segunda-feira, 24 de julho de 2017

RONDÔNIA: UM CLAMOR QUE VEM DA FLORESTA



  “A justiça não tarda, ela chega no momento certo”
Frase dita por um seringueiro da Resex Rio Cautário.

José Pantoja: Presente!

Assembleia extraordinária da Associação dos Seringueiros do vale do Guaporé /Aguapé - Costa Marques, Rondônia.

Manhã de muito frio, olhar triste, porém cheio de bravura, convicção, indignação e revolta pela covarde morte do irmão José Pantoja.

Nada seria impedimento para que pouco a pouco, o antigo barracão de reunião construído na comunidade Canindé, começasse a ser lotado. Em direção a ele peregrinavam pelos caminhos da floresta, crianças, mulheres e homens seringueiros, castanheiros e moradores do lugar, outros buscavam o rio como um caminho para lá chegarem.

Fazia tempo que uma comoção geral não pairava sobre  aquelas terras longínquas, o peso da tristeza abalava a todos, um forte sentimento de perda estava latente, afinal, José Pantoja Bezerra o lendário recordista do corte de borracha de toda a comarca de Costa Marques havia tombado, era um exemplo de trabalho humano.

A covardia, arma da mais perversa natureza, resolvera lhe visitar no entardecer do dia 17 de junho de 2017. Desta vez, através de uma equipe de fiscais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que armada como se fosse um destacamento de Capitães do Mato a serviço da corôa consumara este triste episódio. José Pantoja perdeu a vida atingido por dois tiros, após uma visita imposta por agente do ICMBIO, seu corpo jogado às águas do rio Cautário barbaramente, sendo encontrado somente no  dia seguinte. 

A morte deste valoroso seringueiro é mais um desfavor cometido por agentes do ICMBIO aos povos extrativistas do Brasil. Num sistema de política de preservação voltado a punir os pequenos e premiar os grandes, a exemplo do novo código florestal.
Pantoja era um seringueiro do velho tipo, trabalhador, desbravador dos castanhais, cauchos e seringais das primeiras décadas de criação da reserva, um homem nato do lugar e filho da floresta, que preferia viver no último seringal da Unidade de Conservação, podendo de lá sentir, enxergar e viver melhor a contemplação da natureza, assim era este seringueiro.

As laterais, fundo e centro do barracão agora repleto de extrativistas dava a dimensão do problema, ali se reuniam amigos, amigas e os antigos camaradas da produção, queriam reclamar, reivindicar e clamarem por justiça em mais uma assembleia geral extraordinária na Reserva Cautário. Entidades como a Comissão Pastoral da Terra, Organização de Seringueiros de Rondônia, Associação dos Seringueiros do Vale do Guaporé – AGUAPÉ e outras organizações entre o povo estavam, buscavam juntos construírem saídas a dor de todos.

Os moradores vinha de várias comunidades: Vitória Régia, Ouro fino, Jatobá, Canindé, Laranjal; compareciam em peso expressando a dor e revolta pelo bárbaro crime acontecido ao memorável seringueiro. Depoimentos falavam por si, em uma só voz, justiça era a palavra que se ouvia do início ao fim da reunião, no lugar denotava-se tristeza, revolta, indignação, decepção, exigia-se a verdade e a prisão imediata dos responsáveis pelo ato.

A discussão fora feita amplamente: as vozes ecoavam denúncias; arbitrariedade no trabalho dos agentes do governo; indiferença na presença quase que coercitiva do órgão ICMBIO nas localidades. Ficava claro como a comunidade era tratada, o povo que sempre deu sentindo à própria existência da floresta e do órgão, fora desmerecido no seu valor e na humanidade de sua história; assim foram, os desabafos expressados nas falas simples daquela gente guardiã da floresta.
Após quase sete horas de discussões e intervenções, uma carta denúncia estava feita, produto de um dia de trabalho, reivindicava justiça, exoneração e punição aos responsáveis pela morte de José Pantoja, destacando a real intenção do chefe do órgão naquele município. Enfileiradas como se estivessem numa grande fila indiana, famílias inteiras do lugar se espremiam para assinar ansiosamente o documento final que dava voz aos seus clamores.
A carta segundo as entidades presentes no ato será enviada a capital federal do Brasil, aos órgãos da Justiça Nacional, bem como, entidades de luta em defesa dos Direitos Humanos pelo país a fora.

 Equipe da CPT-RO, presente na Assembleia Extraordinária da Aguapé,
 em 18 de julho de 2017.
                                                             

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