sexta-feira, 13 de junho de 2014

Globalização da indiferença e cultura da solidariedade!

Vida digna para todos os migrantes é o que quer a Pastoral do Migrante convocando-nos para participar da 29ª Semana Nacional do Migrante (15-22/6) que tem por tema “Migração e Liberdade” e o lema: “Migrar é Direito; Tráfico Humano é Crime”, ambos em sintonia com a CF 2014.



Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 424 - Edição de Domingo – 15/06/2014

Globalização da indiferença e cultura da solidariedade!

O mês de junho, dedicado especialmente ao Coração de Jesus, padroeiro de nossa Catedral, vem, neste ano, carregado de forte espiritualidade e grandes celebrações: Pentecostes, Santíssima Trindade,Corpus Christi, São Pedro e São Paulo, Santo Antônio, São João, Sagrado Coração de Jesus.

Celebramos hoje a Solenidade da Santíssima Trindade e o inicio daSemana Nacional do Migrante. Através de nosso batismo, fomos mergulhados na Trindade, que fez de nós sua morada: “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. É contemplando esse mistério central de nossa fé que experimentamos a comunhão de vida com Deus Trino e Uno e assumimos a missão de construir comunhão, colaborando para que a Igreja seja cada vez mais sacramento de comunhão e participação (DAp 161), servidora e defensora da vida (doc N1).

Nossas comunidades eclesiais devem ser o referencial de pessoas em comunhão para toda a sociedade, pois a Igreja, fundada no amor divino é uma comunhão de pessoas à imagem da Trindade, vocacionada para ser casa e escola de comunhão (NMI). Assim a Igreja toda aparece como um povo unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo (LG 4). E assim oramos: Deus da vida e do amor, Pai de Jesus e Pai nosso, Santíssima Trindade, a melhor comunidade: abençoai as nossas CEBs!

Paulo Apóstolo expressa a realidade de um Deus que é comunhão e família, através da saudação trinitária: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” (2Cor 13,11-13). Esta fórmula, além de constituir uma confissão de fé no Deus trino, confirma a fé dos primeiros cristãos em Deus que é amor, família, comunidade. Ao se expressarem como membros dessa “família de Deus” reconhecem que todos fazem parte de uma única família de irmãos.

A família cristã, no Catecismo da Igreja Católica (2205), é uma comunhão de pessoas, vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sua atividade procriadora e educadora é o reflexo da obra criadora do Pai. Ela é chamada a partilhar da oração e do sacrifício de Cristo. A oração cotidiana e a leitura da Palavra de Deus fortificam nela a caridade. A família cristã é evangelizadora e missionária.

No livro do Êxodo, Deus é amor, fidelidade e misericórdia; ama seu povo, cuida dele com ternura, é Deus comunhão (Ex 34,4b-6.8-9). Através da leitura do Evangelho, João convida-nos a contemplar este Deus amor (Jo 3,16-18) que envia seu Filho único ao mundo com uma proposta de salvação. Assim resume sua grande lição de amor: “Deu a vida por nós e nós devemos dar a vida pelos irmãos”.

Nesta semana, celebrando a Santíssima Trindade e Corpus Christi e nos preparando para a Festa do Coração de Jesus, acolhemos na fé, a manifestação do amor de Deus, do Pai, do Filho e do Espírito Santo para conosco. Jesus Cristo, enviado pelo Pai na força do Espírito, derrama seu sangue por nós na cruz, abre seu coração e revela o infinito amor de Deus pela humanidade.

A participação na celebração de Corpus Christi (19/06) que acontece nas paroquias com a missa, adoração solene e tradicional procissão é a demonstração de nosso compromisso pessoal e comunitário com a vida de Cristo, entregue por amor até a morte. Celebramos na quinta-feira a festa de seu Corpo Místico, a Igreja, que Ele nutre e leva à unidade da mútua doação.

Ao dizer aos Apóstolos: “Quem come da minha carne e bebe do meu sangue vive de mim” Jesus nos introduz nos seus próprios sentimentos, valores e critérios e nos ajuda a participar de sua vida, tornando-nos seus discípulos, sempre mais semelhantes a Ele. Entrar em comunhão com Cristo na Eucaristia é deixar-se possuir pelo seu dinamismo de amor aprendendo com Ele a dar a vida pelos irmãos.

Na Eucaristia, o Deus-Trindade que em Si mesmo é amor, envolve-Se plenamente com a nossa condição humana. No pão e no vinho, sob cujas aparências Cristo Se nos dá na ceia pascal é toda a vida divina que nos alcança e se comunica a nós na forma do sacramento: Deus é comunhão perfeita de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Já na criação, o homem fora chamado a partilhar, em certa medida, o sopro vital de Deus. Mas, é em Cristo morto e ressuscitado e na efusão do Espírito Santo, dado sem medida, que nos tornamos participantes da intimidade divina.

Assim Jesus Cristo, que pelo Espírito eterno Se ofereceu a Deus como vítima sem mancha (Heb 9,14), no dom eucarístico comunica-nos a própria vida divina. Trata-se de um dom absolutamente gratuito, devido apenas às promessas de Deus cumpridas para além de toda e qualquer medida.

A Igreja acolhe, celebra e adora este dom, com fiel obediência. O mistério da fé é mistério de amor trinitário, no qual, por graça, somos chamados a participar. Por isso, também nós devemos exclamar com Santo Agostinho: “Se vês a caridade, vês a Trindade” (Sacr. Caritatis 7-8).

Seguindo a reflexão de Dom Luciano M. de Almeida, a Eucaristia está no centro da vida eclesial, de comunhão fraterna e doação ao próximo, abrindo-se à força do amor que vence todo egoísmo e nos faz buscar o bem espiritual e material do próximo. A lição da Eucaristia vale para nós que ainda não aprendemos a assumir o dever da caridade e por isso somos corresponsáveis pela fome e miséria de nossos irmãos e irmãs.

Cada celebração da Eucaristia deveria nos questionar diante de Deus e levar-nos a partir o pão com os irmãos. A força da Eucaristia deve nos impulsionar para atitudes mais abrangentes e procurar transformar a sociedade por meio de leis e políticas públicas que modifiquem o sistema de acumulação doentia de bens aumentando a riqueza de poucos e segregando cada vez mais os pobres. A Eucaristia deve unir a comunidade a serviço dos mais pobres e habilitar os cristãos a contribuir para leis e medidas que garantam vida digna para todos.

Vida digna para todos os migrantes é o que quer a Pastoral do Migrante convocando-nos para participar da 29ª Semana Nacional do Migrante (15-22/6) que tem por tema “Migração e Liberdade” e o lema: “Migrar é Direito; Tráfico Humano é Crime”, ambos em sintonia com a CF 2014.

A Programação começa com a realização do Seminário: “Migração, Tráfico Humano e Trabalho Escravo” (14/6) e na agenda constam celebrações e palestras nas paróquias e escolas. No encerramento (dia 22), a missa às 8h na Catedral e o show cultural mostrando a rica diversidade das famílias migrantes, a partir das 14h, na Pça. Aluizio Ferreira e Comidas Típicas de vários países.

Para o papa Francisco, a realidade das migrações, com as dimensões que assume na nossa época de globalização, precisa ser tratada e gerida de uma maneira nova, justa e eficaz, o que exige, acima de tudo, uma cooperação internacional e um espírito de profunda solidariedade e compaixão. É importante a colaboração em vários níveis, com a adoção unânime de instrumentos de regulamentação para proteger e promover a pessoa humana.

O bem aventurado João Batista Scalabrini, santo de visão e ação quanto aos desafios da mobilidade humana, fundador dos padres e irmãs (carlistas) que consagram suas vidas em favor dos refugiados e migrantes, já afirmava no século XIX: “para os migrantes a pátria é a terra que lhes dá o pão”. Para ele o fenômeno migratório “funde e aperfeiçoa as civilizações, amplia o conceito de pátria para além dos confins materiais, tornando o mundo a pátria do homem”.

Os migrantes e refugiados não são peões no tabuleiro de xadrez da humanidade, escreve o papa em sua mensagem para o Dia Mundial dos Migrantes 2014. Trata-se de crianças, mulheres e homens que deixam ou são forçados a abandonar suas casas por vários motivos, que compartilham o mesmo desejo legítimo de conhecer, de ter, mas, acima de tudo, de ser mais. É impressionante o número de pessoas que migram de um continente para outro, bem como aqueles que se deslocam dentro de seus próprios países e áreas geográficas. Os fluxos migratórios contemporâneos são o maior movimento de pessoas, se não de povos, de todos os tempos.

A Igreja é chamada a ser o Povo de Deus que abraça todos os povos. Do papa, uma palavra de esperança: Queridos migrantes, que possais encontrar em vossos caminhos uma mão estendida, que vos seja permitido experimentar a solidariedade fraterna e o calor da amizade!

Possa cada um de nós nesta Semana do Migrante superar a “globalização da indiferença” cultivando a acolhida e a solidariedade.

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