terça-feira, 2 de março de 2010

Pedida a batificação do Pe. Ezequiel como mártir


02/03/2010 Entrevista com Pedro Bracelli - IHU On-Line –
Ezequiel Ramin era padre e queria ser médico. Veio para o Brasil em 1983, onde assumiu a causa dos trabalhadores sem-terra e dos índios na região norte do país, onde foi missionário da diocese de Ji-Paraná, em Rondônia. Quando chegou ao Brasil, Pe. Ezequiel encontrou uma caminhada já em andamento, em favor dos povos da região, que se viam cada vez mais oprimidos pelos latifúndios que eram estabelecidos pelos colonizadores que estavam indo ocupar aquela região. Os que lembram da luta de Pe. Ezequiel dizem que a pouca idade, 33 anos, dava-lhe o entusiasmo que o desafio exigia. “Ele foi uma pessoa de coerência, inteligente e que se comprometeu a estudar os problemas do Brasil logo que chegou da Itália”, relembrou Pe. Pedro Bracelli, comboniano assim como Ezequiel Ramin, durante a entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone.

Havia coisas que incomodavam Pe. Ezequiel profundamente, como as desigualdades sociais, as injustiças, a arrogância de quem tenta se impor pelas armas ou pela manipulação das leis. Ele lutava veementemente contra isso. “A fazenda em que ele morreu, já na época, ia além dos seus limites e seguia até o Mato Grosso. Toda a dinâmica da história relata a morte em Rondônia, mas dados mais recentes falam que ele foi levado até Cuiabá pelo criminosos. Ele tinha sido desaconselhado a ir até aquela fazenda porque era perigoso. Ele ouviu calado, mas seus colegas ouviram, um dia antes da sua morte, o barulho do motor do jipe. Assim, ele se afastou de casa e foi. Por volta das 12 horas do dia 24, chegou a notícia de sua morte”, afirmou Pe. Pedro Bracelli.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Quem foi Ezequiel Ramin?

Pe. Pedro Bracelli – Ezequiel Ramin foi, para mim e muitas comunidades cristãs do Brasil, uma pessoa de coerência, inteligente e que se comprometeu a estudar os problemas do Brasil logo que chegou da Itália. Entre todos os cambonianos, foi o mártir mais novo, sua história o fez assim por ser testemunha de uma coisa importante que parecia ser de responsabilidade dos mais velhos, mas que ficou aos cuidados dele. Ele se tornou testemunha de uma dedicação total aos mais pobres no campo da terra, lá em Rondônia.

IHU On-Line – Onde ele trabalhou e quantos anos atuou no Brasil?

Pe. Pedro Bracelli – Ele atuou um ano e meio no Brasil. Ao chegar, fez o curso do Centro de Formação Cultural Missionária - Cenfi , em Brasília, e depois foi enviado à Rondônia. Ele tinha trabalhado durante algum tempo na própria Itália, depois da ordenação, e, nessa época, houve um forte terremoto lá. Seus colegas contam que, por seis meses, ele viveu com as vítimas do terremoto e, nesse tempo, teve o testemunho de dedicação sincera, de simplicidade e capacidade de sofrer com os outros. Aqui no Brasil, ele se tornou o testemunho mais novo e mais evidente em âmbito nacional.



IHU On-Line – Por que e quando ele foi morto?

Pe. Pedro Bracelli – Ele foi morto no dia 24 de julho de 1985, em Rondônia. A fazenda em que ele morreu, já na época, ia além dos seus limites e seguia até o Mato Grosso. Toda a dinâmica da história relata a morte em Rondônia, mas dados mais recentes falam que ele foi levado até Cuiabá pelos criminosos. Ele tinha sido desaconselhado a ir até aquela fazenda porque era perigoso. Ele ouviu calado, mas seus colegas ouviram, um dia antes da sua morte, o barulho do motor do jipe. Assim, ele se afastou de casa. Por volta das 12 horas do dia 24, chegou a notícia de sua morte.

IHU On-Line – Qual a situação atual das pessoas que mataram Pe. Ezequiel?

Pe. Pedro Bracelli – Houve dois processos em Cuiabá, onde os combonianos marcaram presença, assim como o povo. Um foi até condenado, mas está foragido até hoje. Poucos meses depois da morte de Ezequiel, houve um desafio entre colonos e fazendeiros, e um dos fazendeiros considerado responsável pela morte do padre foi morto numa emboscada. A coisa, juridicialmente, não foi resolvida.

IHU On-Line – Como o Padre Ezequiel é lembrado hoje, em Rondônia, no Brasil e na Itália?

Pe. Pedro Bracelli – Na Itália, em sua cidade natal, parece que a família, na época, fez questão de levar seu corpo para lá. A mãe dele morreu há poucos meses. A Diocese de Pádua está interessada em encaminhar o processo canônico para averiguar se existe o martírio. Aqui no Brasil, já faz tempo que falamos nisso. Agora, o conselho provincial do nosso Grupo Comboniano Brasil-Sul decidiu lançar o tema aos colegas, recolhemos testemunhas, dois terços dos confrades são positivos e julgam útil que se inicie o processo canônico. Portanto, acabamos de mandar para Roma toda a documentação e o pedido oficial do nosso grupo diretivo para que a direção geral aprove, como parece já estar fazendo verbalmente, e trasmita esses atos ao encarregado dos processos de canonização junto ao Vaticano.

IHU On-Line – Como está o processo de beatificação de Pe. Ezequiel?

Pe. Pedro Bracelli – Estamos dando os primeiros passos oficiais, então. Foi bom deixar passar esse tempo porque as opiniões são diferenciadas e também para ver se a memória aguentava a história passando. Em Porto Velho, no ano passado, tivemos uma prova pública eclesial, no Brasil todo, onde apareceu que a memória de Padre Ezequiel foi uma das mais vivas que ficaram na igreja do país. Isso estimulou nós do conselho comboniano aqui de São Paulo a enviar um questionário para a base pedindo sua opinião sobre isto. Recebemos uma resposta muito positiva. E assim, encaminhamos o pedido oficial para Roma, como relatei. Esperamos que, dando início a isso, o processo demorará, mas que os testemunhos sejam fundamentais. Temos 30 testemunhos escritos que enviamos a Roma, eram relatos muito bonitos de pessoas que foram colegas de Padre Ezequiel. Elas escreveram que ele era um rapaz muito inteligente, sensível, decidido e que tinha vontade de ser médico e, assim, pediu aos seus superiores que depois de cursar teologia, pudesse estudar medicina. Como o pedido não foi aceito, ele veio para o Brasil. Ele aceitou vir e, com coerência, enfrentou a vida.

IHU On-Line – A camisa dele foi exposta na Tenda dos Mártires durante o último Encontro Intereclesial das Comunidades de Base. O que foi a Tenda dos Mártires?

Pe. Pedro Bracelli – Durante o 12º Encontro Intereclesial das Comunidades de Base, no ano passado, realizado em Porto Velho, religiosos, religiosas, padres e leigos organizaram a chamada Tenda dos Mártires. Foi um local com referências,


Pe. Pedro Bracelli – Estamos dando os primeiros passos oficiais, então. Foi bom deixar passar esse tempo porque as opiniões são diferenciadas e também para ver se a memória aguentava a história passando. Em Porto Velho, no ano passado, tivemos uma prova pública eclesial, no Brasil todo, onde apareceu que a memória de Padre Ezequiel foi uma das mais vivas que ficaram na igreja do país. Isso estimulou nós do conselho comboniano aqui de São Paulo a enviar um questionário para a base pedindo sua opinião sobre isto. Recebemos uma resposta muito positiva. E assim, encaminhamos o pedido oficial para Roma, como relatei. Esperamos que, dando início a isso, o processo demorará, mas que os testemunhos sejam fundamentais. Temos 30 testemunhos escritos que enviamos a Roma, eram relatos muito bonitos de pessoas que foram colegas de Padre Ezequiel. Elas escreveram que ele era um rapaz muito inteligente, sensível, decidido e que tinha vontade de ser médico e, assim, pediu aos seus superiores que depois de cursar teologia, pudesse estudar medicina. Como o pedido não foi aceito, ele veio para o Brasil. Ele aceitou vir e, com coerência, enfrentou a vida.

IHU On-Line – A camisa dele foi exposta na Tenda dos Mártires durante o último Encontro Intereclesial das Comunidades de Base. O que foi a Tenda dos Mártires?

Pe. Pedro Bracelli – Durante o 12º Encontro Intereclesial das Comunidades de Base, no ano passado, realizado em Porto Velho, religiosos, religiosas, padres e leigos organizaram a chamada Tenda dos Mártires. Foi um local com referências, celebrações e debates sobre o martírio de muitas pessoas na Amazônia Legal. Nesta recordação, testemunharam que uma das pessoas mais conhecidas, mais apreciadas foi a Padre Ezequiel Ramin.

IHU On-Line – Porque a camisa chamou tanta atenção?

Pe. Pedro Bracelli – Aquela camisa tem uma história interessante. Quando o corpo de Padre Ezequiel foi trazido para São Paulo, sua camisa foi trazida pelas irmãs da região de Rondônia que acompanharam o processo. Um mês depois da sua morte, eu ia para Rondônia, e a irmã me pediu encarecidamente que a camisa fosse levada de volta. Eu peguei aquela camisa, botei em minha mala e entreguei lá na paróquia de Rondônia. A camisa se tornou o símbolo e a relíquia de Ezequiel, uma vez que o corpo foi levado para a Itália. A camisa estava ensaguentada, perfurada de muitas balas, tornando-se o símbolo do fato grave que aconteceu, assim como do martírio, uma vez que foi totalmente voluntário a disponibilidade dele de lutar pelos povos mais pobres da região.

IHU On-Line – O que a luta de Pe. Ezequiel representa hoje?

Pe. Pedro Bracelli – Através de seu testemunho, sabemos que ele ofereceu sua vida por uma causa justa, pela fé, por amor a Deus e ao próximo. Por isso, Ezequiel Ramin representa o melhor. Pensávamos, os mais antigos, por sermos os missionários experimentados, que éramos as pessoas mais representativas na missão. E, então, com dois anos de presença, Ezequiel assumiu a problemática e ofereceu a própria vida para os pobres, índios e roceiros. Ele dizia sempre: “a vocês pertence a minha vida e a vocês também pertencerá a minha morte”. Esta é uma frase registrada que corresponde a verdade e revela, portanto, as ideias e a força que ele tinha.

IHU On-Line – Passados 25 anos do assassinato de Pe. Ezequiel, quais são os grandes desafios hoje na região de Ji-Paraná e em Rondônia?

Pe. Pedro Bracelli – Os desafios hoje são em parte parecidos e em parte não. Parecidos no sentido que Rondônia se organizou. É um estado que evoluiu muito. Com a organização, a colonização teve um sucesso bom no início e, depois, surgiram os latifúndios. Ainda há uma desigualdade entre os que são proprietários de terras e os que são empregados e vivem a vida quase obrigados a migrar novamente. Rondônia é vítima de uma praga maior ainda, atualmente, que são as drogas e corrupção. Todo mundo sabe que o governo de Rondônia é muito corrupto em todos os níveis. Esse é um grande dilema.

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