quinta-feira, 29 de maio de 2008

Gado e Amazônia

Tal vez “sem querer querendo”, a União Européia está dando neste começo de ano uma boa ajuda ao meio ambiente da Amazônia, com a suspensão da importação da carne brasileira.
A contribuição amazônica na pecuária brasileira, que era de menos da décima parte nacional no ano noventa, triplicou e passou para mais de uma quinta parte da produção brasileira no ano 2005. Levantamentos atuais falam que 50% do gado do Brasil já está na Amazônia. Segundo as estatísticas do Ministério de Agricultura, tinha neste ano 2005 total de 41.489.000 cabeças de boi criadas nos estados do Norte: Em Rondônia (11.349.000), Pará (18.069.000), e completando o resto Acre, Amapá, Roraima, Amazonas e Tocantins. Sem contar os bois criados nas áreas amazônicas do Mato Grosso e do Maranhão.
Este aumento, de 13.317.000 cabeças de boi para 41.064.000 em quinze anos, somente foi possível a custa do desmatamento e da destruição de milhares de hectares de floresta amazônica.
De forma que, mesmo que seja por motivos sanitários, se a União Européia coloca algum tipo de freio a este crescimento da pecuária, bem vindo seja para o meio ambiente. Tomara não fique só numa medida provisória, e resulte numa atitude firme frente a tanta destruição e enriquecimento ilícito.
Pois não duvidem que boa parte do crescimento da produção da pecuária é devido à grilagem de Terras da União, a fazendas e latifúndios tomados com violência, crime ambiental, corrupção, e inclusive trabalho escravo, tolerados pelo poder público em aras do crescimento econômico a qualquer custo.
O boi criado apenas com pastagem está longe de ser “boi verde”, pois as áreas de pastagem resultam em empobrecimento do solo, destruição dos mananciais, assoreamento dos igarapés, e rápida desertizaçao. É a maldição do boi: Onde entra a praga da monocultura da pecuária, acaba não somente a floresta, mais também a vida das comunidades tradicionais e dos pequenos agricultores. O fogo das pastagens todo ano destrói centenas de plantações de café e inviabiliza outras culturas perenes mais adequadas ao clima tropical e com menos impacto no bioma amazônico.
Mesmo que o desmatamento recorde do ano passado possa estar relacionado às propostas de agrocombustível, não vamos esquecer que a pecuária é a segunda etapa das monoculturas do agronegócio destruidor, a que aparece nas mesmas áreas objeto de depredação e rapinha das madeireiras clandestinas. A pecuária precede ao destocamento e mecanização do solo da soja, de efeitos ainda mais destrutivos para a intoxicação do solo e a lavagem da terra nua sob as chuvas tropicais.
Em Rondônia não para a construção de modernos frigoríficos, até com tecnologia para transformar os ossos dos bois em farelo animal, destinando a ração os seus próprios resíduos. Assim estaremos repetindo os mesmos erros da Europa das vacas loucas: Onde já se viu boi comer ele mesmo!
De forma, que sem falar nos impactos no aquecimento global, temos que afirmar: Os técnicos sanitários da União Européia têm razão: Pelo menos a carne bovina brasileira da região norte não tem garantias. Eu já vi crianças nascer e morrer com deformidades devidas a transmissão de doenças do gado. O governo de Rondônia não vacina nem suas próprias fazendas. Numa região surgida do caos e da rapinha fundiária, sem capacidade de atender a saúde humana dos seus próprios moradores, não vamos esperar que as autoridades possam rastrear quais são as vacas que criaram cada bezerro. Se um dia aparecer no Brasil (e reconhecer, que já é mais difícil!) a doença das vacas loucas, ninguém vai poder atalhar mais a doença.
Fotografias: Caminhoes boiadeiros na BR 429.
São Francisco do Guaporé, Rondônia, 16 de fevereiro de 2008.
Pe. Josep Iborra Plans,

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