Seringueiros de Rondônia conhecem os caminhos de Chico Mendes

21/12/2009 -Excursão revela experiência acreana com os planos de manejo, beneficiamento da castanha e produção do tecido da floresta. XICO NERY contato@agenciaamazonia.com.br

Arteaga e dona Cecília, tia do líder seringueiro
Chico Mendes, morto em 1988 /XICO NERY
XAPURI, AC – Seringueiros rondonienses percorreram durante três dias os Caminhos de Chico Mendes, em trechos que abrangem os municípios de Assis Brasil, Brasiléia, Capixaba, Rio Branco, Sena Madureira e Xapuri. "Foi uma verdadeira odisséia", afirmou à Agência Amazônia o presidente da Organização dos Seringueiros de Rondônia (OSR), Adão Laia Arteaga, 39 anos.
A Reserva Extrativista Chico Mendes (970,5 mil hectares), criada pelo Decreto nº 99.144, de 12 de março de 1990, hoje atrai turistas e visitantes do mundo inteiro à região do Baixo Acre. Localiza-se a 153 quilômetros da capital acreana e a 30 km de Xapuri. Aqui vivem os parentes do líder amazônico assassinado em dezembro de 1988.
– Viemos aqui para conhecer a experiência dos acreanos com os planos de manejo, beneficiamento da castanha, produção do tecido da floresta (subproduto do látex usado na confecção de adornos, utensílios e vestuário pela indústria) e o processo de comercialização de essências – explicou Arteaga.
Conhecido internacionalmente por sua luta em defesa da Amazônia e de seus povos, assassinado por fazendeiros da região, Chico Mendes (1944-1988) é homenageado no turismo do Vale do Acre com um caminho que leva seu nome. Os turistas partem de Rio Branco, passam pelos municípios de Senador Guiomard e Capixaba e chegam a Xapuri, terra natal de Chico. Os caminhos têm como finalidade contar a história desse importante líder e de sua luta como ambientalista.
Remédios da floresta e modo de vida
Os visitantes conheceram de perto a copaíba, a andiroba e outras espécies só encontradas na Amazônia Brasileira. Para o presidente da Cooperativa Vida Nova e representante do Conselho Nacional dos Seringueiros na Reserva Extrativista do Rio Pacaás Novos, em Guajará-Mirim, César Mercado Barzan, 31, os resultados são animadores:
- O que pretendíamos, conseguimos: saber da vida que levou Chico Mendes e o modus vivendi e operandi que o fizeram lutar até a morte pelos povos da floresta acreana focado na manutenção da cidadania amazônica – ele disse.
Outro aspecto dos estudos foi reunir em um só pacote as lições de vida e do empreendedorismo deixados por Chico Mendes, não só ao povo acreano, mas aos seringueiros, castanheiros e comunidades tradicionais. Ele, também, verificou a importância dos processos de desenvolvimento sustentável da madeira, das essências cobiçadas por norte-americanos, asiáticos, europeus e agora, com mais intensidade, pela indústria boliviana na era Evo Morales.
Na Resex originada do Seringal Cachoeira ainda vivem parentes de Chico, entre os quais a tia Cecília Teixeira Mendes, 83, e os primos Antônio (Duda) e Luís Teixeira Mendes. A comitiva integrada por rondonienses foi monitorada pelo engenheiro florestal do Instituto Estadual de Floresta, Domingos Roberto. Ele mostrou o local onde foi extraída a primeira árvore da floresta da era pós-Chico Mendes, o breu. O breu branco é extraído por meio de planos de manejos dentro da floresta em que viveu o líder acreano. Uma placa indica o início dos manejos na Resex.
– De lá pra cá, cerca de 2.200 famílias vivem de forma sustentável, ensinando como salvar a floresta e mantendo gente dentro dela – observou Duda.


Visitantes rondonienses e técnicos
do Instituto do Meio Ambiente do Acre,
 ao lado do caminhão com madeira certificada / XICO NERY

Riberalta ligada à Resex

A Resex originada do Seringal Cachoeira começou com a ocupação de nove famílias de seringueiros apelidados pelos nativos de "Chipanos". Atualmente, com o funcionamento dos planos de manejos somam 72 famílias entre seringueiros e pequenos agricultores mais à esquerda do projeto original que só previa a extração do látex e coleta de castanha e sua industrialização dentro do estado do Acre e o excedente da produção destinada à exportação.
A Província de Riberalta, no Platô de Cochabamba (Departamento de Beni, Bolívia), continua alimentando-se dos produtos extraídos das florestas acreanas.
Outra Resex de igual importância é a Equador, também cortada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Ambas, no início do Projeto de Assentamento Extrativistas, só podiam desmatar 10% para o plantio de lavoura (arroz, milho, feijão etc) e pecuária de subsistência.
Indiferentemente à chegada de novas tecnologias forjadas pelos manejos, ainda assim, os seringueiros e castanheiros mantêm como base da economia acreana a coleta da castanha e extração da borracha. Principalmente, nos municípios do entorno da capital, Rio Branco.
Rondônia pretende copiar modelo acreano
XAPURI, AC – Para os seringueiros rondonienses, a convivência com os colegas acreanos, seus planos de manejo e o método empírico da coleta da castanha e da extração da borracha foi saudável.
– Esta é a saída para nós, que sofremos com a pobreza ou extrema pobreza, que vivenciamos em Guajará-Mirim e no distrito de Jaci-Paraná. Lá os seringais devem ser extintos com a alagação das áreas pelas hidrelétricas; em Machadinho do Oeste e Costa Marques, a pecuária e a madeireiro forçaram mudanças de hábitos radicais aos costumes dos povos da floresta rondonienses – observou Arteaga.
Ele informou que, em março de 2010, a OSR promoverá o 1º Fórum de Desenvolvimento Sustentável Agroextrativista, em Guajará-Mirim (oeste de Rondônia), com o objetivo de discutir uma saída para a crise nos seringais e castanhais da região.
– Hoje essas áreas estão praticamente garroteadas pelo Instituto Chico Mendes, que impede as populações tradicionais de terem uma vida de melhor qualidade, como ocorria antes do advento das reservas – queixou-se.
Segundo ele, após o fórum, a entidade pretende levar para as áreas sob controle da entidade que preside trabalhadores seringueiros e técnicos acreanos, a fim de que eles auxiliem os colegas rondonienses a instalar planos de manejo com a mesma metodologia adotada pelo Instituto Estadual do Meio Ambiente acreano. Acredita que esses planos contribuam para tirar os seringueiros da miséria e da falta de oportunidades de uma vida melhor dentro das Resex criadas sem consulta prévia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Santo Antônio do Matupi, no Km 180 da transamazônica.

Movimentos sociais denunciam decreto de Lula como “anistia à grilagem” e alertam para violência no campo

O acidente das usinas que nos esconderam