quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Zé Pinto: O artista entre o povo


Convicto e obstinado, Zé Pinto enumera os obstáculos em exercer a atividade de cantor popular.  Entrevista publicada em Brasil de Fato. 0/01/2013

Railton Teixeira, de Maceió (AL)
   
   
O cantor e compositor Zé Pinto, autor de várias cantorias da luta do campo
Foto: Railton Oliveira
A esquerda brasileira e seus referenciais teóricos em crise, face às profundas mudanças de alguns paradigmas perdeu-se dentro do seu “labirinto teórico” e, ao explorar a cultura popular, não lhe deu o valor merecido. Pelo menos é o que garante o cantador popular Zé Pinto, autor de várias cantorias da luta do campo, como ele mesmo prefere denominar.
Em sua passagem por Alagoas, ele ressaltou ao Brasil ao Fatoa falta de valorização da cultura popular por parte da esquerda e dos dirigentes dos movimentos sociais que, segundo Zé Pinto, só fortaleceu o “projetão de bestificação das pessoas”, ratificando ainda que “o importante é vender; esse é o grande problema do projeto que está ligado à grande mídia”.

 Brasil de Fato – Quase três décadas de muita cantoria, animando e fazendo sua mensagem ser cantada por inúmeros militantes, diga-se de passagem, uma delas gravada por Beth Carvalho. Mas muito pouco se sabe sobre você. Afinal, quem é Zé Pinto?
Zé Pinto – Uai! [risos]. Sou um cantador popular, apaixonado pela agroecologia, apaixonado pela luta da terra, radicalmente contra as pessoas que se atrevem a cantar besteira para alienar as pessoas e todo esse lixo cultural.
Como foi que tudo começou?
Sou mineiro, mas minha família foi para o norte na migração, lá nos anos 1970, quando chegamos a Rondônia, atrás de um pedaço de terra. A cidadezinha do interior não existia, tinha ali umas casas do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], uns dois botecos e foi lá que conheci o MST, em Ouro Preto do Oeste. Lá conheci o Partido dos Trabalhadores, numa sala meio escondida na igreja. Eles vieram fundando os sindicatos e fui convidado a participar de um curso do MST. Nisso eu me amarrei. Já fazia as minhas cantigas ali quando perdia as namoradas e a música foi só se engajando, isso lá por volta de 1986.
Ao longo de sua trajetória, como é se deparar com esse ‘lixo cultural’ que vem ganhando espaço por entre as “massas” e principalmente nos veículos de comunicação?
O trem está tão difícil que até parece que esquecemos que sempre existiu um embate entre a música que fala aquilo que está ligado às raízes do povo brasileiro e sua caminhada com essa outra. É questão de dois projetos mesmo, sempre teve isso, mas agora a coisa tá tão descarada que está fazendo nojo.
Dois projetos?
Se é pra ter lucro não existe a preocupação com o avanço humano das pessoas, muito menos com o avanço cultural. Quanto mais o povão ficar alienado, mais se consegue passar o seu produto, que é uma mercadoria. Não havendo interesse de saber qual é o conteúdo desta mercadoria. O importante é vender. Então esse é o grande problema do projeto que está ligado à grande mídia comprometida com o lucro.
Onde podemos localizar a cultura e a arte popular neste emaranhado?
Como a história está um pouco fria é preciso engolir este caroço. A coisa não está fácil, a música também começa a ficar meio apagada. Existem muitos cantadores que só pelo fato de fazerem uma música inteligente, uma música que retrata a realidade do seu povo já é um militante de sua cultura, já está cumprindo um papel interessante. Mas essa luta está um pouco abafada, até porque a luta do povo esta um pouco esquecida, o projetão deles lá [indústria cultural], está conseguindo caminhar a passos largos, então é meio complicado.
É possível reverter essa situação? O que está faltando?
Pense num desafio. Porque se a gente não tiver cuidado vai na onda. A arte tem que cumprir esse papel, não pode ir na onda de que agora nada mais acontece. Tem que achar um jeitinho de ir falando essa verdade, porque a história não morreu, não chegamos ao final da história.
Há espaços para os artistas populares divulgarem os seus trabalhos e assim socializarem as suas verdades?
Não existe. Se é popular é no meio popular, não tem outro espaço. Ainda temos um problema sério no Brasil dentro da própria esquerda que não conseguiu realmente reconhecer o papel de um artista popular. A arte no Brasil sempre foi muito utilizada, isso foi um erro histórico da esquerda brasileira. Quando o dirigente perde o fio da meada, chama o cantador para agitar [risos].
Outra coisa: quando se cria uma rádio comunitária, que deveria ser ligada ao povo usam uma música que é contraditória ao projeto, com artistas que só cantam pra comprar fazenda, pra comprar carros. São os próprios dirigentes que alimentam essa ilusão de que eu preciso colocar um CD de Zezé de Camargo e Luciano, porque são famosos e são o que a juventude quer.
E esse embate com a esquerda?
A esquerda sempre utiliza a gente. Em período eleitoral é mais visível isso. Vamos para a campanha, acreditando, e quando o dito cujo se elege, mesmo sendo de esquerda, ele acha que tem que contratar o cantor famoso e pensa ‘agora virei prefeito vou trazer esse cara para cá’. O dinheiro que ele poderia fazer uma noite de cantoria com 20 cantadores ele dá tudo pra uma duplinha dessas daí que abre a boca e só fala besteira. Diz que é de esquerda e não tem essa compreensão.
Qual a sua análise sobre a esquerda atual?
Esquerda hoje é um negócio que a gente não está conseguindo achar [risos]. Agora existem pessoas que ainda sonham e o trem pode ficar na grossura de uma linha que não se arrebenta. A vantagem da história é essa, você necessita comprar uma calça para vestir? Vai lá no cabo da enxada, trabalha e compra, mas não vende a alma para o diabo. A pessoa que se vende é uma mercadoria, há muitas pessoas que se vendem e são bem pagas.
E o projeto de eleger um presidente da república?
A questão deste pessoal que está na disputa direta, dentro da política partidária, é que não sei se fingem não entender, ou não entendem mesmo, que isso é uma disputa para administrar um Estado que não é do povo, um Estado que é inimigo do povo. É uma ilusão achar que Lula ou Dilma iria fazer algo, a não ser que radicalizem e soltem as mãos deste Estado burguês e apertem a mão do povo. Aí é preciso ter bastante coragem para poder largar as mordomias.
Neste emaranhado, como sobrevive um cantor popular, uma artista do povo?
Artista popular tem que ralar, não pode achar que pode ficar vivendo de música. Muito difícil achar que um cantador, militante da causa do povo vai viver de música, e também nem tem que ter essa pretensão, não. Cantar porque cantar é um prazer, uma tarefa política de quem acredita nas coisas, de quem tem valores, que acha que tem que ajudar o povo a cultivar.
Os artistas populares são unidos e convictos desta realidade pelo menos?
Artista é um bicho complicado e exigente. Tem um cantador amigo meu que se for dar entrevista ele arruma tanta exigência, ‘sim, mas vou ficar em pé aqui? Como é? Não dá pra gente sentar? Num dá pra fazer não sei o quê?’ Para fazer um negócio de cinco minutos, faz aquela confusão, e eu acho que isso é muito herança dessa ilusão que tem em cima dos artistas, esse personalismo, esse mal que causaram. Artista era coisa do povo mesmo, aí inventaram um tal de palco, o cara foi subindo no palco e um monte de gente lá em baixo. O ‘pessoazinho’ cá em cima acha que arte é uma coisa de iluminado, quando, na verdade, a arte está lá em baixo.
Muitos artistas que antes cantavam no meio popular foram ‘conquistados’ pelas gravadoras. Você já recebeu algum convite?
Tinha uma parceria muito forte com Marquinho Monteiro. Ele agora está em Teresina (PI). Em São Paulo (SP) uma vez, uma empresária lá cresceu os olhos sobre nós. Essa mulher estava levando nós para os caminhos dos porcos, até nos acompanhou nos assentamentos. Mas uma vez chegamos ao Pontal do Parapanema e ela deixou nós dentro do carro, dizendo ‘não saia, vocês dois fiquem aí’.
Imagina, a gente conhecia aquele povo todo dos assentamentos, vivíamos sempre naquelas festas e ela achava que a gente ia só na hora de dizer ‘agora com vocês Zé Pinto e Marquinho Monteiro’. Quando ela saiu olhamos um pra cara do outro e eu disse ‘Marquinho que diabo nós está fazendo aqui? Rapaz, você pensa bem, o povo cansado de ver nossa cara e nós lá naqueles barraco, comendo junto com aquele povo, tomando cachaça vamos ficar nessa onda parecendo dois bonequinho de cera?’ Na hora que a mulher viu que a gente tava misturado lá no meio do povo já começou a ficar meio nervosa. Aí, eu disse que nós não estávamos nessa não. Disse: Nosso negócio é outra coisa, porque se for pra gente ter que mudar nosso sonho, nossa cultura pra poder te acompanhar, não vai dar certo. Você faz parte de um projeto e nós de outro.
E o seu último trabalho? Do que se trata?
É um CD bem dançante com baiões, forró pé-de-serra, cantiga em homenagem a Gonzagão que está fazendo 100 anos, onde batizamos como Um Poema Insubmisso. A primeira faixa é a minha filha caçula que faz a abertura, além de umas músicas que são mais ligadas ao momento da luta, do embate, das mobilizações que a gente pega mais pesado mesmo. Mas não dá pra ficar cantando só gritando reforma agrária e falando mal de pistoleiro, se não nem o povo não aguenta [risos].

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