quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Dom Moacyr Grechi: A Família e a prática da justiça!

Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 490 - Edição de domingo – 20/09/2015




A Família e a prática da justiça!

Importantes acontecimentos marcam a vida da Igreja de setembro a dezembro: a viagem do papa Francisco a Cuba e aos Estados Unidos com destaque ao 8º Encontro Mundial das Famílias (22-27/09) e a visita à sede da ONU em seu septuagésimo aniversário; o Sínodo sobre a Família (04-25/10) que envolve as dioceses de todos os países em sua preparação; a visita do papa à África (novembro); a abertura do Jubileu da Misericórdia (8/12).

O Encontro Mundial das Famílias, que acontece na Filadélfia com a presença do papa Francisco tem como tema: “O amor é a nossa missão: a família plenamente viva”, em sintonia com o tema do próximo Sínodo: “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”.

O documento de trabalho (Instrumentum Laboris) para o Sínodo da Família, que foi apresentado em junho deste ano, contempla a nova consulta a todas as dioceses na sequência da assembleia de 2014; sublinha a importância das famílias na sociedade e na Igreja, com uma abordagem de “misericórdia” pelas que vivem maiores dificuldades; retoma as preocupações com divorciados, natalidade e defesa da vida. Na Introdução, o documento destaca “a fidelidade generosa com a qual tantas famílias cristãs respondem à sua vocação e missão”, apesar dos “obstáculos, incompreensões e sofrimentos”.

Não obstante os numerosos sinais de crise da instituição familiar nos vários contextos da aldeia global, o desejo de família permanece vivo, de forma especial entre os jovens, motivando a Igreja a anunciar com profunda convicção o Evangelho da família, que lhe foi confiado mediante a revelação do amor de Deus em Jesus Cristo e ensinado pelos Mestres da espiritualidade e pelo Magistério da Igreja. Para a Igreja, a família, é missionária e deve novamente se descobrir como protagonista da evangelização.

O Sínodo, assim como o Encontro Mundial da Família, quer anunciar o valor e a beleza da família; expressar seu significado de sociedade natural fundada sobre o matrimônio, abençoada pelo Senhor no sacramento nupcial; preciosa como “escola de humanidade” (GS 52), de sociabilidade, de experiência eclesial e de vida de fé. Para Dom Bruno Forte, secretario especial do Sínodo, o documento de trabalho afirma um princípio que, para o cristão, deveria ser óbvio e basilar: o respeito a cada pessoa e o compromisso da Igreja para oferecer acompanhamento a todos, em vista da maior integração possível, na verdade e com caridade.

Ao pedir orações pelo bom êxito do sínodo, papa Francisco invoca do Espírito Santo, o dom da escuta aos padres sinodais: escuta de Deus, até ouvir com Ele o grito do povo; escuta do povo, até respirar nele a vontade de Deus que nos chama.

A liturgia de hoje fala da “sabedoria de Deus”, atitude daqueles que assumiram as propostas de Deus e se deixam conduzir por elas; mostra o conflito aberto entre a prática da justiça e a injustiça que se tornou norma regedora das relações sociais. Quem escolhe a “sabedoria de Deus”, não tem uma vida fácil (Sb 2,12.17-20); é perseguido, caluniado, desacreditado.

Mas quem são estes perseguidores injustos? São caracterizados pelo próprio texto com base em suas ações: eles oprimem o justo empobrecido; não poupam a viúva nem respeitam o velho; agem com prepotência; manipulam a Lei, pela força e violência; impõem a injustiça como norma. O justo rompe com eles, e, para sua defesa, chama em causa o próprio Deus (VP).

A eliminação de pessoas que lutam pela justiça levanta uma questão importante: onde Deus se posiciona em meio a esse conflito? O tema do justo perseguido e conduzido à morte é ponto de partida para entendermos o evangelho deste domingo: “O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará” (Mc 9,30-37).

O caminho de Cristo e de seus seguidores não é um caminho de glória, êxito e poder; é o contrário: conduz à crucifixão e à rejeição, apesar de que terminará em ressurreição. Enquanto Jesus fala de entrega e da cruz, seus discípulos falam de suas ambições: Quem será o mais importante do grupo? Quem ocupará o posto mais elevado? No entanto, para seguir seus passos, precisamos aprender duas atitudes fundamentais: “Se alguém quer ser o primeiro, deverá ser o último, e ser aquele que serve a todos”. No grupo (comunidade) de Jesus ninguém está acima dos outros, mas deve ser como Ele: “servidor de todos”.

Compreendemos a segunda atitude quando Jesus coloca uma criança no centro do grupo e diz: “Quem receber em meu nome uma destas crianças, estará recebendo a mim; e quem me receber, não estará recebendo a mim, mas àquele que me enviou”. Uma Igreja que acolhe os pequenos e indefesos está ensinando a acolher a Deus. Uma Igreja que olha para os grandes e se associa com os poderosos da terra está pervertendo a Boa Nova de Deus anunciada por Jesus (A.Pagola).

O apostolo Tiago nos conduz pelo caminho da sabedoria qualificando-a como pura, pacífica, indulgente, conciliadora, cheia de misericórdia e bons frutos, sem parcialidade, sem fingimento (Tg 3,16–4,3). Portanto, sábia é a pessoa autêntica e leal, que promove a paz e a justiça, é misericordiosa, procura conciliar, é imparcial e transparente (VP).

Estamos nos preparando para o Ano Santo dedicado à misericórdia, convocado pelo Papa Francisco de 8 de dezembro de 2015 a 26 de novembro de 2016, no qual “somos chamados a viver de misericórdia, porque conosco, em primeiro lugar, foi usada a misericórdia”.

Ser justo e misericordioso hoje significa estar atento aos outros, aos seus sofrimentos, as suas feridas e necessidades. Ter olhos abertos e não fazer parte da globalização da indiferença.

A justiça é o mínimo da misericórdia, é o mínimo daquilo a que somos obrigados a dar aos outros, porque é o seu direito, mesmo que às vezes não sejamos nem isso. A misericórdia pressupõe essa justiça e vai além, como o bom samaritano. E isso muda o mundo. A justiça é o pressuposto da misericórdia, mas a misericórdia vai muito além, como fundamenta o papa Francisco na BulaMisericordiae Vultus:

Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de destruí-la. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra, deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão.

Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça. Devemos prestar muita atenção àquilo que escreve Paulo, para não cair no mesmo erro que o apóstolo censurava nos judeus seus contemporâneos: “Por não terem reconhecido a justiça que vem de Deus e terem procurado estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus; é que o fim da Lei é Cristo, para que, deste modo, a justiça seja concedida a todo o que tem fé” (Rm 10,3-4).

Esta justiça de Deus é a misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.

Para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida.

Ao povo cubano, o papa disse: venho até vocês “como missionário da misericórdia e da ternura de Deus”. Venho “visita-los para compartilhar a fé e a esperança, para que nos fortaleçamos mutuamente no caminho de Jesus”.

Nesta semana abençoada e na alegria do Evangelho, vivamos a experiência solidária das pequenas comunidades cristãs, na certeza de que não estamos sozinhos quando enfrentamos todo tipo de dificuldades e de que não é vã a nossa luta. “A vida no Corpo de Cristo é destinada para ser vivida como membros interdependentes, que constroem uns aos outros no amor”, pois juntos podemos ser misericordiosos, curar e viver de tal forma que poderia parecer impossível. A palavra de Deus, os ensinamentos, os sacramentos e a comunidade eclesial existem para ajudar nossa caminhada.

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