Lições da Copa, da Ficha Limpa, das eleições!
Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 425 - Edição de Domingo – 22/06/2014
Das lições desta semana destacamos a experiência trinitária que nos recordou “que somos criados à imagem desta comunhão divina, pela qual não podemos realizar-nos nem salvar-nos sozinhos” ; é “a partir do coração do Evangelho” que aprendemos a reconhecer “a conexão que existe entre evangelização e promoção humana” (EG 178).
A segunda lição vem da força da comunhão com Cristo (Corpus Christi) e da alegria da missão. “A Palavra de Deus ensina-nos que no irmão está o prolongamento permanente da Encarnação para cada um de nós: “sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes” (Mt 25,40; EG 179). O serviço à vida por parte dos cristãos consiste em partir o pão e lutar por condições dignas para todos. Para Dom Luciano, vai além. Temos que oferecer aos outros o que temos de melhor: o conhecimento de Jesus Cristo e os valores do seu Reino. É preciso, como prova de amor fraterno, manifestar a cada pessoa a própria dignidade à luz da filiação divina. Todos têm o direito de saber que são amados e perdoados por Deus, pois Jesus deu a vida por todos.

Dessa forma, a nossa participação na Campanha mundial “Uma família humana, pão e justiça para todas as pessoas” continua, pois “é jogando em favor da vida e da dignidade de cada ser humano que devemos continuar nossa missão na certeza de que a alegria dos estádios nos anime a continuar a luta para a transformação social e desta forma, fazer com que todos os brasileiros vistam a mesma camisa rumo a um único objetivo: um país mais justo, igualitário e plural”. (continua)
Celebramos hoje o Dia Nacional do Migrante e refletimos a lição: “migrar é um direito”. O tráfico de pessoas é um crime contra a humanidade. Atendendo ao apelo do papa Francisco, precisamos “unir as forças para libertar as vítimas e deter este crime, cada vez mais agressivo, que ameaça não só as pessoas individualmente e os valores basilares da sociedade, mas também a segurança e a justiça internacionais e a economia, o tecido familiar e a própria convivência social”.
A Lei da Ficha Limpa está completando quatro anos. O Ministério Público contabilizou 233 mil políticos barrados pela Lei da Ficha Limpa para as eleições de 2014. A lista atinge quase 205 mil nomes somente no judiciário e 14 mil no legislativo. São pessoas com problemas que podem impedi-las de concorrerem a cargos eletivos neste próximo pleito (MCCE).
A campanha Ficha Limpa, iniciada em abril de 2008 pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral do qual faz parte a CNBB, tinha por finalidade melhorar o perfil dos candidatos a cargos eletivos no Brasil. Dessa forma, um projeto de iniciativa popular para criação de uma lei sobre a vida pregressa dos candidatos foi elaborado a fim de tornar os critérios de inelegibilidades mais rígidos, ou seja, de quem não pode se candidatar.
Menos de um ano e meio depois do início da campanha, o MCCE entregou ao presidente da Câmara dos Deputados, no dia 29 de setembro de 2009, o Projeto de Lei de iniciativa popular, junto com mais de 1 milhão e 300 mil assinaturas presenciais o que corresponde à participação de 1% do eleitorado brasileiro. O projeto de lei (PL) foi sancionado pelo presidente da república no dia 04 de junho de 2010 e passou a vigorar a partir da publicação no Diário Oficial da União (07/06).
A Lei da Ficha Limpa versa sobre a vida pregressa dos candidatos aumentando as situações que impedem o registro de candidaturas: pessoas condenadas por um colegiado em virtude de crimes graves como racismo, homicídio, estupro, tráfico de drogas e desvio de verbas públicas. Essas pessoas podem ser os registros de candidaturas negados, no entanto podem pedir uma liminar suspendendo a inelegibilidade, para disputar as eleições. Neste caso, o processo a que responde será julgado com prioridade pelo tribunal responsável. A lei inclui também parlamentares que renunciaram ao cargo para evitar abertura de processo por quebra de decoro ou por desrespeito à Constituição e fugir de possíveis punições. E o período que impede a candidatura passou a ser de oito anos.
Para a pesquisadora Mônica Caggiano da Coordenação de Pós-Graduação em Direito da Universidade de São Paulo, a Ficha Limpa é um produto do corpo eleitoral se formando no século XXI, no exercício da cidadania, com a grande vantagem de atender à expectativa de participação no processo eleitoral. Segundo ela, a Lei trouxe um novo paradigma na relação entre os parlamentares e o eleitor, porque a lei surgiu de uma iniciativa popular.
A cada ano de eleições gerais, como é o caso deste ano, a Igreja, através da CNBB divulga um caderno de orientações para eleições. A elaboração de pequenas cartilhas, visando orientar os eleitores católicos sobre a responsabilidade do voto tem sido uma prática já por alguns anos aqui em nosso país. Trata-se de um exercício que vai ajudando o povo na formação da consciência cidadã e desenvolvendo junto ao povo católico o hábito do debate sobre os destinos de nossos municípios, estados e país. Lembramos que a formação da consciência política dos fiéis leigos não fica restrita somente a períodos eleitorais. No dia a dia das comunidades se realizam debates, palestras, fóruns com a participação de especialistas e lideranças sobre temas e realidades da vida sociopolítica, econômica, jurídica e cultural. Destacam-se, pela importância de sua missão a Comissão Justiça e Paz, as Pastorais Sociais, CEBs, Organismos como CIMI e CPT, Grupos e Escolas de Fé e Política, em nível nacional, regional e diocesano.
Ressaltamos por sua contribuição, a cartilha “Eleições 2014”, cuja temática é “Seu voto tem consequências: um novo mundo, uma nova sociedade”, elaborada pela equipe de Fé e Politica da CNBB.
A mensagem “Pensando o Brasil: desafios diante das eleições 2014” também se encontra disponível nas livrarias católicas e em algumas paróquias. O texto, aprovado durante a 52ª Assembleia dos Bispos, contém orientações sobre o período eleitoral, no qual os brasileiros escolherão representantes para os cargos de presidente da República, governador, senador e deputados estaduais, distritais e federais.
Visando o voto consciente, o texto trata dos desafios da realidade sociopolítica, da participação dos cristãos na política, do desenvolvimento econômico e da sustentabilidade social. Reforça a urgência da Reforma Política, iniciativa da CNBB e da Ordem dos Advogados do Brasil que deu origem à Coalizão Democrática pela Reforma Política e Eleições Limpas, apoiada por quase cem entidades e por 170 parlamentares. O projeto buscar efetivar a democracia participativa, por meio de melhor representação e evitar a desigualdade na disputa eleitoral, que acontece atualmente por conta do financiamento de campanhas por empresas.
As lições dessa semana, o testemunho de João Batista e a liturgia indicam que o Reino em solidariedade com Cristo significa hoje empenho pela justiça e pela defesa da vida (Mt 10,26-33).
A reflexão do Cardeal Martini sintoniza-nos com a Solenidade do Coração de Jesus, padroeiro da Catedral, cuja festa vamos celebrar na 6ª feira: “Essa devoção ajuda-nos a contemplar o que é essencial na vida cristã, ou seja, a caridade. Um grande mérito desse devoção foi, portanto, ter chamado a atenção para a centralidade do amor de Deus como chave da história da salvação”.
Em nossa caminhada, recordemos o que dizia Santo Inácio sobre o amor de Jesus: “um amor que se manifesta mais nas obras do que nas palavras”.
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