domingo, 2 de fevereiro de 2014

Tráfico de pessoas avilta a dignidade humana, diz arcebispo de Porto Velho



Dom Esmeraldo fala da campanha a fraternidade, de missão, de fé e da alegria de ser 

cristão.




Dom Esmeraldo, arcebispo de Porto Velho. foto tudorondonia

Tdorondonia: Rondônia é comprovadamente o estado federado mais evangélico do Brasil, com uma grande quantidade de igrejas protestantes, das mais diversas denominações. Tentando resistir a essa onda evangélica, que conquista cada vez mais novos fiéis, a igreja católica, uma das mais antigas religiões do mundo, segue buscando novas tendências para manter e conquistar adeptos da denominação que, historicamente, teria sido fundada pelo próprio Jesus Cristo ao eleger Pedro, o primeiro Papa, seu representante maior entre os apóstolos e demais cristãos. 
Um dos diferenciais do catolicismo, em relação a muitas religiões, é a atuação efetiva da igreja no enfrentamento a alguns dos principais problemas da sociedade, tendo inclusive atuação direta em muitos fatos registrados na história do Brasil. Uma das formas da igreja agir é suscitando discussões em nível nacional, sobre temas polêmicos e relevantes, através da Campanha da Fraternidade, que é realizada anualmente desde a década de 1960. 
Para falar da Campanha da Fraternidade deste ano e de outros temas relevantes, o www.tudorondonia.com.br ouviu o arcebispo de Porto Velho, Dom Esmeraldo Barreto de Farias. Há dois anos em Porto Velho, Dom Esmeraldo é originário de Santo Antônio de Jesus, na Bahia. Ele substituiu a Dom Moacyr Grechi, um arcebispo que teve forte atuação política em Rondônia e no Acre, sendo inclusive ameaçado de morte por criminosos e políticos corruptos acreanos, mas, diferente de seu antecessor, Dom Esmeraldo é menos político e, a exemplo do Papa Francisco, é mais ligado a missionariedade da igreja. 
Apesar da evasão de fiéis da igreja católica, o religioso diz não ter a pretensão de forçar ninguém a ser católico nem de tentar convencer, por meios escusos ou ações proselitistas. Segundo ele, se a pessoa acredita e respeita Deus, não importa a religião em que congrega, mas os atos e palavras que testemunham em favor dele. Confira a seguir a integra da entrevista: 

Tudorondônia: Quem é Dom Esmeraldo?
Dom Esmeraldo: Eu nasci no interior da Bahia, no município de Santo Antonio de Jesus, no ano de 1949. Fui ordenado padre em janeiro de 1977 e sempre trabalhei em paróquias rurais e nas cidades, até o ano 2000, quando fui designado bispo para a diocese de Paulo Afonso. Em 2007 recebi o convite de transferência para Santarém, no Pará, e, em 03 de março de 2012, assumi a Arquidiocese de Porto Velho. 

Tudorondônia: Quais são as diretrizes da igreja católica, ou pelo menos da arquidiocese de Porto Velho? 
Dom Esmeraldo: Nós temos um plano de pastoral que foi trabalhado em todas as comunidades e nas coordenações pastorais das paróquias e das duas regiões pastorais, que são Porto Velho e Ariquemes. Nesse plano de pastoral nós temos três grandes prioridades, que são: a missão, a formação de missionários e a pastoral de conjunto. Esse plano de pastoral traz vários projetos e cada projeto traz varias atividades. Isso é importante para dar uma visão de comunhão e de conjunto em todas as paróquias, em todas as dioceses. Esse plano vigorará até 2016 e segue as orientações já traçadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outras orientações da Santa Sé e da igreja no mundo. Ele vai sendo colocado em prática, porque em cada conselho pastoral paroquial e também nas pequenas comunidades é estudado o que está no plano, até porque atinge todas as pastorais, movimentos e as comunidades. 

Dom Esmeraldo: Jesus está no centro de tudo, mas Maria ocupa lugar especial no plano da salvação.

Tudorondônia: Qual tema da Campanha da Fraternidade de 2014? 
Dom Esmeraldo: Cada ano, desde 1964, quando teve início a Campanha da Fraternidade, é assumido nacionalmente um tema sempre ligado a uma realidade social que está precisando de uma consideração, de um debate, de indicações de ações práticas. Este ano o tema é “O tráfico humano”. A Pastoral da Mobilidade Humana, a Pastoral dos Migrantes e a Comissão Pastoral da Terra já vinham trabalhando esse assunto na prática há muito tempo, mas em 2011 esse assunto foi levado ao Conselho Permanente da CNBB, que é formado por presidentes de cada uma das 18 regiões e também pelos bispos que assumem as 12 Comissões de Pastoral da CNBB. O Conselho Permanente junto com a presidência da CNBB aprovou esse tema ano passado para vigorar na campanha desse ano. É claro que é uma situação muito forte e que vai, com certeza, nos ajudar a descobrir algumas iniciativas importantes para combater e, se Deus quiser, erradicar esse grande crime, esse grande mal. 

Tudorondônia: Quais os critérios que a igreja adota para definir o tema de cada campanha? 
Dom Esmeraldo: É a incidência daquele tema na vida social. A repercussão que tem e que pode ter. Por isso, já tivemos temas relacionados à saúde, a ecologia, a questão da terra. Isso sempre aparece em razão de serem temas importantes e situações que precisam ser considerados em nível nacional, e este ano a questão é o tráfico humano. 

Tudorondônia: Qual será o papel da igreja no desenvolvimento dessa campanha? 
Dom Esmeraldo: Antes de entrar no papel da igreja, queria só lembrar o objetivo geral da campanha deste ano que é identificar as práticas de tráfico humano, suas várias formas, e denunciá-las como violação da dignidade e da liberdade humanas, mobilizando cristãos e pessoas de boa vontade para erradicar este mal, com vista ao resgate da vida das filhas e filhos de Deus. A partir daí, o que a CNBB quer é primeiro debater o tema em cada diocese, conselho pastoral, entre bispos, padres e leigos. O tema precisa fazer parte da nossa pauta, nas igrejas, nas comunidades e na cidade, através dos meios de comunicação, em suas várias modalidades. O assunto precisa ser refletido, precisamos descobrir as causas desse grande problema e vê-lo a partir do evangelho. A campanha da fraternidade não é simplesmente uma ação sociológica ou política, ela tem é claro o ponto social, o ponto político, mas é, antes de tudo, uma campanha feita a partir da fé. Por isso que a iluminação da palavra de Deus é muito importante para, a partir daí, se tirar os caminhos, as ações, que podem ser em nível do que cada pessoa pode fazer, o que cada comunidade pode fazer, e, também, o que os órgãos públicos podem e devem fazer. O que se espera é que, seja em nível de município, de estado ou nacional e que esses âmbitos todos possam ser atingidos, já que é uma reflexão que vai ser feita desde a pequena comunidade. Temos, na diocese, um folheto sobre o tema da campanha, esse folheto já está sendo distribuído em todas as paróquias para que, a partir dessa primeira semana de fevereiro, os grupos bíblicos nas comunidades possam estudar, refletir e descobrir pontos de encaminhamento para esse problema. 

Tudorondônia: Como a igreja pretende envolver a sociedade nesse debate? 
Dom Esmeraldo: No caso de Rondônia, temos vários órgãos que se preocupam também com essa questão de trabalho escravo e de tráfico humano, o Ministério Público do Trabalho, a Justiça do Trabalho. Então, é claro que vamos fazer contatos com essas entidades, assim como com outras da sociedade civil, que possam se interessar e que, com certeza, terão interesse sobre isso, porque um ponto muito importante é que estas práticas de tráfico humano, incluindo o trabalho escravo, é uma dura e terrível violação contra a dignidade humana. A região Norte tem a maior incidência de redes de tráfico. Das 240 redes de tráfico do Brasil, que pelo menos se tem notícia, 79 delas estão na região Norte. Isso em razão de ser região de fronteira, de fácil acesso a países da Europa. 

Tudorondônia: Então, o tema da Campanha da Fraternidade cabe bem para a região Norte? 
Dom Esmeraldo: Isso. A região Norte é vulnerável nesse ponto. Seja para pessoas que saem daqui para outros países seja também de pessoas que vêm da América Latina para cá. Essas pessoas, às vezes, são aliciadas para o trabalho escravo, seja o trabalho como emprego, seja também a exploração sexual. Há também a exploração das pessoas para a utilização de órgãos para finalidades, com certeza, comerciais. Convém lembrar que esse é um dos pontos mais lucrativos e fala-se de milhões de dólares em todo o mundo. Coloca-se o tráfico de pessoas no mesmo nível do tráfico de drogas. São dois grandes pontos da lucratividade ilegal que, com certeza, faz apagar a consciência de tantas pessoas que não enxergam, nessa atividade absurda, um grande crime contra a dignidade das pessoas. 


Na Campanha da Fraternidade desse ano vamos debater o terrível drama do tráfico humano

Tudorondônia: Em Rondônia, a gente vive uma realidade que é a presença dos imigrantes haitianos, é uma realidade no Brasil, mas mais forte na região Norte, sobretudo, em Rondônia e Acre. A igreja tem alguma denúncia de abuso, trabalho escravo ou se tem algum tipo de tráfico nessa questão dos imigrantes haitianos? 
Dom Esmeraldo: Aqui, na Arquidiocese, temos a Pastoral do Migrante, que é um serviço prestado através das irmãs religiosas da Congregação das Escalabrinianas e, nela, não há nenhuma notícia de que esses haitianos, que aqui em Porto Velho já somam três mil pessoas, sejam aliciados para trabalho escravo. Agora, quando eles chegam, infelizmente, as condições em que se encontram são difíceis. Houve uma medida do Governo Federal que, até fevereiro de 2012, concedeu documentação para legalização. Só que, depois disso, em 2013, outros tantos chegaram por aqui, normalmente vindos através do Acre. Manaus é outro grande pólo de concentração de haitianos e se calcula que lá estejam oito mil haitianos. A cada dia que chegam eles são atendidos pelo serviço que a Arquidiocese de Manaus disponibiliza que é de acolhida, alimentação e curso da língua portuguesa. Aqui também, na paróquia São João Bosco, em 2012 e 2013, foi oferecido sopa e outros alimentos e também curso de português para os haitianos. 

Tudorondônia: Dom Esmeraldo, o Haiti não é um país de tradição católica e nem sua população. Aqui em Porto Velho, por exemplo, apesar do trabalho que a igreja desenvolve com esses imigrantes, não é perceptível a presença deles durante os cultos, durante as missas. A igreja faz o bem sem olhar a quem ou ela tem uma predileção pelos católicos? 
Dom Esmeraldo: Essa é uma pergunta que coloca a questão do proselitismo. Nós não somos proselitistas, quer dizer, o que se pode fazer, se faz às pessoas que precisam sem interesse de que elas possam participar da comunidade católica. Nós temos duas vertentes de ação: ações que são feitas para aquelas pessoas que necessitam e que já fazem parte da comunidade católica e aquelas outras que não estão participando da comunidade católica, mas que tem necessidade. Afinal de contas, o que se quer é que essas pessoas possam ter uma vida digna, e nossa luta não é só no sentido da assistência, dar o alimento, o remédio, a colhida, mas também e especialmente, lutar pelo direito que as pessoas têm. A palavra do Evangelho diz: “Eu vim para que todos tenham vida”. Esse “todos” é abrangente, é globalizante e isso é muito importante para nossa ação, não ficar só no assistencialismo, mas lembrar que é um direito da pessoa, o direito, isto a constituição brasileira reconhece, tendo com base a Declaração Universal dos Direitos da Pessoa Humana de 1948, que declara que toda pessoa tem esse direito de ir e vir, de ser considerada como pessoa humana. Então, isso é importante por que é o que esta na lei, e olha que não faltam leis no Brasil. Mas o tráfico existe, o trabalho escravo existe e outras situações que contradizem o que as leis estão dizendo. Portanto o que falta é colocar essa lei em prática, lutar para que aqueles que têm a responsabilidade de punir empresas ou grupos que atuem nesse campo de ferir a dignidade das pessoas, desrespeitar, que isso possa ser realizado. 


Nossas prioridades são a missão, a formação de missionários e a pastoral de conjunto

Tudorondônia: Dom Esmeraldo, o senhor tem falado muito da dignidade da pessoa humana. A própria Campanha da Fraternidade desse ano tem esse tema como pano de fundo. A Constituição da Republica, promulgada em 1988 tem como fundamento a dignidade da pessoa humana. O senhor acha que nesses 25 anos de constituição, as autoridades brasileiras têm procurado cumprir esse fundamento da nossa Carta Magna?
Dom Esmeraldo: Em parte sim. Mas não podemos tapar o sol com a peneira, em partes vemos que a valorização, por exemplo, dos negros, em algumas partes dos povos indígenas, em outra ainda tem muito a desejar, valorização das mulheres, da criança, etc. As nossas leis procuram concretizar na prática aquilo que esta na constituição, mas, por outro lado, quando olhamos, por exemplo, as periferias de Porto Velho, das grandes cidades, o problema dos povos indígenas, o que eles estão sofrendo, sabemos que tem uma pressão grande no Congresso Nacional para retirar direitos da própria constituição para os povos indígenas, alegando que eles são poucos, com muita terra, de que o Brasil precisa de empresas que possam desenvolver a terra e quando olhamos as periferias, quando olhamos a questão da saúde, por exemplo, qual é o tratamento que é dado aos pobres na saúde em Rondônia? Eu me lembro que em abril de 2012 entreguei pessoalmente, nas mãos do governador, uma carta com a minha assinatura e dos padres. A situação do hospital João Paulo II, colchões pelo chão, a falta de higiene dentro do hospital, a falta de atendimento, então, é claro que isso fere a dignidade humana, por que para aqueles que têm dinheiro têm ótimos hospitais e, a aqueles que têm o direito ao SUS e não se fazem isso? E claro que depois da pra ver também, se o hospital do Câncer, que é mantido pelo SUS, com campanhas e dá um tratamento digno, seja em Barretos, seja a filial aberta aqui em Porto Velho. Por que é que nos hospitais que são comandados pelo poder publico isso não acontece? Isso mostra que as leis são muito bonitas, mas que, na prática, essa situação permanece. Olhando a questão do esgotamento sanitário e do saneamento básico em Porto Velho, olha, se você visitar um bairro como o Nacional, onde o esgoto corre a céu aberto, onde a onda de mosquito invade todas as casas e outras áreas daqui, isso me parece que não precisa de nenhuma estatística, mas basta olhar pra ver a situação em que esse povo vive. 

Tudorondônia: Dom Esmeraldo, mudando de assunto, vamos falar, de forma mais generalizada, da ação da igreja. Como é que a igreja católica deve lidar com a questão da perda de fieis para outras religiões? 
Dom Esmeraldo: Esse é um assunto que já vem sendo refletido. Então, nossa preocupação, como já me referi, não é uma preocupação de proselitismo, de ir atrás das pessoas para que elas venham a todo custo participar ou fazendo ameaças de que se não vier pra igreja católica não serão salvas. A nossa perspectiva não é essa. O principio fundamental é que cada pessoa de fé, seguidor e seguidora de Jesus Cristo, discípulo, essa pessoa é chamada a ser missionária, e missionária é ir ao encontro das pessoas, para escutar o que Deus faz na vida delas e para descobrir a presença de Deus na vida delas. Agora mesmo, em Campo Novo de Rondônia e em Monte Negro, do dia 27 de dezembro a 26 de janeiro, eu acompanhei, juntamente com 65 seminaristas que vieram de vários estados do Brasil, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, e 13 seminaristas daqui, 5 padres, 2 diáconos, alguns leigos, éramos num total de 90 pessoas missionárias, indo de casa em casa escutando as pessoas, meditando o evangelho e fomos muito bem recebidos por evangélicos, por católicos e fazendo celebrações, reuniões. Então, isso também que já foi dito por mim de que o nosso plano de pastoral trás como primeira prioridade, a missão, como segunda prioridade a formação missionária. Isso mostra que precisamos retomar, sim, esse caminho que é o próprio caminho de Jesus. O que Jesus fazia? Ele ia de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, de cidade em cidade. Ele entrava em muitas casas. Então, precisamos fazer isso. Não podemos ficar pensando que basta ser o padre, o animador de comunidade ou catequista ou bispo, ficarmos esperando que as pessoas venham. A dinâmica, o incentivo agora é esse, de ir ao encontro das pessoas de escutá-las, de dar atenção, escutar sua historia. Rondônia é uma terra de migrantes, mais ou menos, as pessoas que tenham de 20 anos acima de idade, 70% dessas pessoas são migrantes, inclusive eu que vim da Bahia. Então, nós precisamos ir ao encontro das pessoas, escutar sua história e valorizar essa presença de Deus que está na vida delas e, a partir daí, aprofundar o Evangelho. Se a pessoa já participa da igreja católica, se declara católica, mas não participa, fazemos o convite. Se a pessoa é de outra religião, de outra instituição religiosa, incentivamos para que ela participe da sua comunidade, para que siga o Evangelho, para que tenha o amor ao próximo. Portanto, esse é o caminho que nós estamos fazendo hoje, ainda mais que toda a realidade de Rondônia tem uma realidade de migração. 

Tudorondônia: Os católicos de Porto Velho e da jurisdição dessa arquidiocese conviveram durante muito tempo com a liderança de Dom Moacir, o arcebispo que lhe antecedeu, e ele tinha uma atuação com forte teor político. Desde sua chegada à arquidiocese, percebemos que sua ação tem um apelo mais missionário, essa mudança tem sido bem aceita pelo fiéis dessa arquidiocese? 
Dom Esmeraldo: Não me cabe aqui fazer avaliação do tempo de Dom Moacir. A classificação política fica por conta do jornalista Carlos Araujo. O que eu digo é que toda ação humana tem implicação social, política, cultural e ela parte do fundamento de que a pessoa quer, na linha que ela quer dirigir, da qual ela parte. Claro que, para nós, partimos sempre do Evangelho que é a fonte e o Evangelho nos diz que precisamos ir ao encontro das pessoas, considerar a realidade das pessoas, a realidade familiar, social, política e que não podemos ser indiferentes diante do sofrimento das pessoas. Por isso é que o encaminhamento que fazemos nos vários organismos sociais, políticos, nas autoridades que estão no Poder Judiciário, Executivo e Legislativo, faz parte da nossa ação. Não é que a igreja queira fazer política partidária, isso não. O que nós queremos é que a pessoa seja beneficiada, que a dignidade humana seja recuperada, seja respeitada e, é claro que não podemos deixar de conversar, de propor, de reivindicar daqueles que tenham competência para isso que são os poderes. 


Tudorondônia: O senhor assumiu a Arquidiocese há menos de dois anos e tem essa proposta de uma igreja mais missionária. O Papa Francisco, que assumiu no ano passado, tem o mesmo discurso. Ele também tem feito essa mesma pregação, de uma igreja menos encastelada e mais missionária. O senhor acredita que essa é uma nova tendência da igreja Católica, agora referendada pela atuação do Papa Francisco? 
Dom Esmeraldo: Veja bem, esse ponto já vem de antes. Vem do Concílio Vaticano Segundo, realizado de outubro de 1962 ate 1965, quando, em período de alternâncias, os bispos iam para Roma e, depois, ficavam um tempo nas suas arquidioceses. O Conciliojá define a igreja, por natureza, como missionária. É um dos documentos que se refere a missão junto a povos não cristãos e define a igreja como fazendo parte da sua natureza ser missionária. A partir daí, o papa João Paulo II, quando completou 25 anos desse documento, sobre a missão junto a povos não cristãos numa encíclica chamada Retempitorio is missio, ele exatamente enfoca a missão de Cristo e a missão da igreja e convida toda a igreja a reavivar a missão. Quando foi na preparação do jubileu no ano de 2000, o papa João Paulo também lembrou isso, dizendo: “Nós precisamos de uma nova evangelização, com novos métodos, novo modo de se aproximar das pessoas”. A partir daí, é claro que antes podemos dizer que uma famosa encíclica do papa Paulo VI, de 1975, sobre evangelização dos povos, tem essa dimensão missionária. O que aconteceu nos últimos anos é que o enfoque se tornou mais incisivo e esse enfoque aparece no documento de Aparecida, de 13 a 31 de maio de 2007, com a abertura feita pelo Papa Bento XVI em Aparecida, São Paulo, lá no Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Ali, em torno de 200 bispos de toda America Latina e alguns representantes da Santa Sé, mais 20 que foram do Brasil, esses bispos definiram o caminho da evangelização como o caminho missionário. Por isso que a expressão que mais se repete é discípulo missionário. Com isso, os documentos e as diretrizes da CNBB enfocam uma igreja em estado permanente de missão, essa expressão vem do documento de Aparecida de 2007, passa para as diretrizes da CNBB e, claro, como o Papa Francisco, na época Cardeal Jorge Bergoglio, foi o redator principal do documento de Aparecida, então ele era o cabeça da equipe que ajudou a construir, se responsabilizou pela redação final. Eram mais de 200 bispos, todos dando a sua idéia, mas essa comissão era coordenada e presidida pelo então cardeal Bergóglio, agora Papa Francisco. Quando olhamos a ultima encíclica de novembro do papa Francisco, sobre a alegria do Evangelho, vemos que ele cita várias vezes e toma, mesmo quando não cita claramente, várias intuições missionárias do documento de Aparecida e uma expressão bonita é essa: “Não deixemos que nos roubem a força missionária”. Então, eu creio que é um ponto muito importante. O papa Francisco usa essa expressão: “uma igreja em saída”, quer dizer, uma igreja que vá às periferias existenciais. Portanto, os idosos, os drogados as pessoas que por tantas razões se afastaram do convívio, não só da igreja católica, mas da fé. Rondônia tem 22%, conforme o senso de 2010, de pessoas que se declaram não participantes de nenhuma confissão religiosa. É um índice alto que corresponde em torno de trezentas mil pessoas no nosso Estado, com um milhão e seiscentos mil pessoas, é a maior percentagem do Brasil em termo de pessoas que não se declaram ligadas a nenhuma religião. Então, vendo essa situação de periferias existenciais, mas, também de periferias sociais, como já mencionei os indígenas, os pobres dos bairros, daqueles que moram em regiões tão distantes, na área rural, são situações assim, muito terríveis e que precisam fazer com que possamos acordar para ir ao encontro dessas pessoas, com todo respeito e descobrindo que a presença de Cristo já está especialmente também no meio dessas pessoas. 

Tudorondônia: Vivemos num mundo cada vez mais de facilidades, as mídias sociais, as redes, enfim, a informática facilita uma série de atividades da vida humana, permitindo um novo entendimento do mundo, levantando inclusive questionamentos sobre a família e outros assuntos considerados tabus. Há ainda as exigências da igreja católica, na questão, por exemplo, do batismo, do casamento e de alguns outros sacramentos, isso tudo pode contribuir para o afastamento de alguns fiéis ou o senhor não considera isso? 
Dom Esmeraldo: A igreja católica tem suas normas e várias dessas normas vão se adaptando a realidade das pessoas. É claro que o fundamental é ver a situação concreta de cada pessoa, se existe uma norma a respeito do batismo, por exemplo, precisamos olhar e, inclusive, o Papa se refere nas suas ultimas entrevistas exatamente a isso. Ele disse: “se chega uma mulher, cujo pai não se declarou e nem assume a criança ou se declarou, pôs o nome no registro mas não assume, vamos acolher essa pessoa com carinho, com toda a dignidade que ela tem e merece, e a partir daí vamos conversar, vamos ver por quê. É claro que não se trata do sacramento pelo sacramento, mas de ter um mínimo de garantia, para que aquela criança batizada, ou aquele adolescente batizado, ou aquele adulto batizado, possa ser acompanhado, porque a fé é uma semente que precisa ser cultivada e acompanhada. Então, as exigências existem, mas precisamos considerar cada pessoa em sua historia, em sua vida, em sua situação. 

Tudorondônia: Dom Esmeraldo, em cima disso que o senhor falou e, considerando que a atuação do Papa Francisco tem forte apelo popular como ficou demonstrado na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, possa contribuir para evitar as fugas dos fiéis da Igreja Católica e ate mesmo para revitalizar a fé dos católicos? 
Dom Esmeraldo: A fé é um dom de Deus, a fé é uma semente como já falei e essa semente precisa ser cultivada. Toda semente, toda árvore, se ela não é cultivada, a não ser que ela já tenha autonomia, mesmo assim, ela sendo uma castanheira por exemplo, de 10 ou 20 metros, ela precisa da chuva. Se ela fica num lugar que passa um ano, dois, três, quatro sem chuva, ela vai morrer. Então, ela precisa de chuva, ela se alimenta do adubo, das folhas do húmus que a própria terra vai fabricando com tudo aquilo que ela recebe. A fé precisa ser cultivada na família, na comunidade eclesial, onde a pessoa participa mais diretamente, cultivada com ajuda do testemunho de outras pessoas, cultivada também pelo que os meios de comunicação podem transmitir, podem ajudar, e é claro que uma pessoa como o Papa tem influência muito grande. Nós vimos, eu vi e escutei de pessoas aqui em Porto Velho o seguinte: “olha que maravilha ver um Papa humilde, simples, que não fica com medo de se aproximar das pessoas. Um Papa que se refere a um Evangelho (não que os outros não se referiam, mas, ele tem um modo particular de fazer isso), um papa que se abre”. Veja nas entrevista que ele deu, falando sobre tantos assuntos, um papa que telefona para as pessoas de Buenos Aires ou de outros lugares do mundo. Um papa que se dispõe a isso é claro que mostra que quem assume um cargo ou uma missão na igreja não é para se distanciar das pessoas. Ao contrario, é para ser um servidor e eu vejo que é isso que desperta um grande entusiasmo, não só para os católicos mas entre pessoas de outras denominações religiosas e pessoas que não professam credo nenhum e que admiram isso. Não é à toa que, por exemplo, o presidente da França, não é só uma questão política, já teve uma entrevista com o Papa e o presidente dos EUA já tem audiência marcada com o Papa. Isso mostra que um homem pode, com a graça de Deus, não por ele próprio, não só ajudar a Igreja, mas também ao mundo a reencontrar caminhos. 

Tudorondônia: Qual é o peso das Ceb’s, as Comunidades Eclesiais de Base, para a missão da Igreja Católica? 
Dom Esmeraldo: As Ceb’s surgem especialmente nos anos 60, quando já havia os grupos bíblicos e ação católica com seus vários campos no meio juvenil, rural, universitário, entre os profissionais liberais, ação católica operaria e a partir dos anos 60, foi vendo a importância de não se ficar centralizado na igreja, isto é, no templo e que essas pequenas comunidades poderiam muito bem meditar o evangelho e serem pequenas igrejas sem ser em forma de templo, mas pequenas igrejas vivas, reunindo famílias, reunindo pessoas. Isso foi crescendo, foi tendo reconhecimento. Na America Latina, o documento de Medelim,de 1968, e a própria Encíclica de Paulo VI, de 1975, sobre a evangelização dos povos. Essa encíclica faz menção às comunidades eclesiais de base e, a partir daí, foi se vendo o quanto cresceu nos anos 70, 80 e 90, e eu participei, agora, em Juazeiro do Norte, de 07 a 11 de janeiro, do XIII Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base, com mais de cinco mil pessoas. Isso revitaliza e mostra a importância desses pequenos grupos que, a partir do Evangelho, procuram viver a fraternidade, a solidariedade e a fé em suas regiões. 

Tudorondônia: Qual será a programação da Arquidiocese de Porto Velho para o período de Carnaval? 
Dom Esmeraldo: Todas as paróquias funcionam normalmente, com todas as celebrações, com os encontros já previstos. Como evento especial, temos o “Viva Cristo”, que é organizado pela Renovação Carismática Católica, que faz a sua abertura no sábado de carnaval e termina com a celebração na terça-feira de carnaval, no período da tarde. E os Salesianos organizam, com os jovens que estão mais ligados a paróquia do Salesianos, um evento nos sítios que os Salesianos têm na BR-364, a 20 km de Porto Velho. Todas as outras atividades, celebrações, momentos de oração, isso continua em todas as paróquias, porque o que queremos é rezar pelos que participam do carnaval, para que possam fazer uma festa em paz, para que não usem de violência, para que saibam respeitar suas famílias e em preparação ao começo da quaresma e da campanha da fraternidade, na quarta-feira de cinzas. 

Tudorondônia: Vai ser o lançamento da Campanha da Fraternidade na quarta-feira de Cinzas, como em todos os anos? 
Dom Esmeraldo: Quarta-feira de Cinzas, na parte da tarde. E aqui vai um convite para a imprensa. Deveremos fazer uma pequena caminhada que está sendo coordenada pela Rede de Luta Pela Vida, para o combate ao tráfico humano. Se Deus quiser, faremos a caminhada e a abertura da campanha. Vamos fazer um convite a toda a imprensa e assim podermos iniciar a Campanha da Fraternidade com a celebração da quarta-feira de cinzas. 

Tudorondônia: Como o senhor avalia a afirmação do padre Fabio de Melo, que é um padre pop, um padre com muita influência, sobretudo na juventude, de que a igreja católica exacerba o culto à Maria. O senhor acha que isso tem algum peso no dia-a-dia da Igreja? 
Dom Esmeraldo: Eu não li. Na verdade estou sabendo aqui pelo senhor. Como eu não li o contexto em que ele falou isso, então fica pra mim difícil fazer uma ponderação. O que para nós é verdade é que Maria ocupa um lugar importante, o lugar principal é sempre de Jesus Cristo, que é o Salvador do mundo. Isso faz parte da nossa fé, mas a partir do que encontramos na bíblia, no evangelho de Lucas, de João, livro de Apocalipse, Atos dos Apóstolos, são livros bíblicos que estão aí em todas as denominações religiosas, são livros bíblicos que colocam um valor importante de Maria dentro do mistério da salvação. Então, vemos quando o Evangelho diz que Maria é Cheia de Graça, quando o Evangelho diz que, através da palavra de Isabel, do anjo Gabriel, Deus está contente com Maria, o espírito santo virá sobre “você”, a criança que será concebida será pela força do Espírito Santo, quando Isabel diz: “bendita és tu entre as mulheres, você é feliz porque acreditou, você é mulher de fé”. Quando Maria, com muita humildade, reconhece que Deus fez grandes coisas através da humildade dela, que o maior é Deus, que Deus é o Senhor. Ora, não podemos deixar de considerar essa pessoa, criada por Deus. A Igreja Católica continua afirmando que ela é concebida sem a mancha do pecado original, que ela é imaculada. Isso é importante para nós. Quem não tem essa visão não descobriu ainda esse lugar importante de Maria na nossa vida espiritual, na nossa evangelização. Com certeza ainda vão sentir alegria de descobrir e, olha, é uma mulher que tem pela bíblia, uma posição muito especial. Precisamos escutar e descobrir nessa mulher os sinais de Deus, tudo por causa de Jesus Cristo. Se ela foi escolhida por causa de Jesus, se palavras são ditas, por causa de Jesus, pois Ele é que é Salvador do mundo. 

Tudorondônia: Finalmente, eu gostaria de ter uma mensagem do nosso Arcebispo Dom Esmeraldo Barretos de Farias para a nossa comunidade para a nossa sociedade. 
Dom Esmeraldo: Através do Tudorondônia, através do jornalista Carlos Araujo, primeiro eu agradeço a oportunidade da entrevista, e segundo, eu quero dizer que assim como o Papa diz: “não deixemos que nos roubem a força missionária”, eu diria: não deixemos que nos roubem a esperança, a vida comunitária. Diante do individualismo da sociedade atual, não deixemos que nos roubem o Evangelho, não deixemos que nos roubem a fé. Então que a fé, a esperança, a força do evangelho, a caridade continuem sempre, na minha vida, mas também na vida de quem tem oportunidade de acompanhar este momento, na vida de cada pessoa, que sejam pontos fundamentais da nossa vida, porque é assim que Cristo nos deseja. Ele, que é o salvador do mundo, deseja que todos tenham vida, que tenham vida em abundância.

Fonte e fotografias: Tudorondonia.

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