segunda-feira, 27 de julho de 2015

A 30 anos do martírio do Pe. Ezequiel, a violência no campo continua em Rondônia.

Testemunhas mostram o local da emboscada onde morreu Ezequiel. Foto: zezinho/cpt 

Ontem (25/7/15) e hoje (26/7/15) em Cacoal (RO) e vizinho município de Rondolândia (MT) numerosos romeiros e devoto pediram a beatificação do Padre Ezequiel Ramin, missionário comboniano assassinado o dia 24 de Julho de 1985 pela sua mediação num conflito agrário da região. No local onde foi assassinado foi celebrada uma concorrida missa, presidida pelo Bispo Diocesano de Ji Paraná. Dom Bruno Pedron, e pelos responsáveis no Brasil dos Missionários Combonianos, congregação à qual pertencia o Padre Ezequiel. Um numeroso grupo de sua região natal de Pádua, Itália, estava presente, junto com o irmão do mártir, Antônio Ramin, que participaram na bênção de um cruzeiro e capela comemorativa.
Trinta anos depois do martírio do Padre Ezequiel a violência do campo continua acirrada em Rondônia. Na própria Rondolândia, já dentro do Mato Grosso, a maioria dos pequenos agricultores são posseiros sem título de terra e a prefeita da cidade tem recebido ameaças por causa da defesa dos mesmos, sem que INCRA e Terra Legal consigam regulariza a situação.
Capela e cruzeiro levantados pela comunidade
no local do martírio. 
Foto zezinho/cpt 
Em outros lugares de Rondônia é situação ainda é pior. Mais de dez mortes já tem sido registradas este ano de camponeses, lideranças e pessoas envolvidas em conflitos no campo. Em Rondônia já dobrou o número de assassinatos registrados o ano passado (5) em apenas sete meses.
Em contexto mundial de crise financeira e exploração de recursos naturais a qualquer custo, não é somente a Criação que estamos degradando, pois a disputa pela Amazônia está levando junto com a destruição da natureza, a perda de muitas vidas humanas. 

Foi em Machadinho do Oeste, onde Fábio Carlos da Silva Teixeira, sem terra do Acampamento Fortaleza, foi assassinado a pauladas o dia 12 de Abril de 2015. Em Machadinho será justamente o local onde será realizada o próximo dia 23 de Agosto a 10ª Romaria da Terra e das Águas de Rondônia, organizada pela Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, de Machadinho, pela Arquidiocese de Porto Velho, a Diocese de Ji Paraná, a Diocese de Guajará Mirim, o Sínodo da Amazônia da Igreja Luterana no Brasil (IECLB), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Projeto Padre Ezequiel e o Conselho Indigenista Missionário. 
Em Machadinho mais de 550 famílias da comunidade ribeirinha de Tabajara podem ser expulsos de suas terras pela construção da Usina de Tabajara, atingindo também seringueiros, indígenas isolados, os povos tenharim, os gavião e os arara, no Rio Machado. 
A 10ª Romaria da Terra e das Águas têm como tema: "Terra, floresta e água dádivas de Deus para viver e conviver" e como lema: "Somos testemunhas (At.3) de um novo céu e uma nova terra (Ap. 21)", e propõe uma reflexão sobre o uso e partilha dos dons da nossa Amazônia abençoada pela Criação: A terra, as águas e a riqueza de vida das florestas, dádivas que Deus criou para todos, um desafio para cuidar e administrar conforme a vontade divina de fraternidade, com a missão de colaboradores de sua obra e construindo o "novo céu e a nova terra" que Cristo inaugurou no meio de nós. 
Uma missão que nos confronta com a violência, que de novo é a principal protagonista da luta pela terra e a reforma agrária na grande região de Ariquemes e no entorno do Vale do Jamari, (Buritis, Monte Negro, Campo Novo, Cujubim, Distrito Rio Pardo, e Machadinho do Oeste). A maioria das mortes do campo de 2015 (9) e dois intentos de homicídio por conflito agrário tem acontecido lá. Preocupa especialmente a espiral crescente de mortes enfrentado sem terra e jagunços ao mando dos latifundiários, com denúncias (reiteradas e não esclarecidas) de envolvimento de policiais em milícias armadas e pistolagem. 
Camisa ensanguentada, relíquia do martírio 
do missionário comboniano. Foto zezinho/cpt 

Uma guerra aberta, onde unicamente os camponeses são presos e criminalizados. Somente para isso parece ter servido deixar um contingente da Força Nacional em Ariquemes, nem a justiça agrária federal despejar a todo custo qualquer ocupação de terra, pretendendo assim acabar com os conflitos; nem as reclamações da Ouvidoria Agrária Nacional pedindo proteção aos ameaçados junto ao Governo do Estado.
Com acampamentos a beira da estrada e conflitos sem por resolver por décadas, quase nenhum novo assentamento sendo criado. E com o desemprego aumentando, a cada dia mais empobrecidos das periferias das cidades olham de novo para o campo como uma alternativa de sobrevivência e ocupam terras abandonadas, reivindicando a função social da propriedade e a reforma agrária.
Aliás uma função social constitucional que, de fato, parecem negar todos os juízes que decidem sobre a questão agrária em Rondônia, sendo que alguns acreditam que para acabar os conflitos devem ser despejados todos os sem terra, posseiros e qualquer ocupação de terras, (inclusive de terras públicas e de assentamentos de reforma agrária, como está acontecendo). Decisões que somente radicalizam a demanda de terra dos desempregados e empobrecidos, pois, como dizia o Mártir Ezequiel Ramin: “Só com Justiça na terra haverá Vida e Paz”. 


Assassinatos do campo em Rondônia de janeiro a julho de 2015:


1º - JOSÉ ANTÕNIO DÓRIA DOS SANTOS, 27 DE JANEIRO DE 2015 EM CAMPO NOVO RO. José Antônio Dória dos Santos, conhecido como Zé Minhenga, de 49 anos, foi morto a tiros durante a noite da terça-feira 27 de janeiro de 2015 no Distrito Rio Branco, situado entre Campo Novo e Buritis. Após ter liderado uma ocupação de terra, fazia mais de ano que tinha desistido do Acampamento 10 de Maio, na Fazenda Formosa em Alto Paraíso. O crime pode ser uma retaliação pelo Acampamento, após despejo, ter reocupado novamente a fazenda e a denúncia que PMs de Buritis realizavam segurança particular no local.[i]

2ª - ALTAMIRO LOPES FERREIRA, 47 ANOS, COSTA MARQUES RO. Camponês sem terra, tinha sido despejado fazia poucas semanas junto com outras famílias do Acampamento Nova Esperança, numa área pública conhecida como Área do Badra, próxima a cidade de Costa Marques. Denunciou a agentes da CPT ter sofrido ameaças e desapareceu o dia 04 de março. O corpo dele foi achado em avançado estado de decomposição o dia 13 de março de 2015, com os dentes quebrados, quase de joelhos no chão e pendurado com as próprias calças. Apesar disso a morte foi considerada suicídio, fato contestado pela família.[ii]

3º - FÁBIO CARLOS DA SILVA TEIXEIRA, 12 ABRIL DE 2015, EM MACHADINHO DO OESTE. Sem terra pertencente ao Acampamento Fortaleza, que ocupava uma área de concentração fundiária do Assentamento Santa Maria II em Machadinho do Oeste. Em ambiente de grande tensão e ameaças aos acampados por um grupo de fazendeiros da região, que concentraram terras de reforma agrária, o acampado foi achado morto a pauladas na estrada no dia 12 de abril de 2015, na linha SME-15, vila Brinati.[iii]

4º , 5º e 6º - PAULO JUSTINO PEREIRA , 01 DE MAIO DE 2015, E MAIS DOIS COMPANHEIROS: ODILON BARBOSA DO NASCIMENTO E JANDER BORGES FARIAS, DA “ASSOCIAÇÃO VLADIMIR LENIN”, NO DISTRITO RIO PARDO, PORTO VELHO. Envolvidos no conflito da Flona Bom Futuro, (local onde morreu um policial da Força nacional o ano passado) após criar a Associação Vladimir Lenin, Paulo Justino “Caracará” cobrava o reassentamento dos despejados da área ambiental, defendendo o seu retorno dentro da reserva. Foi assassinado em frente a Escola Municipal do Distrito de Rio Pardo, o dia 01 de maio, um dia depois de ter participado em Porto Velho de audiência pública da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo. Dias antes do assassinato de PAULO JUSTINO PEREIRA também foram assassinados ODILON BARBOSA do NASCIMENTO, no dia 10/04/2015 e o topógrafo JANDER BORGES FARIAS, no dia 17/04/2015, sendo este último amigo de Paulo Justino, que também fazia parte da Diretoria da Associação Vladimir Lênin. Paulo Justino considerava que a origem de todo o conflito da Flona Bom Futuro vinha do fato da área abrigar uma grande jazida de cassiterita e nióbio. [iv]

7º e 8º - DOIS MORTOS NA FAZENDA FORMOSA, 11 MAIO DE 2015 EM ALTO PARAÍSO/MONTE NEGRO: Ainda não identificados nas informações divulgadas, apareceram dois assassinados nas proximidades do Acampamento 10 de Maio, ocupação da Fazenda Formosa. Segundo fontes da LCP não eram camponeses do acampamento. As duas mortes tem clara relação com a violência no campo na região: “Trata-se de um homem moreno que apresentava vários ferimentos na cabeça e escoriações pelo corpo, além de estar com os pés amarrados com fio elétrico em uma motocicleta da marca Honda, modelo CG de cor azul. O segundo corpo aparentava ser de um jovem de pele clara que também apresentava escoriações pelo corpo, além de ferimentos na cabeça. Pela forma dos ferimentos aparentemente os corpos foram arrastados por veículo, de tal forma que a pele foi desgastada pelo contato ao solo, sugerindo que as vítimas tenham sido torturadas até a morte” (Fonte: Ariquemes 190).[v]

9º / CLOVES DE SOUZA PALMA, 42 ANOS, DIA 01 DE JULHO DE 2015, EM COJUBIM RO. Sem terra conhecido popularmente como "Neguinho", foi morto com cinco tiros de arma de fogo tipo revólver. O mesmo era camponês de uma ocupação da Linha C 114 .[vi]

10º / DELSON MOTA, CAPIXAVA, EM BURITIS RO, 15 DE JULHO DE 2015. Foi executado por tiros no início da manhã da quarta-feira, 15 deste mês de julho de 2015. Os mesmos dias que a CPT nacional realizava o seu IV Congresso Nacional em Porto Velho, RO. O crime aconteceu no centro da cidade de Buritis, por volta das 06h30. Capixaba era considerado um dos líderes dos sem terra na região. [vii]

Ainda, houve a morte do contador Dagoberto Moreira, assassinado em 06 de janeiro de 2015 em Vilhena, que teve a morte divulgada por conflito de terras. Dele mesmo tinha sido denunciado o envolvimento em esquema de corrupção, sobre financiamentos de tanques de peixe. Dois pedreiros foram mortos, após homens armados invadir sua casa a finais de 2014, ficando fugido deste então. Há rumores que nem seria dele o cadáver achado.[viii]

Registramos 02 intentos de assassinato:

JANEIRO DE 2015 : ELIZEU BERÇÁCOLA, geógrafo. Atiraram nele em janeiro em pleno dia na rua, em Machadinho do Oeste. Continua ameaçado por denunciar com os seringueiros extração clandestina de madeira de áreas extrativistas.

02 MAIO DE 2015 - Foi baleado sem-terra do Assentamento Nova Esperança, localizado na linha LC 110 de Cojubim, ALEXANDRE BATISTA DE SOUZA, 21 anos.

Josep Iborra Plans, Agente da Articulação da Amazônia da CPT Nacional.
Porto Velho, 26/07/2015.



Testemunho de Adílio de Souza, presidente do sindicato de Cacoal, acompanhava o Pe. Ezequiel. foto zezinho / cpt
Missa em 26/7/15 na mata enfrente a antiga Fazenda Catuva, local do martírio do comboniano Ezequiel Ramin.
Foto zezinho / cpt






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