sábado, 19 de julho de 2014

CEBs: fonte inspiradora para um novo modelo de vida!

"O testemunho das comunidades e agricultores em defesa dos recursos naturais e integração da agroecologia à própria realidade expressa um modelo alternativo de desenvolvimento e novas formas de solidariedade (...)

 Porto Velho vai sediar de 7 a 11 de junho de 2015 o IV Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra, que será um momento participativo onde os principais protagonistas serão os agricultores". 



Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 429 - Edição de Domingo – 20/07/2014

CEBs: fonte inspiradora para um novo modelo de vida!

Ao receber o convite para participar da V FEPAM - Feira dos Produtos da Área Missionária gostaria de estendê-lo a todas as famílias de nossa cidade e de outros municípios, pela relevância do testemunho de economia solidária e compromisso social das CEBs do Alto Madeira: Jaci Paraná, União Bandeirantes, Nova Mutum Paraná, Abunã e Vista Alegre do Abunã.

Em tempos de crise ecológica, quando a Amazônia vai se transformando de celeiro a grande canteiro e se constata que o domínio de um sistema único de mercado desestrutura as relações tradicionais, o testemunho das comunidades e agricultores em defesa dos recursos naturais e integração da agroecologia à própria realidade expressa um modelo alternativo de desenvolvimento e novas formas de solidariedade

A V FEPAM, vai acontecer no próximo final de semana, dia 26, das 7 às 18h e dia 27, a partir das 7h, encerrando com almoço, no pátio da Paróquia São João Bosco (Av. Brasília, 3512). Tem por objetivo a articulação de diferentes iniciativas, atividades culturais, venda de produtos da terra, artigos religiosos, produções caseiras como doces, queijos, artesanatos e outros itens produzidos pelas comunidades. Visa ainda o intercâmbio cultural entre as comunidades da área rural e da cidade, a melhoria da renda familiar e, sobretudo, contribuir com as atividades missionárias da região.

Na Amazônia, as comunidades de cada região deveriam ter as condições necessárias para produzir seus próprios alimentos e políticas públicas que favoreçam a agricultura, priorizando a produção de alimentos, direito de todo ser humano e caminho para a soberania alimentar.

Dessa forma, as Comunidades do Alto Madeira tornam-se “fonte inspiradora para um novo modelo de vida” e demonstram que têm algo a dizer: “a proteção à terra e da natureza, o direito dos pequenos, a justiça sem corrupção, a preservação das culturas, a superação da idolatria do capital, a partilha sensata das conquistas da humanidade, a vida como valor fundamental, tudo isso deve ser vivido em todo lugar, porque se trata de exigências básicas do projeto de Deus para o mundo” (TB/CF/2007).

A Igreja, através do documento 101 da CNBB “Igreja e questão agrária no inicio do século XXI”, aprovado na última assembleia dos bispos e cuja leitura recomendo, assume, em seus compromissos, todas as causas dos povos da terra, das águas e da floresta, e elas têm em comum a luta pelo reconhecimento do seu direito aos territórios em que vivem, produzem alimentos saudáveis para si e para as demais pessoas; e questiona e condena o desejo desenfreado dos que estão até propondo mudanças na Constituição para tomar as terras dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e pescadores.

Insiste, que, sem a definição de limite à propriedade de terra, sem o fim da grilagem, sem o repasse das terras em que houve práticas de trabalho escravo e cultivo de drogas para os Sem Terra, enfim, sem uma Reforma Agrária que mexa com as estruturas da propriedade da terra, o Brasil não avançará na direção de ser uma sociedade assentada sobre a justiça, o direito, a igualdade e a paz (Ivo Poletto).

Porto Velho vai sediar de 7 a 11 de junho de 2015 o IV Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra, que será um momento participativo onde os principais protagonistas serão os agricultores. O grito da terra chega através do clamor dos pequenos agricultores que se sentem, muitas vezes, abandonados e empobrecidos: saúde precária, difícil acesso à educação, falta de estradas e transportes para a comercialização de seus produtos, a pressão do agronegócio que resulta no êxodo rural. De outro lado, percebemos muitas formas de resistência contra a exploração que pesa sobre os agricultores familiares.

Os congressos realizados pela Comissão Pastoral da Terra possuem um caráter celebrativo. Neles são definidos os grandes eixos de ação da entidade. O I Congresso aconteceu em 2001, na cidade de Bom Jesus da Lapa, BA. Nele a CPT definiu três eixos de ação: Terra, Água e Direitos Humanos. O II Congresso (2005) foi na cidade de Goiás, Goiás. Montes Claros, MG acolheu em 2010 o III Congresso nacional da CPT, tendo como tema os diversos biomas naturais, marcando a diversidade da agricultura e do campo.

Porto Velho realizou em 2009 o 12o Intereclesial das CEBs e, a partir desse acontecimento, a escolha da Amazônia para a realização do próximo Congresso e da capital de Rondônia para sediar o evento, por ser a encruzilhada de caminhos da Amazônia Oriental, sede do Regional Noroeste da CNBB, e estar localizada entre o estado de Amazonas, Acre e Norte do Mato Grosso. 

Os enormes desafios apresentados nos relatos e testemunhos do 1º Encontro da Igreja católica na Amazônia Legal (28-31/10/2013) nos interpelam a assumir compromissos pastorais que devem nortear a caminhada de nossa Igreja no presente e no futuro e nos levam a reafirmar nossa identidade de ser Igreja “servidora e defensora da vida, irmã da criação”.

O papa Francisco, que está escrevendo a nova encíclica sobre a criação e o meio ambiente, afirmou: “quando não cuidamos da Criação e dos irmãos, então encontra espaço a destruição e o coração torna-se árido”.

Suas palavras são iluminadoras na Exortação Evangelii Gaudium: O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento econômico, requer decisões, programas, mecanismos e processos orientados para uma melhor distribuição das entradas, para a criação de oportunidades de trabalho, para uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo.

A economia deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro. Se realmente queremos alcançar uma economia global saudável, precisamos, neste momento da história, de um modo mais eficiente de interação que, sem prejuízo da soberania das nações, assegure o bem-estar econômico a todos os países e não apenas a alguns. E qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclusão de todos, correrá também o risco da sua dissolução, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos(EG 204-208).
O papa Francisco vai participar da II Conferência Internacional sobre Nutrição (19-21/11). O evento está sendo organizado em conjunto pela FAO e a Organização Mundial de Saúde. Para o diretor geral da FAO, José Graziano, a presença do papa significa “seu compromisso com o futuro que começa por garantir a segurança alimentar e a nutrição de todas as pessoas”.

A liturgia da semana passada foi um convite à esperança (Mt 13,1-23). A semeadura do Evangelho, muitas vezes inútil por diversas contrariedades e oposições, tem uma força que ninguém pode conter (Pagola). Apesar de todos os obstáculos e dificuldades, e ainda com resultados muito diversos, a semeadura acaba em colheita fecunda que faz esquecer outros fracassos.

É o diálogo do homem com a sua terra que faz florescer e a torna para todos nós fecunda (papa Francisco aos trabalhadores de Molise).

A liturgia de hoje continua falando-nos do crescimento da fé e que este é um tempo de confiança, paciência e esperança (Mt 13,24-43). São três novas comparações que aprofundam o Reino de Deus e seu mistério. Apesar de ter nascido na contradição (parábola do trigo e do joio) e na pobreza (parábola do grão de mostarda e do fermento na massa), o Reino de Deus cresce contra todas as provabilidades.

Neste mês, queremos fazer memória de nossos mártires assassinados como Jesus, pela Causa do Reino, da Terra, da Floresta: Pe. Josimo, Dom Romero, João Bosco Burnier, Santos Dias, Irmã Cleusa, Chico Mendes, João Eduardo, Wilson Pinheiro (21/07), Ivair Higino (irmão de Pe. Geraldo, reitor do Seminário), Edson Dutra, Adelino Ramos, Rubens Santiago, Zé Claudio e Maria do Espírito Santo, Ir. Dorothy Stang que disse dias antes de morrer: “não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”. E Pe. Ezequiel Ramim, assassinado em Cacoal, no dia 24 de julho de 1985, que ofereceu sua vida pelos agricultores e índios: “A vocês pertence a minha vida e a vocês também pertencerá a minha morte”.

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