quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Problema de água no Rio Madeira, em plena Amazônia.


O Rio Madeira, desde o quintal do compositor ribeirinho Caribé, em Cojubinzinho. Foto cpt ro
Conhecida a Amazônia pela maior abundância de água do mundo, em visitas realizadas a comunidades ribeirinhas do Rio Madeira, no município de Porto Velho, têm nos surpreendido a preocupação dos moradores com a falta de água para beber.
A Bacia Amazônica representa 1/5 da água derramada no oceano por todos os rios do planeta. E o rio Amazonas tem mais de 7 mil afluentes, e possui 25 mil Km de vias navegáveis. Um deles o Rio Madeira, conhecido por suas águas barrentas, sofre ainda um grave problema de contaminação por mercúrio, decorrente dos garimpos do ouro que carrega nas suas águas. 
Apesar disso muitos moradores não tem outra opção que beber água do rio. Inclusive muitos dos poços semi-artesianos perfurados nas proximidades, oferecem muita água, porém ferruginosa ou contaminada, não apta para o consumo.
A perfuração de poços em algumas comunidades como Belmont e Cojubinzinho, financiados como compensação ambiental da usina de Santo Antônio, deram água ruim, pois foram perfurados a pouca profundidade (alguns apenas até 40 metros), ou em lugares errados, e não resolveram o problema.
Muitas pessoas destas comunidades são obrigados a carregar a água para beber e até para lavar, sendo este um dos principais problemas locais apontados por moradores, como Dona Leila, da comunidade de Belmont (situada nas proximidades do porto comercial e do aeroporto de Porto Velho): "Para beber muitos moradores compram água mineral na cidade, ou carregam de casa de algum amigo". Parece até impossível que isso aconteça em plena Amazônia, como moradores ribeirinhos do Madeira.

Seu José do Nascimento, popular Bagojé, presidente de associação de agricultores de Cojubinzinho. foto cpt ro
Outro agricultor ribeirinho, seu José do Nascimento, conhecido como Bagojé, é presidente duma associação de agricultores de Cojubinzinho (ou Cojubim Pequeno) e desabafa: "Eu já consegui trazer estrada encascalhada e energia para o local, que tem terra boa e muita produção, porém até agora não conseguimos água boa para beber". A região é muito fértil, e produz melancia, banana, abóboras e outros alimentos vendidos ao Programa Fome Zero, assim como uma variedade de feijão de praia crioulo, pesquisado até pela Embrapa.

Semente crioula de Feijão de praia de Cojubinzinho. foto cpt ro
Outro presidente de associação local, seu Valdeci, construiu uma indústria de despolpamento de frutas afastando-se da beira do rio, na vizinha comunidade de Cojubim para conseguir água de qualidade. Ele acredita que perfurando um poço no local, que dá água boa, no seria difícil levar em alguns quilômetros água encanada para Cojubinzinho e está tentando conseguir ajuda para o projeto.

O cantor e compositor ribeirinho do Madeira, Caribé. Foto  jornal orondoniense


Já a regularização fundiária é outro dos problemas apresentados por muitas comunidades ribeirinhas.da região do Madeira. Com o degelo nos Andes no período do verão e a chegada da temporada de chuvas, o Rio Madeira aumenta em até 17 metros por cima do seu nível na época seca. O limo arrastrado pelo rio fertiliza todo ano as praias e áreas de várzea, e ainda acima do barranco. "O rio Madeira de dez em dez anos dá uma grande alagação,  repondo os materiais que a chuva carregou", nos conta Altemyr Pereira Almeida, o Caribé, compositor e cantor ribeirinho, autor de Cds e músicas apreciadas na região, que também mora nesta área ribeirinha de Cojubinzinho.

Em estas comunidades, ocupadas por áreas de várzea que alagam periodicamente, a Superintendência do patrimônio da União não reconhece título de propriedade, porém entrega uma cessão de uso permanente para os antigos posseiros do local. Diversas comunidades do Madeira receberam a visita do SPU e tem processo iniciado no local para reconhecimento das antigas posses ribeirinhas.

Já os moradores de Cojubim conseguiram um acordo com o titular dum antigo título de terras registrado na época do seringal, e desmembraram as terras que alguns ocupam por mais de 40 anos, pagando $R 70 por hectare. Dona Raimunda, presidente duma associação de moradores de Cojubim, comunidade que conta com mais de cem famílias,  conta como este acordo permitiu a construção de uma escola estadual de ensino médio, que congrega mais duma centena de alunos das comunidades vizinhas, transportadas por uma flotilha de cinco o seis voadeiras de transporte escolar. 

Área adquirida pelos Transportes Bertolini Ltda. para porto. foto cpt ro
O acordo com o dono do título de terras do seringal também permitiu a alguns vender datas para novos moradores e mais de vinte famílias novas já teriam chegado a comunidade. 
Porém a chegada de estrada boa e de certa regularização fundiária, também teve contrapartida: Três grandes empresas (Cargill, Votoporantim e Transportes Bertolini) já têm comprado terrenos nas imediações e projetam construir portos na beira do Madeira,  da evitando uma grande volta do rio antes de Porto Velho. 
A Hidrovia do Madeira é uma das principais vias de recebimento de combustível para a região amazônica; que permite a entrada de mercadorias para Manaus; e o escoamento para o exterior de soja, milho e arroz produzidos pelo agronegócio depredador no Mato Grosso e Sul de Rondônia. 
Assim, enquanto o lucro do agro e hidronegócio avança no Rio Madeira, para os moradores está difícil até a água para beber. Tal vez por isso, também nestas comunidades, o que não falta é desconfiança com as autoridades e classe política, como mostra o cartaz que um morador colocou no seu portal: "Proibido a entrada de POLÍTICO ladrão".


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