domingo, 23 de março de 2014

Para muitos, a água é pranto, é lágrima!

Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 412 - Edição de Domingo – 23/03/2014

Defesa Civil constroi campo de refugiado para famílias desabrigadas.


A partir da terceira semana da Quaresma, somos convidados a dar um passo a mais no seguimento de Jesus, renovando nossa consagração batismal e acolhendo as grandes catequeses batismais do Evangelho de São João e seus respectivos símbolos (Jo 4, 9, 11).
Com todas as famílias da Amazônia, principalmente as vítimas das enchentes, estamos revivendo a Via Sacra de Jesus, meditando de maneira especial, as dores, os sofrimentos e a Paixão do Senhor. Nosso povo sofrido continua carregando a sua cruz, sofrendo perdas e injustiças de todos os tipos.
Para muitos, a água é pranto, é lágrima. Cristo não salvou uma coletividade anônima, mas sim cada indivíduo, dando a vida livremente para que fossemos resgatados. Cada estação do seu caminho doloroso é um passo nosso ao encontro de seu amor.

A liturgia deste 3º domingo da Quaresma ensina-nos a superar as discriminações por causa de preconceitos de religião, de raça e de gênero (Jo 4,5-42) e convida-nos a fazer a experiência de um encontro transformador com o Senhor Jesus, que nos oferece a água da vida que sacia nossa sede e nos faz filhos e filhas de Deus, pelo batismo (VP).
E nesta travessia, segurar nas mãos de Deus é preciso, pois Ele nunca abandona o seu Povo em sua caminhada pela história. Ele está ao nosso lado, em cada passo da caminhada (Ex 17,3-7). Paulo Apóstolo convida-nos a contemplar o amor de um Deus que nunca desistiu dos homens e que sempre soube encontrar formas de vir ao nosso encontro, de caminhar conosco (Rom 5,1-2.5-8); trata-se de um amor gratuito e incondicional, que, uma vez acolhido, nos conduz à felicidade plena.
Uma vez reconciliados com Deus, é impossível não irradiar seu amor. E da irradiação e multiplicação do amor, o papa Francisco falou para 15 mil casais de noivos na Praça São Pedro, no dia 14 de fevereiro:

A família nasce deste desígnio de amor, que quer crescer como se constrói uma casa para que se torne um lugar de carinho, de ajuda, de esperança e de apoio. Do mesmo modo como o amor de Deus é estável e para sempre, assim também no caso do amor que funda a família, desejamos que ele seja estável e para sempre.
Um matrimônio não é bem sucedido unicamente quando dura, mas é importante a sua qualidade. Estar juntos e saber amar-se para sempre, eis no que consiste o desafio dos esposos cristãos. Vem ao meu pensamento o milagre da multiplicação dos pães: também para vós, o Senhor pode multiplicar o vosso amor e concedê-lo vigoroso todos os dias. Ele possui uma reserva infinita de amor! E oferece-vos o amor que está no fundamento da vossa união, enquanto o renova todos os dias, fortalecendo-o. Além disso, torna-o ainda maior quando a família cresce com os filhos.
Neste caminho é importante, é sempre necessária a oração. Ele por ela, ela por ele, e ambos juntos. Pedi a Jesus que multiplique o vosso amor. Na oração do Pai-Nosso, nós dizemos: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Os cônjuges podem aprender a rezar com estas palavras: “Senhor, o amor nosso de cada dia nos dai hoje”, porque o amor cotidiano dos esposos é o pão, o verdadeiro pão da alma, o pão que os sustenta a fim de que possam ir em frente.

O Sínodo Extraordinário sobre a Família que vai acontecer de 9 a 15 de outubro, no Vaticano, será presidido pelo cardeal Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente da CNBB. Com os arcebispos de Paris e de Manila, Dom Raymundo acompanha a preparação dos trabalhos do Sínodo que vai tratar dos desafios pastorais da família, no contexto da evangelização.
No ano passado, o papa enviou às paróquias de todo o mundo o “Documento Preparatório” desse Sínodo, com mais de 30 questões, sobre a família. As Conferências Episcopais de cada país já repassaram as contribuições ao Vaticano.
São oito conjuntos de questões sobre “os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”. Os temas vão desde a difusão dos ensinamentos da Igreja e da Bíblia sobre a família, passando pelas relações entre “lei natural e lei civil”, as conquistas da pastoral familiar, as ações tomadas “para enfrentar situações matrimoniais difíceis”, “a união de pessoas do mesmo sexo”, a educação dos filhos em “matrimônios irregulares”, a questão do planejamento familiar, a tensão entre a pessoa e a família e “outros desafios”.

As respostas serão organizadas por uma equipe vinculada à Secretaria do Sínodo dentro daqueles oito conjuntos temáticos e o relatório servirá de instrumento de trabalho para os participantes do Sínodo. O resultado deste sínodo será utilizado em 2015, no Sínodo ordinário, em forma de Proposições, não só em vista de uma Exortação pós-sinodal, mas também de alguma medida mais prática e disciplinar em relação ao matrimônio e ao planejamento familiar.

No dia 20 de fevereiro, o papa Francisco reuniu-se com os Cardeais para preparar o Sínodo da Família (Consistório). Durante a saudação disse que o Criador colocou a sua bênção sobre o homem e a mulher, para que fossem fecundos e se multiplicassem sobre a terra; e assim a família torna presente, no mundo, como que o reflexo de Deus, Uno e Trino.

A nossa reflexão terá sempre presente a beleza da família e do matrimônio, a grandeza desta realidade humana, tão simples e ao mesmo tempo tão rica, feita de alegrias e esperanças, de fadigas e sofrimentos, como o é toda a vida. Hoje, a família é desprezada, é maltratada, pelo que nos é pedido para reconhecermos como é belo, verdadeiro e bom formar uma família, ser família hoje; reconhecermos como isso é indispensável para a vida do mundo, para o futuro da humanidade. É-nos pedido que ponhamos em evidência o plano luminoso de Deus para a família, e ajudemos os esposos a viverem-no com alegria ao longo dos seus dias, acompanhando-os no meio de tantas dificuldades, com uma pastoral inteligente, corajosa e permeada de amor.

A nossa reflexão final parte do Documento de preparação para Assembleia Extraordinária do Sínodo, dentro do tema “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”, sobre o ensinamento da Igreja sobre a família: 
Ao longo dos séculos, sobretudo na época moderna até aos nossos dias, a Igreja não fez faltar um seu ensinamento constante e crescente sobre a família e sobre o matrimônio que a fundamenta.

A família, na qual se congregam as diferentes gerações que reciprocamente se ajudam a alcançar uma sabedoria mais plena e a conciliar os direitos pessoais com as outras exigências da vida social, constitui assim o fundamento da sociedade (GS 52). 
Também os Sucessores de Pedro, depois do Concílio Vaticano II, enriqueceram mediante o seu Magistério a doutrina sobre o matrimônio e a família: Paulo VI com a Encíclica Humanae Vitae; João Paulo II com a Exortação Apostólica Familiaris consortio.

A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade (LF 53).
O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimônio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (Gn 2,24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor.

Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projetos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada (LF 52).
    

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Agradecemos suas opiniões e informações.