca de experiências, a certeza de que a produção de artesanatos das mulheres dessas diversas comunidades, é carregada de história de lutas e de ancestralidade, o que sustenta os povos, os territórios, com potencial de se tornar também, fonte de renda e autonomia. 


Na poesia das mulheres quilombolas do Forte Príncipe da Beira, a força que vem das mulheres e da afirmação do seu espaço e identidade:


Mulher quilombola
A minha história vou contar, porque esta Comunidade é meu lar.
Sou mulher Quilombola, herdeira de Ana Moreira que com seu povo ajudou a construir a nação brasileira;
Sou herdeira de Suzana Maria Joaquina moradora do Forte que em busca do ouro do Guaporé;
Sou herdeira da índia Helena Maria que comandava batalhões até mesmo a pé;
Sou herdeira da crioula Maria Eugênia de Jesus que apesar de todas dor não se curvava ao seu senhor.
Sou mulher Quilombola sim senhor!

Na minha comunidade sou mulher de produção e não quero perder a tradição.
Sou mulher de comemorar o festejo do Espírito Santo e Imaculada Conceição.
Sou mulher curiosa, e de tudo faço um pouco, pão de forma, até cocada do coco;
Dos artesanatos de troncos até chás medicinais.
Sou mulher Quilombola sim senhor!

Somos chamadas de teimosa, chamadas de resistências. Sou dona de casa, sou funcionária publica, sou pescadora e mulher de pescador, zelador até professor.
Não me pergunte porque não deixo minha Comunidade; sou mulher e quero e vou manter minha identidade.
Sou mulher quilombola sim senhor!





Texto : Rosiane Chicuta 
Liliana Won Ancken dos Santos
Agentes de Pastoral CPT-RO




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