segunda-feira, 8 de julho de 2019

PASTORAIS SOCIAIS, CEBs E CÁRITAS REALIZAM ENCONTRO SOBRE O SÍNODO PARA AMAZÔNIA

"É bom que agora seja vós próprios a autodefinir-vos a nos mostrar a vossa identidade. 
Precisamos escutar-vos" (Papa Francisco em Porto Maldonado).



Imagem: CPT/RO 06/07/2019
Pastorais sociais realizam, em 06 de julho de 2019 uma tarde de diálogos com a Drª Márcia Oliveira, na Paróquia Nossa Senhora das Graças, em Porto Velho -RO.

Dom Roque fez memória dos passos dados pelo Sínodo da Amazônia, destacando que foi um pedido dos Bispos da região atendido pelo Papa Francisco e que deve oferecer respostas concretas aos desafios da igreja na Amazônia hoje. Em um de seus relatos relembra um casal que em Porto Maldonado, interpela ao Papa Francisco que os ajude, pois suas vidas estão ameaçadas. No Brasil, as políticas atuais, os caminhos adotados com relação a Amazônia e a questão ambiental, confirmam o panorama de um território ameaçado, e nele também estão ameaçadas as pessoas, em especial as populações tradicionais e originárias que suas defensoras, com histórias de séculos de resistência e convivência com o bioma.

O primeiro momento do Sínodo foi chamado de escuta sinodal, a partir de uma metodologia participativa para ouvir os povos da Amazônia na sua diversidade. Esse processo aconteceu em todos os países Pan-Amazônicos, segundo a professora Marcia Oliveira, foram: 16 fóruns temáticos no total. Em números oficiais, no Brasil foram 24 assembleias, 7 fóruns e 151 rodas de conversa. As comunidades eclesiais de base -CEBs foram importantes para a realização das rodas de conversas. A vida religiosa, com destaque para as mulheres, também deram uma grande contribuição.

O dossiê composto dos materiais recolhidos a partir das escutas compõe mais de 250 informes. O Instrumentum Laboris é uma devolutiva das escutas realizadas pelo Sínodo e que precisam ser discutidos, vindo do latim, quer dizer instrumento de trabalho.

Entre os pontos de destaques, está a participação de mais de 90% dos Bispos nas escutas. Nas bases a participação das mulheres foi intensa, porém essa participação vai diminuindo nas atividades desenvolvidas nas instâncias de poder da igreja.

A participação da juventude também foi significativamente, assim como dos leigos e leigas. 
Cinco pessoas dessas bases foram convocadas para contribuir no Sínodo, dentre eles a Professora Márcia, e o primeiro indígena. É a primeira vez que uma mulher e leiga participa desse processo de construção do Sínodo, no momento em que a igreja, através do Sínodo quer discutir e reconhecer a importância do trabalho das mulheres na manutenção das comunidades de base.
A diversidade de movimentos e organizações que participaram e formularam informes, vinculados ou não a igreja representam um número de 48 coletivos. As etnias indígenas escutadas representam 44% das etnias presentes na Amazônia. 
 
Os clamores da Amazônia circundam e se confundem com uma história da igreja na Amazônia, onde muitos missionário deram a vida lutando ao lado dos povos. Temos muitas belezas, mas também muitos conflitos e violência. Como resultado das escutas, a professora Márcia explica que há um clamor, quase universal, para que a igreja esteja mais presente nas lutas dos povos da Amazônia. "Estamos numa região onde mais se mata lideranças e militantes em conflitos socioambientais. Infelizmente a Amazônia está no ranking nacional da violência contra as mulheres, e os dois estados com maior ocorrência são Roraima seguido de Rondônia com maiores taxas de feminicídio e outras violências contras as mulheres. Além disso, são elas, as mulheres, as maiores vitimas em conflitos socioambientais, tanto assassinadas, como aquelas que são sequestradas, torturadas e ameaçadas" (Marcia Oliveira).
São Clamores por justiça, direitos, paz, educação, saúde, segurança e todas as dimensões que perpassam a condição humana intermediada pela natureza ameaçada nesta grande Amazônia.  Apareceram também, as questões da dimensão e das distâncias nas regiões, onde tem comunidades que recebem as visitas e sacramentos com grande lapso temporal. Essa compreensão é difícil para outras instâncias da igreja que desconhecem a dinâmica imposta pelas grandes distâncias. Isso retoma com força no documento.

Ao final do Sínodo será gerado um documento chamado Exortação Apostólica, que terá orientações para a Caminhada da Igreja na Amazônia, que deve refletir em toda a igreja e por isso tem causado tensões, e até mesmo, pessoas se utilizando de equívocos, como dizer que o Sínodo quer a ordenação de mulheres e outras. Assim conhecer o documento é importante para não cair nesses discurso de desinformação. 
Ser uma igreja profética na Amazônia impõe desafios para a denúncia e o anúncio, e perpassa o conhecer, conviver, mergulhar nesse chão. 
A primeira parte busca ouvir as vozes da Amazônia a luz da fé; a segunda parte busca a resposta aos clamores dos povos e do território por uma ecologia integral;  a terceira parte nos provoca a ação. Assim o documento nos propõe: 1. Conversão Pastoral; 2. Conversão ecológica; 3. Conversão a sinodalidade Eclesial.

O modo de vida e relação com a Amazônia nos provoca a repensar o modelo de sociedade que queremos. A floresta é a casa comum, e nós temos invertido a lógica da vida dessa região. Os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e camponeses são os responsáveis pelas áreas ainda protegidas, e assim como o território, a floresta, são suas vidas colocadas sob ameaça. 
Estão em contradição dois modelos de desenvolvimento para a região, um que destrói (com seus venenos e monocultivos) e outro que respeita as possibilidades e limites da região.

Nessa conjuntura, o  Instrumentum Laboris é um documento Mártir, no sentido que precisa cair no nosso chão, ser semeado, para produzir frutos, fundamentado em João 12:24.  A partir dele é preciso fazer as discussões para preparar novas contribuições para a elaboração do documento final. São vários os desafios colocados, inclusive de continuidade do processo de escuta e diálogo, mesmo após o Sínodo. 

Os debates e estudos sobre o Sínodo para Amazônia seguem com a presença da Drª Marcia trabalhando nos dias 08 e 09 com os cursistas da III Etapa do Curso Regional de Formação de Agentes da CPT’s da Amazônia – “Educação e Diversidades Camponesa”. Com Dom Roque e representantes da CPTs da Amazônia e do CIMI, acontece neste dia 10, quarta-feira, uma mesa de debates.

Imagem: CPT/RO 06/07/2019



Que o Sínodo nos provoque e pela metodologia da escuta possamos nos colocar a caminho de uma verdadeira conversão pastoral, ecológica e sinodal.


NOTÍCIA: CPT/RO



domingo, 7 de julho de 2019

DIÁLOGOS SOBRE O SÍNODO PARA A AMAZÔNIA.

 
"Com certeza, esse evento eclesial iluminará não apenas a igreja da Amazônia,
mas também toda a igreja universal" (Papa Francisco).
 
 
Imagem: CPT/RO 06-07-2019
O Sínodo para a Amazônia acontece em outubro de 2019, em Roma, com a participação de lideranças religiosas de todo o mundo e esse olhar voltado para a Amazônia. Esse Sínodo vem sendo preparado com escutatórias nos nove países que compõe a região Pan-Amazônica. 
Falaram sobre o tema no programa Diálogos da Rádio Caiari, a Irmã Ana Maria da Comissão Pastoral da Terra - RO e a Drª Marcia Oliveira, Assessora da REPAM, professora da universidade Federal de Roraima, e uma das especialistas que têm contribuído nos processos do Sínodo.

"Como é bom observarmos o dinamismo da nossa igreja... Uma igreja encarnada que realmente vai se aproximando dos mais pobres e necessitados... A expectativa com esse sínodo da Amazônia é uma igreja mais próxima do povo". Irmã Ana Maria.
A professora Márcia relata que
esse sínodo é bem diferente dos demais que vem ocorrendo na igreja. O grande diferencial é que esse sínodo é uma resposta do Papa Francisco a uma demanda da região.
 
Segue um pouco dos debates e das informações trazidas pela Dra Márcia durante o programa:

1. O Sínodo vem como uma resposta dos bispos da região para toda uma realidade conflituosa que vem se agravando.
2. O tema central é a ecologia integral (sem separar a natureza das pessoas e todas as criaturas que a compõe). Também ficou muito claro que a centralidade da discussão perpassaria, em especial, os povos indígenas, pela importância e pelos desafios por eles enfrentados, onde em 2018 o Papa Francisco se encontra em Porto Maldonado -Peru  com os povos indígenas. Mas também os camponeses, ribeirinhos e quilombolas, com sua experiência e troca de saberes a partir do bem-viver, ou da nossa construção de agroecologia.
3. Foram mais de 171 etnias indígenas que participando das escutas do Sínodo, buscaram refletir os desafios, dificuldades e possibilidades a partir da Amazônia e dos povos que a habitam e são seus defensores, diante do avanço de um modelo predatório de desenvolvimento.
4.Segundo os relatórios, foram mais de 800 modalidades de escuta, com 86 mil pessoas participando, que se deram em rodas de conversa, em seminários, assembleias, dentro das universidades, o que demonstra uma grande mobilização em toda a Pan-Amazonia.
5. As cidades, o urbano, também são tema do Sínodo, em algumas regiões são 80% da população concentrada nesse espaço. As políticas públicas e sociais não conseguiram acompanhar as dinâmicas demográficas da região, o que nos faz pensar o fenômeno da migração. A Amazônia é uma porta de entrada de fluxos migratórios na América Latina, com fluxos internos e externos. Cabe a igreja, criar modalidades de acompanhamento desses migrantes: acolher, integrar e compartilhar.



A Arquidiocese de Porto Velho realizou uma etapa de escuta em 2018. Esta semana, em conjunto com a CPT, convida: religiosos e religiosas, leigos e leigas, membros de comunidades eclesiais de base, pastorais sociais , movimentos sociais, pesquisadores, e todas e todos interessados, a participar de uma mesa de debates a ser realizada no dia 10 de julho de 2019, as 19:00h no salão da catedral (ao lado do cartório Godoy).
E no dia 18 de julho de 2019, teremos o seminário sobre a formação no contexto das lutas camponesas para a Amazônia, que é o momento de convergência do encerramento de um dos processos de formação das CPTs Noroeste (RO, RR, AC, AM, MT). Acontecerá no auditório da UNIR Centro, das 8:30 as 12:00 h.
Serão momentos valiosos para a reflexão e a construção desse processo sinodal, e dos processos de formação das pastorais sociais.
 
Estendemos a toda sociedade o convite emanado pela Irmã Ana Maria no programa diálogos, da rádio Caiari.

 (vídeo: CPT/RO 06-07-2019)

Escola é destruída durante reintegração de posse em Nova Mamoré (RO)

Segundo informações recebidas pela Comissão Pastoral da Terra em Rondônia (CPT-RO), a destruição da escola ocorreu entre os dias 12 e 13 de junho de 2019 durante a reintegração de posse do Acampamento Nova Conquista. O prédio ficava situado nas proximidades da ocupação, na Linha 02 Arara, Travessão Zé Buritis, no Distrito de Jacinópolis, município de Nova Mamoré.

(CPT Rondônia / Imagem: Acampamento Nova Conquista)
A ação de reintegração de posse foi ordenada pelo juiz da 1ª Vara Genérica da Comarca de Buritis no dia 15 de outubro de 2018, mas cumprida somente agora. Cerca de 35 famílias foram despejadas das terras que ocupavam há alguns anos e tiveram suas casas destruídas. O grupo reivindica para a reforma agrária uma parte do latifúndio que seria de Isaac Benayon Sabbá.
Segundos as famílias da ocupação, a escola que havia sido construída com recursos da Prefeitura de Nova Mamoré, foi destruída durante a reintegração de posse. A escola começaria a atender em breve as filhas e filhos de agricultores da região, muitos dos quais não estavam envolvidos no conflito.
Na ordem de reintegração de posse, o juiz havia autorizado a destruição de todas as casas e demais construções das famílias, assim como as plantações existentes. Ele ordenou ainda que “por cautela deverão todas as pessoas ali presentes ser qualificadas civil e criminalmente, sob pena de condução”.
Esta é a segunda reintegração de posse contra as famílias do Acampamento Nova Conquista, que, há quase dois anos, ocupa uma área remanescente do antigo título do Seringal da Sabbá, grilada pela Fazenda Primavera, e que é reivindicada pela empresa Agropecuária Rio Machado Industrial e Comércio Limitada. A área em disputa faz parte do antigo Seringal Boa Vista, incrustado dentro da Gleba Buriti, pertencente à União Federal.
De acordo com o advogado Ermógenes de Souza, que defendia o grupo, o Ministério Público não foi consultado sobre a reintegração. Sendo este caso competência da esfera federal, tinha pedido a intervenção do Ministério Público Federal (MPF), pois “ao meu ver isso aí [a Fazenda Primavera] é uma grilagem institucionalizada de terras públicas federais, porque essas terras de seringal são áreas de domínio público […] no caso o espólio do Isaac Benayon Sabbá”, afirmou ele.

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