quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Esperança para os povos da floresta, das águas e da cidade!

Palavra de Dom Moacyr Grechi – Arcebispo Emérito de Porto Velho
Matéria 393 - Edição de Domingo – 10/11/2013
Dom Moacyr Grecci, foto Karla Maria

Esperança para os povos da floresta, das águas e da cidade!
Iniciamos o mês de novembro em clima de esperança,renovando a fé em nosso Deus, comprometido com a vida. Criados para a aliança com Deus para sempre, Ele que é fieljamais permitirá que a morte tenha a última palavra.
A liturgia de hoje demonstra claramente que a pessoa, ao ressuscitar, não perde a sua identidade, diluindo-se na presença de Deus (Lc 20,27-38). Assim como Jesus, ao ressuscitar, alcança sua plenitude humana, seus irmãos e irmãs que morrem, ao ressuscitar, continuam sendo eles e seu mundo de relações que os definem, mas de uma maneira mais plena, total, que transcende as barreiras do tempo e do espaço (IHU).
O teólogo A. Queiruga, refletindo sobre a afirmação de Jesus de que na ressurreição os homens e as mulheres “não se casarão mais, porque não podem mais morrer, pois serão como os anjos”, considera que estas palavras não anunciam uma vida abstrata ou despersonalizada. Elas aludem à plenitude do novo modo de existência, em que o amor, porque estará livre do egoísmo, não se submeterá à rivalidade e à exclusão. Os vínculos e o amor se conservarão, mas já não se limitarão à vida e às relações, mas se expandirão para alegria de todos.
Ressurreição é transformação da vida humana em outra realidade para além do tempo e da história. É vida plena em Deus. E o fundamento da fé na ressurreição é a fidelidade divina (VP).

Conscientes, portanto, de nossa missão de “servidores e portadores do evangelho da esperança” (PG 67,73), participamos do I Encontro da Igreja Católica na Amazônia Legal (28-31/10/2013).
O Encontro de Manaus contribuiu para o fortalecimento da comunhão, solidariedade e fidelidade das dioceses, prelazias e arquidioceses da Amazônia Legal, formadas pela rede de milhares de comunidades eclesiais, que caminham segundo as diretrizes do Concílio Vaticano II (50 anos) e do Encontro de Santarém (40 anos), numa dimensão evangelizadora, inculturada e libertadora.

Os 160 delegados (bispos, assessores, coordenadores de pastorais, leigos, religiosos e padres) retomaram as conclusões do Encontro da Igreja da Amazônia em 2012, em Santarém e debateram as dificuldades da missão na Amazônia: distâncias continentais e precariedade da realidade do povo mais pobre atingido pelos impactos das hidrelétricas que vem sendo construídas na região amazônica. A ameaça à vida de diversas lideranças ribeirinhas, quilombolas, seringueiras e indígenas também foi tema do encontro, já que estas lutam pressionam politicamente para que a legislação de demarcação de territórios seja de fato respeitada. A Comissão Pastoral da Terra conta com 116 nomes de lideranças que estão ameaçadas de morte. O tráfico de pessoas, que será tema da Campanha da Fraternidade de 2014 foi apresentado como um dos graves crimes em que especialmente as mulheres mais pobres da região estão sendo vitimadas. Segundo a Comissão Justiça e Paz, o crime movimenta cerca de 32 milhões de reais por ano, perdendo apenas para o tráfico de drogas e armas (Signis Brasil).

Durante a Coletiva de encerramento, Dom Claudio Hummes, presidente da Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB, ressaltou o apoio do papa Francisco à Igreja na Amazônia e reafirmou o compromisso com a luta do povo amazônida pelos direitos humanos e as questões socioambientais. “É preciso ter coragem, senão, não estaremos cumprindo a missão que Jesus Cristo nos confiou”. (continua)

Leitura da carta por dom Erwin bispo do Xingu(PA) - Foto - Ércio Santos - 31.10.2013(1)

A Carta Final traduz os atuais gritos da Amazônia. Contém inicialmente uma parte histórica, em seguida, dados e aspectos da realidade na Amazônia e encerra com os compromissos, cujos pontos principais transcrevemos:

Os enormes desafios apresentados nos relatos e testemunhos nos interpelam como Igreja na Amazônia Legal a assumir compromissos pastorais que devem nortear a caminhada de nossa Igreja no presente e no futuro:

Reafirmamos nossa identidade de ser Igreja discípula da Palavra, testemunha do dialogo, servidora e defensora da vida, irmã da criação, missionária e ministerial, que assume a vida do povo, que se articula na paróquia como rede de comunidades e nas comunidades eclesiais de base (Doc.de Santarém, 2012, p. 19).

Causa-nos uma profunda dor ver milhares de nossas comunidades excluídas da eucaristia dominical... Torna-se urgentemente necessário criar estruturas em nossa Igreja para que os 70% de comunidades, que hoje estão excluídos da celebração eucarística dominical, possam participar da “fração do pão” (At 1,42)...

A cultura urbana transforma profundamente a compreensão do papel dos leigos e da mulher na Igreja. Na sociedade civil, eles vivenciam processos de empoderamento social quando se exercitam na construção de uma sociedade que preserve os direitos sociais e coletivos. Práticas e relações cotidianas exigem hoje, no interior das pastorais, modelos eclesiais assentados em relações recíprocas, mais do que no complemento, no diálogo horizontal em lugar de imposições verticais, na profunda experiência de serviço em lugar das lutas pelo poder.

O protagonismo dos leigos é insubstituível e imprescindível, na ação transformadora da realidade em que vivem, marcada pela exclusão e pela violência. O campo específico da missão dos leigos é o das realidades em que vivem e trabalham. É o mundo da família, do trabalho, da cultura, da política, do lazer, da arte, da comunicação, da universidade. É nos diversos níveis e instituições, nos Conselhos de Direitos, em campanhas e outras iniciativas que busquem efetivar a convivência pacífica, no fortalecimento da sociedade civil e do controle social. É na formação de pensadores e pessoas que estejam, nos níveis de decisão, evangelizando com especial atenção e empenho (EN 70).

A corresponsabilidade e participação de leigos, como sujeitos com vez e voz, devem acontecer na elaboração e execução dos planejamentos pastorais, nos centros de discussão e decisão das Igrejas Particulares. “Urge formar ministérios adequados às necessidades das comunidades, especialmente do Ministério do Pastoreio de comunidades, exercido por leigos que sejam servos do povo, abertos ao diálogo e ao trabalho em equipe, e que, devidamente preparados, assumam em nome da Igreja a direção pastoral de uma comunidade” (Doc. A Igreja arma sua tenda na Amazônia, n. 47).

Almejamos investir na formação de presbíteros e de irmãos de vida consagrada – autóctones e os que chegam de fora – para que sejam despojados, simples, não busquem a autopromoção, que sejam missionários e vivam em maior sintonia e contato com as comunidades e saibam trabalhar em equipe com os leigos, evitando centralismo, clericalização e autoritarismo.

Comprometemo-nos em dar visibilidade ao tráfico de pessoas para enfrentar esses crimes hediondos contra a liberdade e dignidade da pessoa humana.

Apostamos na Campanha da Fraternidade de 2014 que tem como tema “Fraternidade e Tráfico Humano”. Precisamos dar mais ênfase aos meios de comunicação, pois sabemos da sua importância para a Evangelização.

Conscientes de que a problemática da Amazônia é global, queremos abrir-nos a uma visão panamazônica que nos convoca a buscar caminhos de colaboração e compromisso entre as Igrejas na América Latina.

Queremos dar atenção especial aos jovens, através do apoio e incentivo à Pastoral da Juventude, estimulando as dioceses e congregações religiosas a liberarem presbíteros e religiosas para acompanhar os jovens, para que sejam oferecidos cursos de formação de assessores, preparando-os para este serviço à juventude na Amazônia.

A Igreja Católica na Amazônia Legal vive e cresce com características próprias, enraizadas na sabedoria tradicional e na religiosidade popular que durante séculos alimentou e continua a manter viva a espiritualidade dos povos da floresta e das águas, e agora, do mundo urbano. Enfrenta com alegria as dificuldades das distâncias e da falta de comunicação para encontrar e oferecer ao rebanho, confiado a nós pelo Senhor da messe, a luz da Palavra de Deus e a Eucaristia como alimentos que revigoram e animam as forças para viver a comunhão com Deus e cuidar da Amazônia como chão da partilha, pátria solidária, “morada de povos irmãos e casa dos pobres” (DAp 8). A carinhosa devoção a Nossa Senhora de Nazaré, Rainha da Amazônia, nos leve a cumprir o que ela nos pede: “Fazei o que Ele vos disser!” (Jo 2,5).

Confira uma entrevista a Dom Moacyr Greccy durante o encontro realizada perla jornalista Karla Maria

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