sábado, 12 de março de 2011

Usina de Jirau, com problemas econômicos também.

A UHE de Jirau, no Rio Madeira (Rondônia, Brasil) enfrenta graves problemas econômicos, entre outros motivos, pelo atraso até 2013 na construção do linhão de Porto Velho a Araraquara, que iria permitir a venda livre de energia, antes do previsto no leilão, a um preço muito superior. Estes problemas confirmam muitos dos temores e alertas colocados antes da construção da usina e que agora também não são tidos em conta iniciando outra megabarragem suspeita e insustentável em Belo Monte. A fonte de informação sobre os problemas de Jirau é uma reportagem do dia 10/23/2011 do Estadão de São Paulo de Josette Goulart.  

O consórcio liderado pela multinacional franco belga GDF Suez e pela Camargo e Correa venceu o leilão da construção apostando em terminar antes a construção da barragem, com a mudança de local da Cachoeira de Jirau para a Cachoeira do Caldeirão do Inferno, local onde realmente está acontecendo a construção.
Esta mudança de local, não prevista no leilão, foi motivo de muitas reclamações das empresas concorrentes e teria exigido um novo estudo ambiental. Assim também a legislação foi atropelada permitindo uma "licença parcial", que foi muito além inclusive do que foi irregularmente autorizado, motivando pesadas multas do Ibama. 
O prejuízo era pouco, tudo servia para permitir adiantar o início dos trabalhos de barragem do Madeira antes do período das águas e não ter que esperar mais um ano até a nova estiagem para o início dos trabalhos. Todos estes atropelos parece que não teriam servindo de nada, pois segundo a citada reportagem, a empresa está tendo dificuldades para conseguir vender a energia livre à preço mais elevado e ainda a previsão é que o linhão que permitiria vender a energia somente esteja terminado mais tarde, obrigando a brecar o ritmo atual da construção.
Assim, o consórcio da GDF Suez e a Camargo Correa, do consórcio Energia Sustentável do Brasil, corre sério risco de se tornar não só insustentável no quesito social e ambiental. Socialmente, já está sendo comprovada a insustentabilidade no trato recebido pela comunidade de Mutum Paraná, pelo descaso com a presença de indígenas isolados na margem esquerda do Madeira, e pelas graves dificuldades sociais do Distrito de Jaci Paraná. Enquanto do ponto de vista ambiental, a Usina de Jirau vai alagar a região do Abunâ, chegando a atingir terras bolivianas, uma das áreas naturais únicas de Rondônia, com existência de espécies endêmicas (que somente existem neste local), e que mereceria proteção especial, segundo o estudo realizado pelo Zoneamento Sócio-Ecológico de Rondônia. 
Assim. também do ponto de vista econômico o consórcio estaria sendo uma "Energia In-sustentável do Brasil", aumentando o custo previsto da usina, que pode passar de R$ 9 bilhões para 13,50, sofrendo amargos prejuízos econômicos. Nestes momentos já estaria sendo obrigada a atrasar os fornecedores e a recorrer a mais R$ 900 milhões de financiamento público adicional do BNDES.
Resultado o mesmo de sempre: Se tiver benefícios, será para os bolsos dos investidores. Se tiver prejuízos econômicos, além dos moradores atingidos e do meio ambiente, vão terminar repassando para todos nós. 

Veja a matéria citada do Estadão: 

Jirau negocia aditivo contratual de R$ 900 milhões com Camargo
Reportagem de Josette Goulart
 
A usina hidrelétrica de Jirau entra em seu terceiro ano de construção com desafios ainda maiores do que os vislumbrados no leilão da usina pelos vencedores da acirrada disputa, liderados pela GDF Suez. Os fornecedores já começam a ser procurados para postergar a entrega de equipamentos e o volume de escavação na obra está muito além do previsto, o que levou a construtora Camargo Corrêa a pedir um adicional ao contrato de obras civis de R$ 900 milhões.

Com um investimento caminhando para um acréscimo de 50% além dos R$ 9 bilhões cotados inicialmente, nem mesmo a energia destinada ao mercado livre ainda encontrou quem pagasse o preço de R$ 130 o MWh, que garante retornos mínimos ao empreendimento para compensar a tarifa de R$ 72 do leilão. As linhas de transmissão, que vão ligar Porto Velho à Araraquara, estão atrasadas e não devem ficar prontas antes do cronograma oficial, impedindo antecipações de venda de energia. A licença ambiental para a construção de outra linha, a que liga a usina ao Sistema Interligado, só foi obtida na semana passada. Além disso, a concessionária enfrenta uma disputa com a usina de Santo Antônio em torno da operação dos reservatórios, que está dificultando as pretensões de Jirau em aumentar sua capacidade de geração e, com isso, potencializar retornos.

Com tantos transtornos, a posição da concessionária Energia Sustentável do Brasil tem sido o silêncio. O presidente da empresa, Victor Paranhos, não quis dar entrevistas ao Valor ou fazer qualquer comentário sobre esses diversos assuntos, entre eles, o ajuste da Camargo Corrêa que ajuda a elevar o investimento a R$ 13 bilhões. O acionista majoritário, a GDF Suez, tampouco quis falar oficialmente sobre o tema. A assessoria de imprensa da Camargo Corrêa, que é construtora e sócia do empreendimento, não deu retorno para comentar o aditivo contratual que negocia como construtora.

O grande problema de Jirau tem sido equacionar seu retorno ao investimento. Esse inclusive é apontado como o grande entrave que tem feito os controladores da GDF Suez a barrar a participação da empresa em novos leilões no Brasil. Em Teles Pires, o grupo chegou a se associar à Eletronorte (empresa do grupo Eletrobras mais preparada para o leilão) e sequer deu lance. Os executivos da GDF Suez dizem que o projeto estava com a tarifa muito apertada pelos desafios da construção da usina. Os vencedores liderados pela Neoenergia, deram um deságio de 33%.

Alguns analistas de bancos que acompanham as ações da Tractebel, que vai herdar a participação da Suez em Jirau, fizeram as contas e o retorno para a usina do Madeira, entre 8% e 9%, só seria garantido com algumas condições: um bom preço para a energia que será vendida ao mercado livre, adicional de financiamento do BNDES em função do volume maior de investimentos e a antecipação da geração. Dois pontos causam preocupação, já que os consumidores livres não estão dispostos a pagar os R$ 130 o MWh e a antecipação do início da geração está comprometida. Os executivos da Suez, entretanto, mostram confiança em reuniões com analistas e dizem que é possível no longo prazo vender a energia ao preço desejado e potencializar os retornos. Pelo financiamento com o BNDES, a energia deveria estar vendida até maio, mas o prazo foi postergado até o fim do ano.

Já a antecipação do cronograma de operação está cada vez mais comprometido e a usina caminha para operar nos prazos incluídos no leilão, previsto para 2013. Os sócios de Jirau chegaram a aprovar a antecipação do investimento para que todas as turbinas necessárias para gerar os quase 2.000 MW de energia entrassem em operação em 2012.

Os fornecedores de equipamentos de Jirau, entretanto, têm sido procurados para negociarem uma postergação de pelo menos três meses para a entrega do maquinário à usina. Isso afetará diretamente o cronograma empresarial do projeto, que previa o início de operação para o primeiro semestre de 2012. Nas negociações, o presidente do empreendimento, entretanto, já sinaliza uma postergação ainda maior, que levaria Jirau a operar somente em 2013.

Alguns sócios dizem que essa postergação seria uma forma de adequar o cronograma de pagamento ao atraso que já se vislumbra da entrada em operação dos linhões de transmissão do Madeira. Os linhões ainda não têm o licenciamento do Ibama e é difícil que antecipem a operação. Pelo edital, o primeiro deles precisa estar funcionando somente em 2013.

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