terça-feira, 7 de agosto de 2012

Corumbiara não esquece.

Imagem dos superviventes de Corumbiara RO, em 1995.
Dezessete anos após o Massacre de Corumbiara, na vigília do fatídico dia 09 de agosto, os pequenos agricultores da região não esquecem daqueles que sofreram e morreram na luta pela terra. As autoridades atuais do estado de Rondônia (inclusive alguma das que participaram dele) repetem a disposição para evitar acontecer de novo um ato semelhante no estado. Não obstante a violência agrária em Rondônia não para e ainda aumentou em 2011 e neste ano 2012. As ocupações diminuiram, porém a violência contra os pequenos agricultores aumentou. A CPT RO tem divulgado fatos recentes acontecidos.

A paróquia de Corumbiara se prepara para celebrar a Missa de Aniversário pelas almas dos que morreram em Corumbiara e receber comitivas de apoiadores. A CODEVISE, grupo de remanescentes das vítimas, se mobiliza para no dia reivindicar " Educação, Saúde, Fortalecimento da produção ". Com muitas críticas aos assentamentos das famílias realizados no início do ano, após o INCRA comprar por 58 milhões as fazendas remanescentes de Santa Elina, os grupos ligados ao LCP (Liga dos Camponeses Pobres) continuam reivindicando também áreas de terras para as famílias que ficaram de fora da distribuição de lotes.


Dois acampamentos com ordens de reintegração de posse nestas datas fazem temer a resistência dos agricultores. Frente as ordens judiciais de reintegração de posse e a total intolerância a acordos razoáveis dos supostos proprietários (todos eles tem processo na justiça federal sobre as terras inadimplentes, requeridas pelo INCRA como terras públicas). Todos tememos novos confrontos diretos dos agricultores com as autoridades policiais.
 
Esforços por mediações pacíficas se repetem, porém as perspetivas são totalmente negativas em Seringueiras, onde um grupo armado tem bloqueado os acessos ao acampamento onde 80 famílias faz três anos que moram e trabalham. Ninguém foi capaz de demover o filho de Sebastião de Peder para ceder um acordo aceitável para os grupos de pequenos agricultores, dividindo 1.200 ha para eles e outro semelhante para os acampados. Justamente a parte que o INCRA pede de volta para domínio, pois o local é terra pública, não tem documento emitido e a solicitação de regularizar os lotes por parte de Sebastião de Peder e um filho foi negada, pois ele já tinha recebido e registrado outras terras públicas em Rondônia.


Um pequeno grupo de acampados quer impor a todos uma resistência a qualquer custo. A companheira de uma das lideranças que aceitou capitular, cedendo para resolver o impasse, recebeu a violência contra a esposa dele como resposta, sábado passado dia 04/08/12. A reintegração de posse anunciada para o próximo dia 10, no dia depois do aniversário de Corumbiara leva péssimos preságios para a difícil atuação da força pública.

Na ocupação do Acampamento Canaã, situado em Ariquemes, próximo ao município de Jaru, ninguém conseguiu demoler a intransigência em negociar duns proprietários que conseguiram a reintegração de posse numa área declarada inadimplente pelo INCRA. Quem ia aceitar, se o próprio INCRA está disposto até a rever o laudo para oferecer a compra da área? O proprietário esperando, somente tem a ganhar. Já os acampados...

Alguém contou a história dum pistoleiro que agora atua na área de Seringueiras (suspeito duma morte, já foi preso por uma ordem de captura anterior, e solto logo depois). Ele esteve antes na região de Colniza. A ocupação dele era passar por algumas linhas ameaçando, maltratando e aterrorizando todo o mundo. Logo após um comparsa passava oferecendo um preço barato e comprando tudo. Se alguém firmava o pé e resistia, morria. Este mesmo esquema foi utilizado também no distrito de Jaci Paraná por um grupo de matadores.
Em Seringueiras o mesmo pistoleiro fica aterrorizando impunemente os acampados. Assim em muitos lugares a pistolagem é utilizada para aterrorizar antigos posseiros ou os novos acampamentos: Ameaçando, queimando, roubando, dando tiros de noite... Se alguém resistir armado aos abusos ou quer se defender, rapidamente é denunciado e preso. Se os mandantes conseguir uma reintegração de posse na justiça (conseguem com facilidade) pressionam as autoridades para tirar o povo de cima de qualquer jeito, sem a mínima consideração social...

Logo atrás vem os novos gestores do INCRA dizendo que as retomadas de terras públicas não compensam, porque as decisões da justiça federal demoram de mais. Enquanto os processos dormem nas procuradorias deles, prazos de defesa e de recursos eram perdidos e não aparece a mínima disposição em recuperar terras que os esquemas organizados da década de 80 e 90 deixou nas mãos dos mais poderosos, dos mais corruptos, dos mais violentos...

Assim latifúndio domina três quartas partes das terras de agricultura de Rondônia. Aí dizem que precisam resolver os conflitos pagando, expropriando ou comprando as terras com recursos federais. Mesmo em terras que eram públicas, griladas, com contratos provisórios inadimplentes, e agora revisando inclusive os laudos de anteriores ações de retomada pelo INCRA.

Parecem querer acabar com os conflitos acabando com os sem terra. Não dando terra para os pequenos agricultores que precisam dela.

Se não houver intervenção real nos conflitos agrários em RO, arrumando terras para os pequenos agricultores, estaremos construindo nas áreas de reintegração um ódio terrível aos fazendeiros. Mais sem terra revoltados e com mais agricultores dispostos a resistirem. Quem será responsável pelos massacres?

Na CPT RO estamos deveras preocupados. Esperamos, sinceramente estar equivocados.


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