sábado, 8 de julho de 2017

Terra e Sangue em Rondônia: até quando?


Ademir de Souza Pereira, de 44 anos, uma das lideranças do Acampamento Terra Nossa, ocupação da “Fazenda Tucumã”, em Cujubim, foi assassinado a tiros nesta quinta feira, 06 de julho de 2017, em Porto Velho. A vítima estava sentada em uma cadeira, em um Lava jato, quando um veículo ocupado por duas pessoas chegou ao local. Um dos ocupantes desceu do veículo já atirando em direção a Ademir, que atingido caiu, falecendo no local. Os assassinos fugiram e quando a equipe de Atendimento Móvel chegou ao local, Ademir já estava morto. A principal suspeita é que o crime ocorreu por motivos de conflito agrário. Ainda pela manhã deste mesmo dia, a esposa da vítima procurou  a Comissão Pastoral da Terra  pedindo ajuda para ela e seu esposo, pois estavam ameaçados de mortes. Antes mesmos de serem encaminhados para o programa de proteção, Ademir foi covardemente assassinado. Fomos informados na tarde de sábado que durante o velório de Ademir, sua esposa recebeu ameaça, um papel com desenho de cinco cruzes e cinco boneco, no caso, uma ameaça pra ela e outros membros da família. 

Acampamento Terra Nossa (Fazenda Tucumã): uma história de violência e morte

Um dos casos de violência no campo mais emblemáticos, em Rondônia diz respeito ao Acampamento Terra Nossa (Fazenda Tucumã), município de Cujubim. Em 31/01/2016, um grupo de sem terras, ao tentarem retirar alguns pertences do acampamento, de onde haviam sido reintegrados, foram encurralados por um grupo armado, comandado então pelo Sargento da reserva, Moises Ferreira de Souza. Desta ação resultou no assassinato de dois sem-terras, Alysson Henrique Lopes de 22 anos, encontrado carbonizado dentro de um veículo e Ruan Hildebran Aguiar, até hoje o seu corpo não foi encontrado. Neste ano, da mesma área, outros 03 sem terras foram assassinados: Roberto Santos Araújo, 34 anos (01/02/2017), Elivelton Castelo Nascimento (15/02/2017) e Renato Souza Benevides (04/03/2017), todos testemunhas dos homicídios e outras violências cometidos no caso da “Fazenda Tucumã”.

Em 19 de abril de 2017, no município de Colniza, na área conhecida como Gleba Taquaruçu do Norte, sob a chefia do Sargento da Reserva Moisés Ferreira de Souza, 09 camponeses foram cruelmente assassinados. A ligação do ocorrido entre o massacre de Colniza com os assassinatos em Cujubim é evidente para a Polícia, uma vez que, os atos de violência da milícia armada que protegia a Fazenda Tucumã, em Cujubim, ocorreram sob o comando do Sargento da Reserva. Presos em flagrante, em 03/02/2016, portando inclusive metralhadoras e armas utilizadas pelo exército, Moisés e outros três suspeitos conseguiram escapar de dentro da viatura policial.

Conforme informações veiculadas na imprensa (12/06/2017), o Sargento Moisés, conhecido como “Moisés da COE”, se entregou à Polícia em Ariquemes em final de maio deste ano, e será levado à julgamento no próximo mês, juntamente com Paulo Iwakami (o japonês), pretenso dono da fazenda Tucumã, Sérgio Sussumu Suganuma, Presidente de Associação Rural de Rondônia. Em relação aos homicídios, conforme investigações, outros 03 policiais militares estão envolvidos. Todos teriam sido denunciados por homicídios consumados e tentados, além de crime sob promessa de pagamento e ocultação de cadáver.

Vão à Júri

Portanto, no bojo da ação penal nº 0000770-42.2016.8.22.0002, serão levados a Júri, na data de 15/08/2017, Sérgio Sussumu Suganuma e Paulo Iwakami (o japonês) serão julgados sob acusação dos homicídios contra as vítimas Alysson Henrique de Sá Lopes e Ruan Lucas Hildebrandt de Aguiar; já Rivaldo de Souza (Neguinho), Moisés Ferreira de Souza (Sargento Moisés) e Jonas Augusto dos Santos Silva (Augusto) serão julgados por dois homicídios consumados (Alysson e Ruan) e três tentativas de homicídio contra vítimas do mesmo acampamento.

Eliminação de testemunhas

O emblemático caso da “Fazenda Tucumã”, chama a atenção, não só pela violência demonstrada como também evidencia a ação de milícia privada, fortemente armada, com vínculos claros com o latifúndio, a grilagem e membros da polícia militar. Denota, igualmente, no andamento das investigações, mesmo com mandados de prisão e prisão de suspeitos, a continuidade da ação da milícia. Tanto é verdade que houve uma verdadeira eliminação de testemunhas, no andamento da questão, uma vez que três camponeses haviam feito denúncias das milícias armadas com participação dos militares e estavam os 03 arrolados como testemunhas de acusação, foram mortos. Outra testemunha, Veronilson Cabral, em 15/05/2017, teve sua casa invadida e foi vítima de agressões e torturas. Com o detalhe que também Veronilson havia feito denúncias da participação de militares no crime de pistolagem na região. Outra testemunha está sobre proteção, em programa institucional. Este caso enfim, retrata uma triste realidade que reclama atuação enérgica e célere por parte de quem de direito.

Uma disputa no tribunal
A sessão do Júri, do dia 15/08/2017, enfim, anuncia uma verdadeira batalha, onde políticos e ex-políticos, gente do setor da Associação de Produtores de Rondônia, empresários e até o Superintendente substituto do Incra/RO foram arrolados como testemunhas de defesa dos pronunciados, contra vítimas, agricultores e sem-terras, entre outros, foram convidados como testemunhas de acusação por parte do Ministério Público. Além da violência estampada, sob forma de assassinatos, perseguição, tortura, tentativas de assassinato e ocultação de cadáveres, o que está em jogo, e que precisa ser combatida é a ação de grupos e milícias armadas, envolvendo pistolagem contratada e paga, agravada pela participação de agentes públicos da ativa e da reserva da própria Polícia Militar do Estado de Rondônia.

Trata-se, pois, não só de uma violência orquestrada e implementada pelo consórcio grilagem-pistolagem, como claramente, uma flagrante demonstração de até onde o latifúndio e a grilagem de terras pode ir, no caso de Rondônia. Estado, aliás, que no ano de 2016 contabilizou 21 assassinatos no campo, o Estado com o maior número de assassinatos de camponeses no Brasil. Neste ano, até agora, já 15 casos de assassinatos, ligados à questão agrária, o que chama à reflexão ao mesmo tempo que denuncia a impunidade e a inoperância dos órgãos institucionais.
Exigimos a imediata segurança para a esposa de Ademir e todos seus familiares!


Comissão Pastoral da Terra-RO

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