domingo, 6 de julho de 2014

Família, fonte de capital social!

A análise do documento sobre as “situações críticas na família” aponta para a violência e o abuso, a desagregação e fragmentação, a dependências dos meios de comunicação e das redes sociais que monopolizam o tempo das relações familiares, as pressões exercidas pelos horários e ritmo de trabalho, os fenômenos migratórios, a pobreza, o consumismo (IL 64-79).

Crianças de agricultores brincando em Costa Marques. foto zezinho/cptro


Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 427 - Edição de Domingo – 06/07/2014


“Os desafios pastorais da família no contexto da evangelização” é o tema da 3ª Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos que será realizada no Vaticano, de 5 a 19 de outubro de 2014.

O anúncio do Evangelho da família constitui parte integrante da missão da Igreja, porque a revelação de Deus ilumina a realidade da relação entre o homem e a mulher, do seu amor e da fecundidade do seu relacionamento. A crise cultural, social e espiritual constitui hoje um desafio para a evangelização da família, núcleo vital da sociedade e da comunidade eclesial (IL premissa).

Considerando que a família constitui um recurso inesgotável e uma fonte de vida para a pastoral da Igreja e que sua tarefa primária é o anúncio da beleza da vocação para o amor, grande potencial também para a sociedade, a Assembleia do Sínodo de outubro é chamada a meditar sobre o caminho a seguir, para comunicar a todos os homens a verdade do amor conjugal e da família, enfrentando os seus múltiplos desafios (EG 66).

O resultado da pesquisa promovida pelo Documento Preparatório, que incluía um questionário com 39 perguntas enviado a todas as dioceses do mundo, foi apresentado no dia 26 de junho, em forma de Instrumento de Trabalho (Instrumentum Laboris) e entregue aos membros da Assembleia Sinodal.

O documento será estudado e avaliado pelas Conferências Episcopais, visando suscitar questões pastorais a serem debatidas e aprofundadas durante a Assembleia Extraordinária; em seguida, na próxima Assembleia ordinária de 2015 (4-25/10) com o tema “Jesus Cristo revela o mistério e a vocação da família”.

O instrumento de trabalho apresenta a realidade da situação familiar, desafios e reflexões e ainda, a forma de anunciar o Evangelho e os ensinamentos da Igreja nos novos contextos. Com mais de 45 páginas, está estruturado em três partes e retoma, em conformidade com uma ordem funcional, à Assembleia sinodal e os oito temas propostos no questionário.

A 1ª parte do Intrumentum Laboris: “Comunicar o Evangelho da família hoje”, trata do desígnio de Deus, do conhecimento bíblico, documentos do Magistério e a sua recepção, da lei natural e da vocação da pessoa em Cristo.

A 2ª parte “A Pastoral da Família face aos novos desafios” aborda os desafios relacionados à família, as várias propostas de pastoral familiar, os desafios e as situações mais difíceis.

A 3ª parte “A abertura à vida e a responsabilidade educativa” trata da responsabilidade educacional dos pais e da acolhida e abertura à vida que caracterizam o matrimônio, com referência às situações pastorais atuais.

O documento insiste sobre “o risco de esquecer que a família é a célula básica da sociedade, o espaço onde se aprende a conviver na diferença e a pertencer aos outros” (EG 66).

Daí a necessidade de “propor uma visão aberta da família, fonte de capital social, o que significa, de virtudes essenciais para a vida comum” (IL 33).

Na família aprende-se o que é o bem comum, porque nela se pode fazer a experiência da bondade de viver juntos. Sem família o homem não pode sair do seu individualismo, pois só nela se aprende a força do amor para apoiar a vida, e “sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar” (LF 51).

O documento evidencia “a importância do amor vivido em família, definida como o sinal eficaz da existência do Amor de Deus, santuário do amor e da vida”. Assinala a percepção equivocada e moralista daqueles que consideram o ideal da família como uma meta inatingível e frustrante, em vez de ser considerado como uma indicação de um caminho possível, por meio do qual aprender a viver a própria vocação e missão. E insiste no “valor formativo do amor vivido em família, não só para os filhos, mas para todos os seus membros”. A primeira experiência de amor e de relação é feita em família. É necessário que “cada criança viva no calor e nas atenções protetoras dos pais, numa casa na qual reina a paz”.

A família é definida ainda como “escola de amor, de comunhão e de relações”, o lugar privilegiado no qual se aprende a construir relações significativas, que ajudem o desenvolvimento da pessoa até à capacidade da doação de si. O conhecimento do mistério e da vocação da pessoa humana está ligado com o reconhecimento e o acolhimento no seio da família dos diferentes dons e capacidades de cada um. Sobressai aqui a ideia da família como primeira escola de humanidade: nisto ela é considerada insubstituível (IL 37-38).

A análise do documento sobre as “situações críticas na família” aponta para a violência e o abuso, a desagregação e fragmentação, a dependências dos meios de comunicação e das redes sociais que monopolizam o tempo das relações familiares, as pressões exercidas pelos horários e ritmo de trabalho, os fenômenos migratórios, a pobreza, o consumismo (IL 64-79).

Um dos grandes problemas é acolher e acompanhar as pessoas que vivem em situações familiares difíceis ou irregulares. O 3º capítulo ocupa-se desse tema salientando que “a Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai; a casa paterna na qual há lugar para todos” (EG 47).

A verdadeira urgência pastoral é a de permitir que estas pessoas curem as feridas, sarem e retomem o caminho juntamente com toda a comunidade eclesial. A misericórdia de Deus não provê a cobertura temporária do nosso mal, mas abre radicalmente a vida à reconciliação, conferindo-lhe renovada confiança e serenidade, mediante uma verdadeira renovação. A pastoral familiar, longe de se fechar num olhar legalista, tem a missão de recordar a grande vocação ao amor ao qual a pessoa está chamada e de ajudá-la a viver à altura da sua dignidade (IL 80).

Quanto às convivências, o documento indica, entre as razões que levam os jovens a viver juntos sem se casar, “políticas familiares inadequadas para sustentar a família; problemas financeiros; o desemprego juvenil; a falta de moradia”. Além disso, indica que é fundamental ajudar os jovens a sair de uma “visão romântica de amor, percebido apenas como um sentimento intenso para o outro, e não como uma resposta pessoal a outra pessoa, no âmbito de um projeto de vida comum, no qual se abre um grande mistério e uma grande promessa”.

No tocante às situações de “irregularidade canônica”, o “Instrumentum Laboris” reconhece que é bastante “alto o número daqueles que consideram sem preocupação sua situação irregular” e, portanto, não pedem para serem admitidos à eucaristia nem à reconciliação. Mas também há um sofrimento profundo por parte de muitos que se sentem marginalizados e frustrados por não poder fazer a comunhão devido a uma situação familiar particular. É preciso notar que foram as Conferências Episcopais que pediram para exercer “misericórdia, clemência e indulgência mais amplas em relação às novas uniões”. Com grande misericórdia, a Igreja é chamada a encontrar formas de companhia com as quais apoiar estes seus filhos num percurso de reconciliação (IL 89-109).

Para Dom Raymundo Damasceno, presidente da CNBB e que estará na presidência da assembleia sinodal, é importante que todas as coordenações da Pastoral Familiar leiam o Instrumento de Trabalho que traz pistas para a reflexão sobre como a Nova Evangelização está chegando à família.

A boa notícia da família é uma parte deveras importante da evangelização, afirma o papa Francisco aos membros do Pontifício Conselho para a Família, que os cristãos podem comunicar a todos, com o testemunho da própria vida; e já o fazem, e isto é evidente na sociedade: as famílias verdadeiramente cristãs reconhecem-se pela fidelidade, paciência, abertura à vida, respeito pelos idosos. O segredo de tudo isto é a presença de Jesus na família.

Aproximemo-nos com atenção e carinho das famílias em dificuldade, daquelas que são obrigadas a deixar a sua terra, que vivem fragmentadas, que não têm casa nem trabalho, ou que por tantos motivos vivem no sofrimento; dos casais em crise e daqueles que se separaram. Desejamos estar próximos de todos, mediante o anúncio do Evangelho da família e da beleza da família.

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