sábado, 3 de janeiro de 2015

2015: participação e construção do bem comum!

"Na sequencia da Festa da Epifania, vamos nos preparar para a Campanha da Fraternidade que engloba duas dimensões: qual Igreja e qual sociedade queremos? Uma Igreja a serviço da sociedade desejada pelo próprio Cristo: justa, fraterna, solidária, com vida digna e em abundância para todos".

Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 453 - Edição de Domingo – 04/01/2014

2015: participação e construção do bem comum!

Iniciamos um novo ano guiados pela luz de Cristo. A Festa da Epifania eleva nosso espírito e expressa a “vocação dos povos de todas as nações”.
Somos chamados a descobrir “que a vinda de Deus no mundo é destinada a cada um” de nós para que nossa alma e personalidade alcancem o “topo de uma expansão de consciência, de uma capacidade de vida nova e de esperança do destino inefável, que é precisamente a Redenção de Cristo” (Paulo VI).
Estamos celebramos a manifestação de Deus ao mundo, representado pelos reis magos que vieram adorar o menino Jesus em Belém. Aquela foi precisamente a primeira manifestação de Cristo aos povos. Por isso a Epifania evidencia a abertura universal da salvação trazida por Jesus que veio para todos nós, para todos os povos. “Verbo de Deus feito carne, Caminho, Verdade e Vida dos homens e mulheres aos quais abre um destino de plena justiça e felicidade” (DAp 6).
Os Magos foram orientados pela Estrela-guia, que segundo São Gregório Magno exemplifica o chamado da fé, que precisa sempre ser confirmada pela Palavra de Deus. Estrela-guia que nos faz perceber a “força misteriosa que está presente no curso dos acontecimentos” e penetra nossas vidas dando um novo sentido a nossa caminhada.
A jornada dos Magos do Oriente simboliza o destino de cada homem: a nossa vida é um caminhar, guiado pelas luzes que iluminam a estrada, para encontrar a plenitude da verdade e do amor, que nós, cristãos, reconhecemos em Jesus, Luz do mundo.
Para o papa Francisco, esta festa tem um duplo movimento: o movimento de Deus rumo ao mundo, à humanidade, a toda a história da salvação, que culmina em Jesus, e, de outro lado, o movimento dos homens em direção a Deus: pensemos nas religiões, na busca da verdade, no caminho dos povos rumo à paz, à paz interior, à justiça e à liberdade.
Este dúplice movimento é suscitado por uma atração recíproca. Da parte de Deus, o que o atrai? É o amor por nós: somos seus filhos, Ele nos ama e quer libertar-nos do mal, das doenças, da morte, e levar-nos para a sua casa, para o seu reino. E existe também da nossa parte um amor, um desejo: somos atraídos pelo bem, pela verdade, pela vida, felicidade, beleza. Jesus é o ponto de encontro desta atração recíproca, e deste movimento duplo.
Mas quem toma a iniciativa? Sempre Deus! O amor de Deus vem sempre antes do nosso! Ele toma sempre a iniciativa. Ele espera-nos, convida-nos, a iniciativa é sempre sua. Jesus é Deus que se fez homem, se encarnou, nasceu para nós. A estrela nova que apareceu aos magos era o sinal do nascimento de Cristo. Se não tivessem visto a estrela, aqueles homens não teriam partido.
A luz e a verdade nos precedem. O profeta Isaías dizia que Deus é como a flor da amendoeira. Porquê? Porque naquela terra a amendoeira é a primeira árvore que floresce. E Deus precede, procura-nos sempre primeiro, Ele dá o primeiro passo. Deus precede-nos sempre. A sua graça precede-nos e esta graça surgiu em Jesus. Ele é a epifania. Ele, Jesus Cristo, é a manifestação do amor de Deus. Está conosco.
A Igreja inteira está dentro deste movimento de Deus para com o mundo: a sua alegria é o Evangelho, é refletir a luz de Cristo. A Igreja é o povo de quantos experimentaram esta atração e a trazem dentro de si, no coração e na vida.
Em 2015 queremos responder ao “desafio de revitalizar nosso modo de ser e nossas opções pessoais pelo Senhor, para que a fé cristã se estabeleça mais profundamente no coração das pessoas e dos povos como acontecimento fundante e encontro vivificante com Cristo, manifestado como novidade de vida e de missão de todas as dimensões da existência pessoal e social (DAp 13).
A construção do bem comum desafia, especialmente, os políticos eleitos. A campanha eleitoral deste ano ratificou o processo democrático brasileiro; com a Igreja, reafirmamos a importância de sua participação na vida Política, tão importante quanto necessária para ajudar na construção de uma sociedade justa e fraterna, pois “uma fé autêntica, que nunca é cômoda nem individualista, comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela” (EG 183; Mensagem CNBB “Brasil pós-eleições: compromissos e desafios”).
A liturgia evidencia a chegada da luz salvadora de Javé, que transfigura Jerusalém e atrai à cidade de Deus povos de todo o mundo (Is 60,1-6). “Ergue-te e sê iluminada”! Este é o apelo de Deus a Jerusalém. Esta é a vocação e a missão do Povo de Deus no mundo.
Paulo Apóstolo define o projeto salvador de Deus como uma realidade que vai atingir toda a humanidade, numa mesma comunidade de irmãos, a comunidade de Jesus (Ef 3,2-3a.5-6).
No Evangelho de Mateus, Jesus é o Messias universal. A profecia acontece e a promessa seconcretiza. Astrólogos do Oriente veem brilhar sobre Belém, a cidade de Davi, a estrela do recém-nascido Messias, “rei dos judeus” (Mt 2,1-12). Querem adorá-lo e oferecer-lhe seus ricos presentes. Herodes, entretanto, com os doutores e os sacerdotes, não enxerga a estrela que brilha tão perto; é obcecado por seu próprio brilho e sede de poder (VP).
Os “magos” do oriente são os representantes de todos os povos da terra que vão ao encontro de Jesus. Atentos aos sinais da chegada do Messias procuram-no com esperança até encontra-lo, reconhecem nele a “salvação de Deus” e aceitam-no como “o Senhor”. A salvação rejeitada pelos habitantes de Jerusalém torna-se agora um dom que Deus oferece a todos, sem exceção.
“Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo” (EG 176). Na sequencia da Festa da Epifania, vamos nos preparar para a Campanha da Fraternidade que engloba duas dimensões: qual Igreja e qual sociedade queremos? Uma Igreja a serviço da sociedade desejada pelo próprio Cristo: justa, fraterna, solidária, com vida digna e em abundância para todos.

Em sintonia com as comemorações do jubileu do Concílio Vaticano II, com base nas reflexões propostas pela Constituição Dogmática Lumen Gentium e pela Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que tratam da missão da Igreja no mundo, a CF 2015 traz como tema “Fraternidade: Igreja e sociedade” e lema “Eu vim para servir” (Mc 10,45).

À luz do Evangelho, vamos aprofundar o diálogo e a colaboração entre a Igreja e a sociedade, propostos pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, como serviço ao povo brasileiro, para a edificação do Reino de Deus. Fazer memória do caminho percorrido pela Igreja com a sociedade, identificar e compreender os principais desafios da situação atual. Apresentar os valores espirituais do Reino de Deus e da doutrina Social da Igreja, como elementos autenticamente humanizantes. Identificar as questões desafiadoras na evangelização da sociedade e estabelecer parâmetros e indicadores para a ação pastoral.

Aprofundar a compreensão da dignidade da pessoa, da integridade da criação, da cultura da paz, do espírito e do diálogo inter-religioso e intercultural, para superar as relações desumanas e violentas. Buscar novos métodos, atitudes e linguagens na missão da Igreja de Cristo de levar a Boa Nova a cada pessoa, família e sociedade. Atuar profeticamente, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para o desenvolvimento integral da pessoa e na construção de uma sociedade justa e solidária.

No final da década de 1980, a Igreja acompanhou e participou ativamente do processo de redemocratização do Brasil. Os movimentos pela abertura política, entre eles o da Anistia e “Diretas Já”, encontraram na Igreja um abrigo seguro para sua articulação. No processo constituinte, a Igreja atuou com empenho visando a consolidação de estruturas democráticas na sociedade brasileira. No final do séc. XX e início do XXI, a participação social e política da Igreja na sociedade brasileira prosseguiu por meio de diversos organismos e pastorais.

Contudo, não obstante os desafios, a Igreja, animada pelo Espírito de Jesus, se revigora nas inúmeras comunidades eclesiais e nos trabalhos imprescindíveis que presta ao povo brasileiro. A visita do Papa Francisco ao Brasil, por ocasião da JMJ, em 2013, na cidade do Rio, foi um momento de grande participação popular, manifestação de fé e revigoramento para a Igreja, em sua missão e participação ativa no serviço à sociedade.

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