terça-feira, 4 de dezembro de 2012

CPT-RO e Projeto Terra Sem Males, realizam oficina de agroecologia durante o VI Forun Panaamazônico.




Agroecologia quer dizer casa, nossa casa, como estamos cuidando da nossa casa? (Agricultor José Silva)




A CPT/RO se fez presente no VI Fórum Panamazônico, em Cobija na Bolívia, com o intuito de participar das discussões sobre a Amazônia. O Fórum contou com a presença de representantes dos nove países que compõe a Amazônia Legal e de todos aqueles que veem a questão Amazônica como uma questão de interesse mundial. Ficou a cargo da CPT/RO a realização de uma Oficina, cujo tema: Experências Agroecológicas, a ser executada pelos agricultores que participam do Projeto Terra Sem Males. Projeto este realizado pela CPT, e que serviu como um berço para a Agroecologia, mas essa criança cresceu, esses agricultores produzem e vivem de forma agroecológica e querem passar suas experiências nesse processo afim de disseminar conhecimento, e assim incentivar outras pessoas a conhecerem e viverem a agroecologia.



Objetivos Específicos da oficina:
Valorizar e divulgar as experiências e práticas de agroecologia existentes; Fortalecer a agricultura familiar; Incentivar a produção agrícola sem uso de veneno.

Assuntos:
Experiências de agroecologia que deram certos ou não e testemunho de agricultores familiares que já vem desenvolvendo essa prática; as bases da agroecologia, como produzir alimentos sem veneno; compostagem, queima de ossos e sal mineral;

Relato:
A oficina iniciou-se na manhã do dia 29, atraindo um público de aproximadamente 40 pessoas, sendo todos do Brasil, com exceção de uma pessoa da Bolívia. Se fez presente, pessoas do Acre, Amazonas, Goiás, Mato Grosso e Pará, o público maior foi de rondônia. Todos e todas se apresentaram e foram recebidos em rítmo de música. A oficina proseguir-se-á com uma troca de experiências, um diálogo entre os participantes, contando com o depoimento dos produtores agroecológicos.

Zé Pinto, em suas palavras enfatizou a visão dos movimentos sociais sobre a agroecologia, devemos ter muito cuidado, pois a agroecologia pode ser falada e defendida até mesmo pelos representantes do capital. A visão dos movimentos é a de fortalecimento da agricultura familiar, e de produção de alimentos acessíveis, e que possam corresponder aos anseios do povo pobre e sofredor, por alimento, e alimento saudável.

O agricultor José Silva (do Projeto Natureza Viva),  iniciou sua fala perguntando qual o significado da palavra agroecologia: essa palavra bonita o que diz para nós? Agroecologia quer dizer casa, nossa casa, como estamos cuidando da nossa casa. Ao começar contar sua trajetória de agricultor disse que, a introdução do veneno após a Revolução Verde, a desvalorização e posterior perca dos costumes e tradições que os nossos antepassados viviam. Sentiu e viveu as transformações desse processo, quando em fim teve a oportunidade de participar de um curso, onde lhe fora apresentado a proposta da agroecologia, e pode visualizar os prejuízos, as consequências desse modelo de produção convencional.

Com essa experiência José Silva, junto de sua Família decidiram dizer não ao modelo convencional, ao agrotóxico, e começou a trabalhar a agroecologia, a se apropriar dos instrumentos, de suas bases para produzir.

Explica a proposta do modelo convencional, e os meios que temos para não tornar necessário seu uso. Temos meios que a própria natureza nos oferece para fertilizar nossos solos, sem nos tornar dependentes das grandes indústrias produtoras de insumos. Um exemplo do que se utiliza são as leguminosas, em especial a mucuna preta, consorciada, ou utilizada no pré-plantio. Quando iniciei o uso da leguminosa, nosso solo precisava de 06 a 07 toneladas de calcário, usando leguminosa, em 04 anos conseguimos zerar essa taxa. As leguminosas são nosso calcário que a gente precisa, são nossas amigas e eu não as abandonos jamais. Eu sou tipo morcego, onde eu vou levo sementes e procuro também levar sementes pra casa.

Com a participação da plenária uma exposição buscou evidenciar o processo que nos desestruturou, e tornou grande parte dos agricultores dependentes de insumos. Um processo apoiado pela mídia, e que as pessoas se tornaram adeptos pelo sensação de facilidade que ele oferecia. Só que as consequências vieram, ao mesmo tempo que esse modelo convencional ganhava espaço a população adoecia.
José Silva ainda acrescenta a importância de terem um grupo local com trabalhos voltados a agroecologia, com um trabalho em especial com o café. Sobre o modo de utilização das leguminosas, elas têm suas especificidades quanto a que cultura vai preceder ou dividir espaço, a qualidade da terra, e a espécie de leguminosas.

Na experiência citada por Roberto monitor da EFA de São Francisco DO Guaporé, o trabalho da escola voltado a produção agroecológica. Sobre as leguminosas explica serem elas aliadas a todos que desejam praticar uma agricultura ecológica e sustentável, por realizar a recuperação do solo, que muitas das vezes já foi atingido por esse convencional e se encontra degradado. Assim como o ser humano que se tornou um ser químico. Ainda cita a importância da manutenção do equilíbrio natural, existem as receitas naturais, que podem estar sendo utilizadas, mas é importante perceber que a natureza não é nossa inimiga. Nesse momento foram sendo realizadas trocas de receitas e experiências.

Letícia: expõe a necessidade de que as pessoas busquem realizar suas próprias experiências, pois o que é praticado em um determinado lugar pode não se adequar a realidade de um outro. As receitas são uma base, mas não é algo imutável, é preciso utilizar aquilo que se tem a disposição.

Américo (agricultor do Projeto Terra Sem Males) reafirma a importância do agricultor se tornar cientista dentro de sua propriedade, a aproximação e observação da natureza, e como isso valoriza o seu trabalho. O agrotóxico, não mata apenas plantas e insetos, mata pessoas, mata a cultura, cria o individualismo, e a descrença no conhecimento popular. “A beleza não está no objeto, mas nos olhos de quem a vê”, as vezes olhamos a natureza, as plantas, como mato, algo insignificante. Quando você se aproxima da agroecologia, passa a ver Deus em todas as coisas, e enxergar através desse olhar diferente a beleza e a utilidade de tudo que há na natureza. Os conhecimentos populares foram desvalorizados e desacreditados, porque não oferecem valor para o sistema capitalista, e o que a ele interessa é o valor financeiro da coisa. Nesse sentido assumiu-se o compromisso de realizar as feiras livres, para oferecer aos consumidores aquilo que tem disponível em suas propriedades. Hoje são 23 famílias envolvidas no processo, que passa por um caixa único e avaliação do grupo. A importância dessa experiência não está necessariamente no ganho financeiro, mas na troca de produtos entre os agricultores, todos têm de tudo para se alimentar, conhecendo de onde vem cada produto. A união de produtores, além de possibilitar a realização da feira, como uma fonte de renda, ainda permitiu agregar valor aos produtos, através do beneficiamento. Outra vantagem foi o envolvimento das famílias no processo produtivo, crianças, mulheres, jovens e adultos participam das feiras.

Na plenária, a exposição da condição da Bolívia, onde há uma produção quase que exclusivamente convencional, com a utilização de químicos. Particularmente entende que a produção orgânica é o melhor para a saúde. Assim tem a intenção de implantar um projeto nesse sentido, apesar das dificuldades, por estarem em uma área extrativista, sem incentivos a produção. Lamenta que não houvesse mais pessoas de outras nacionalidades presentes para conhecer a proposta agroecológica. Apesar da produção orgânica no país ser quase que insignificante, o importante é que estão iniciando, admira a capacidade de utilização da terra de alguns países, em Bolívia não estão tendo esse aproveitamento, e entende que a terra é para produzir.

Lucimar (MST) trás a experiência de recuperação de uma área degradada. Para os camponeses produtores, precisam separar o que é agroecologia e agricultura orgânica, pois esta pode ser realizada em qualquer canto, por qualquer um, já a agroecologia, é um modo de vida, que visa a garantia da sustentabilidade do agricultor e da terra. A agroecologia depende de observação da natureza para compreensão e utilização de acordo com as necessidades, e possibilitando um equilíbrio natural.

A agroecologia tem grande importância também para a conquista da terra, criando uma nova perspectiva para aqueles que estão na busca pela terra. Não temos necessidade de utilizar produtos de mercado, temos como utilizar o que a natureza nos oferece.

Para Zé Pinto, fazer agroecologia depende de amor a terra, a natureza e as outras pessoas, lutaram contra um sistema que torna nossos aliados inimigos, nossa visão frente à natureza precisa ser de aliados, companheiros. Por isso todo o trabalho inicia pela recuperação e busca de equilíbrio do solo.

Dona Fátima (Terra Sem Males – Cacoal), inicia uma apresentação dos trabalhos que vem sendo realizados por sua família e agricultores na região de Cacoal Rondônia, a fim de divulgar o que vem sendo praticado. Apresentou imagens das oficinas realizadas com as famílias.

Houve várias intervenções da plenária como dúvidas com receitas e de como fazer uma compostagem, como fazer queima de ossos...

Os expositores foram respondendo cada dúvida, conforme suas experiências.

Por ultimo, Roberto falou sobre a importância de se alimentar corretamente, usando frutas e verduras. A importância de cada fruta e a forma que elas devem serem comidas. Um exemplo errado de ser comer a fruta, é comê-la após as refeições como sobremesas. As frutas devem serem comidas de preferência antes das refeições, assim como as verduras. Não se deve ingerir líquido gelado, nem durante, nem após as refeições, o ideal é ingerir algo quente após as refeições, como o chá por exemplo.

Foi perguntado se o café poderia ser ingerido após as refeições, ele respondeu que sim, por ser quente.

Foi sugerido pela plenária em estar formando uma rede de agroecologia, onde eles possam trocar essas experiências e aplicá-las.

Foi feita uma avaliação da oficina onde todos disseram que foi um momento muito rico de experiências e aprendizado, e que estas experiências tem que serem ampliadas.

Em clima de alegria e com a oração do Pai Nosso, rezado em circulo, encerrou-se a oficina.

                                                Por: Liliana Won Ancken dos Santos e Maria Petronila Neto (CPT-RO)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Agradecemos suas opiniões e informações.